Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho

naoparenapistaNão Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho (2014) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma cinebiografia sobre Paulo Coelho, feita para Paulo Coelho. Dos personagens atuais, o escritor brasileiro (dos autores vivos é oque foi mais traduzido que Shakespeare) é uma das personalidades com maior potencial para atrair atenção, dada a quantidade de fãs ao redor do mundo. A oportunidade de um filme interessante, cobrindo as fases e mutações do maluco, se desperdiça pela presença maciça do Paulo Coelho de hoje, um espectro de autoajuda do radicalista de outrora.

A história foca em duas fases, a do filho rebelde (Ravel Andrade) x pai opressor, e nos dis atuais (Júlio Andrade) e as angustias de um homem de sucesso, em busca, novamente de seu caminho. O filme dirigido por Daniel Augusto tenta dar cabo de todos os universos e mulheres da vida de Paulo Coelho, passam como um meteoro as relações com o místico, sociedades secretas, a fase maluco beleza com drogas, e até a parceria com Raul Seixas (Lucci Ferreira), que de longe é o que mais interessante se apresenta.

Sobra muito do que Paulo Coelho quer apresentar, um velhote aventureiro, um adolescente feio e rejeitado sonhando em ser escritor. E, as barreiras impostos para perseguir seu sonho. Talvez o filme dialogue mais com seu momento atual na carreira de escritor, seus livros que encontram numa autoajuda silenciosa o preenchimento do ego de alguém que se reinventou todas vezes, até alcançar o status desse escritor que atingiu as massas.

O resultado é um esqueleto desajeitado e vazio, se sua viagem como peregrino ao Caminho de Santiago deixou-lhe marcas que carregará consigo, seu filme é incapaz de demonstrar qualquer traço das influências que o fizeram escrever os livros que escreveu, ou as canções que compôs. O filme é quase um joguete na mão de alguém que pretende vender o hoje, quando o interessante foi o ontem e o anteontem.

 

Longe do Vietña

longedovietnaLoin du Vietnan (1967 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Como é a grande a oferta de critica e opiniões, nos dias atuais, que tentam ser contundentes, trazer à tona a verdade, o horror da guerra, o terror. Melodramas aproveitadores aos montes, deles pouca contundência e criatividade. Até que, às vezes, você acaba se deparando com um trabalho como esse, idealizado por Chris Marker, no meio da Guerra do Vietña, uniu outros diretores de cinema e constroem um filme protesto tão legítimo, complexo, político e decisivo.

Alains Resnais, Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Claude Lelouch, William Klein e Joris Ivens, filmando a Guerra, os protestos, os vietcongs. Comunista por excelência, esse misto de documentário e cenas gravadas com poderosos diálogos é uma pequena pérola anárquica, um ode à paz e a liberdade. Conta em detalhes as tramas políticas da sucessão da França pelos EUA na Indochina e Vietnã, a guerrilha do dia-a-dia dos colonos frente o poderio bélico dos americanos.

É um raio-x impressionante, um resumo de conflito descabido, cujas opiniões são expressadas de maneira poética, anárquica, verborrágica, e dentro da mais clarividência da situação político-cultura da época. Um planeta em plena ebulição que resultaria nas revoluções estudantis do ano seguinte.

Prazeres Desconhecidos

prazeresdesconhecidosRen Xiao Yao / Unknown Pleasures (2002 – CHI) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os personagens observados por Jia Zhang-ke são aqueles mais enraizados na China continental, ainda distantes da minoria que cursou faculdade, aprendeu a falar inglês e sofre um choque menor entre sua cultura e a ocidental. Jia aborda a grande China, mais distantes dos grandes centros. Ainda de longe, cada vez mais os chineses se aproximam do mundo pop, da influencia ocidental. O cinema de Jia vai crescendo, e seguindo o próprio curso de seu país. As questões são as mesmas, porém as aflições mais que constantes.

É o filme mais direto de Jia até aqui, sua mensagem crítica praticamente aponta o dedo para feridas. Os dois protagonistas são jovens desempregados, sem perspectiva. O filme margeia a rotina, os encontros entre amigos, dia-a-dia com namorada ou com flertes. De alguma forma vivem do mundo “marginal”, a cantora que vira garota-propaganda de uma fábrica de cervejas e fica a mercê de um cafetão, a esperança de encontrar no exército o sustento já que o mercado de trabalho não oferece perspectivas. Se aqui temos um mercado de trabalho competitivo, que cada vez mais exige requisitos para qualquer função, imagine na China e uma população imensamente maior.

No meio de um vilarejo pobre, numa pequena tv o povo assiste a escolha de Beijing como sede das Olimpíadas. É o contraponto de uma China tão rica e tão pobre, a divisão de renda tão, ou mais opressora, do que em qualquer país capitalista. A jovem não sabe em qual profissão seguir, mas pouco importa, sua opinião não tem peso, seus pais escolheram qual curso ela deve cursar. Jia parece mais implacável, a cultura capitalista eclodindo além das garras, seja nas referências a Pulp Fiction (o camelô não tem Plataforma ou Pickpocket para vender, o filme do Tarantino sim), seja no poder dominante que cria um hiato cada vez mais colossal na sociedade. Os chineses vão encontrando na pequena ilegalidade as formas de sobrevivência, Jia explicita, perdendo a poesia vagarosa de seus filmes anteriores, mas com uma alta capacidade de refletir o quanto a sociedade chinesa navega à deriva.

