Peões

peõesPeões (2004) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Com a vitória de Lula praticamente assegurada, ao seu primeiro mandato como Presidente da República, o diretor Eduardo Coutinho parte em busca das origens do movimento sindicalista que o tornaram nome nacional, estuda o movimento de 1979/80 que parou o ABC e a indústria automotiva brasileira. Por meio de entrevistas com “anônimos”, aqueles que trabalharam ativamente na militância, porém não se tornaram famosos, ou políticos, Coutinho reconta parte da história, revive o ápice do sindicalismo no Brasil, reencontra os coadjuvantes dos comícios e fotografias.

As histórias não se desenvolvem com a profundidade de outros documentários de Coutinho, seus personagens batem na mesma tecla de uma adoração (no estilo fanático religioso) a figura de Lula, que foi peão como eles, e os liderou em busca de justiça e melhores condições contra as grandes montadoras presentes no país. Imagens de arquivo de comícios se dividem com reuniões de anônimos resgatando fotos, se encontrando e recontando parte de suas histórias de vida. Quase sempre da ausência da família, do amor pela política e com o discurso sindicalista afiado. Dessa vez Coutinho não consegue transformar cada indivíduo em único, é tudo tão semelhante que a repetição chega a ser desgastante.

Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei

simonalSimonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei (2009) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Nasci no período de ostracismo de Wilson Simonal. Provavelmente só tenha ouvido falar dele na época de sua morte, via notícias da imprensa sobre sua internação. De repente surge alguém que rivalizava em carisma e sucesso com Roberto Carlos na época da Jovem Guarda, como assim? Sua história é mais que um caso interessante, um estudo aterrorizante do poder da imprensa de transformar um indicio em julgamento.

Dirigido por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, o documentário em si é simples, mistura de depoimentos de pessoas ligadas a ele (de Pelé e Nelson Motta a Miele) e o resgate de programas de tv e recortes de jornais e revistas. Do sucesso a acusação de ser dedo-duro do DOPS, no período de maior repressão da ditadura militar, o filme vai buscar depoimentos e opiniões sobre a figura e o fato que foi o divisor de águas em sua vida.

Óbvio que o depoimento do contador (acusado de roubo por Simonal) é um artifício poderoso, um contraponto a fala mansa de Chico Anysio e outros famosos. Mas, juntos, formam um consistente conjunto de fatos que dão luz ao que parece ser o possível envolvimento (para o bem e par ao mal) de Simonal com toda essa história. Porém, o mais forte não é a história, e sim os desdobramentos. Como a classe artística e a imprensa o transformaram em persona non grata, no boicote de sua carreira, a verdadeira Inquisição oriunda da ingênua malandragem de alguém que se achava (e até fosse) o rei da cocada preta, mas em alguns tabus morais ninguém pode mexer.

O Palácio Francês

opalaciofrancesQuai d’Orsay / The French Minister (2013 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Comédia que ganha o público pela repetição e pelo cansaço. Não há nada de humor relevante no jovem Arthur Vlaminck (Raphaël Personnaz) que chega como assessor de linguagem do ministro. Muito menos no chefe de gabinete, o ponderado Claude Maupas (Niels Arestrup) que trabalha como o coração do Ministério do Exterior. O charme é mesmo do ministro (Thierry Lhermitte), que age de forma espontânea, as vezes incompreensível (meio Gilberto Gil), e suas manias, tratatas à repetição trazem o que se pode chamar de charme.

O classicismo do diretor Bertrand Tavernier não parece combinar muito com comédias, é de Lhermitte e sua performática presença, a frente das câmeras, que o filme consegue se desenvolver entre disputas internas e toda a burocracia governamental. A sátira sobre as loucuras do comando de um país é narrada de maneira