Plataforma

plataformaPlatform / Zhantai (2000 – CHI/HK/JP/FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Sem permissão para filmar, o jovem cineasta Jia Zhang-Ke (ícone da sexta geração do cinema chinês) buscou dinheiro em outros países, Takeshi Kitano foi um dos que patrocinou esse filme-testamento sobre as profundas mudanças sócio-econômicas chinesas na década de oitenta. Novamente Jia filma Fenyang, sua terra natal. A narrativa começa em 1979, uma trupe de teatro amador se apresenta com peças pró Mao Zedong. Jia aprofunda seu estilo de longos planos fixos e abertos (mesmo em ambientes fechados), numa posição de distanciamento como quem observa sem interferir. Discussões do grupo teatral, diversão com amigos, relacionamento familiar, namoro, Jia observa as mutações do grupo, que perde o patrocínio estatal.

Plataforma é uma canção tradicional chinesa, faz referência a plataforma de trens. Jia é tão sutil quanto crítico, vagaroso em sua forma de explicitar as transformações que lhe surpreendem ao rever sua cidade, seu povo. Se seu estilo parece manter essa distancia documental, ele está mesmo enraizado em suas próprias observações, um jovem que percebe que a sociedade a que pertence caminha numa direção que ninguém sabe qual é. Cada um dos personagens da trupe vai para um lado (Tao Zhao, Jing Dong Liang, Tian-yi Yang, Bo Wang), a absorção da cultura pop ocidental é cada vez mais nítida com o passar dos anos. A abertura econômica implacável com o estilo de vida mais fechado que marcou a China antes do período. Uma banda de rock, os pais de Mingliang (Hongwei Wang) que passam a viver separados, os atores que acabam em outros tipos de carreiras até o derradeiro plano final que tão simples e tão profundamente contundente.

The Rover – A Caçada

theroverThe Rover (2014 – AUS) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O novo ícone do cinema australiano, o cineasta David Michôd, adora essa desconstrução da unidade, a manutenção da paz social. Seu filme anterior era sobre uma família fragmentada, de marginais. O novo vai ainda mais longe, cria uma Austrália que sofreu um colapso (econômico? Natural?), e 10 anos depois as pessoas sobrevivem como animais, com armas nas mãos e dólares americanos como moeda de troca.

Nesse mundo apocalíptico de sobrevivência três homens roubam um carro de Eric (Guy Pearce), que simplesmente parte atrás deles, pelas estradas australianas. Michôd apresenta personagens em decomposição, seja pelo calor, ou pela nova ordem social. No caminho encontra Rey (Robert Pattison), irmão de um dos que roubaram o carro.

Nitidamente há naquele carro algo de valor a Eric, Michôd não está muito preocupado com muitas histórias e detalhes, seu filme é um road movie de perseguição e de personagens suados e maltrapilhos, que apenas sobrevivem, sabe-se lá como e até quando. Michôd tenta se impor pelo estilo, pela câmera que filma a estrada ou o suor que escorre e se mistura a sangue, enquanto os disparos massacram. Michôd ainda tem um longo caminho a percorrer, sob seus filmes pesa uma urgência que o todo ainda não foi capaz de traduzir, ainda assim impressiona sua capacidade de movimentar a indústria australiana de cinema.

Um Artista Batedor de Carteiras

umartistabatedordecarteirasXiao Wu / The Pickpocket (1997 – CHI/HK) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O batedor de carteiras Xiao Wu (Hongwei Wang) é de Fenyang, assim como o diretor Jia Zhang-Ke. O cineasta usa o trambiqueiro para apresentar as mudanças que ele observa em sua cidade natal, no seu cotidiano de vida. Os amigos de Xiao estão mudando de vida, são os primeiros passos da influência do Ocidente e do desenvolvimento econômico.

Quando Xiao percebe que um de seus grandes amigos de vida marginal irá se casar, e não o convidou ao casamento é que percebe que está ficando de lado, tal qual a China que eles conheciam até ontem. Solidão, desconsolo, Xiao encontra num envolvimento com uma prostituta (Hao Hongjian) uma tábua de salvação.

Jia filma esse denconsolo enquanto testemunhas as mutações de uma região rural chinês. Discretamente o progresso, enquanto Xiao, inconsolável, tenta se apegar, de maneira destrambelhada, a qualquer fagulha que traga alento a seu coração. Por fora parete forte como um rocha, por dentro é um coração destroçada cujo abandono social legitima essa necessidade de adaptação ao mundo novo, às transformações irreversíveis.

Volta Pra Casa

voltapracasaGoing Home / Xiaoshan Huijia (1995 – CHI) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A estreia experimental de Jia Zhang-Ke já tratava do fluxo de chineses. Flertando com a Nouvelle Vague, e utilizando-se de um conjunto de fragmentos de cenas, Jia segue a via crucis de um cozinheiro (Hongwei Wang) que, sem dinheiro, tenta voltar para casa no Spring Festival (tempo do Ano Novo Chinês).

Jia mistura o branco e preto com cores, e distribui por essas cenas fragmentadas a necessidade do jovem em estar em casa, por outro lado as dificuldades financeiras da vida numa metrópole (Beijing). Jia trata dessa migração por oportunidades, longe da casa, de forma sutil e desglamourizada. Encontros com amigos, desencontros com a namorada, a pressão pelo casamento, a Beijing que te engole entre bairros meio sujos. Voltar para casa parece uma tarefa cada vez mais distante, e deveria ser tão simples.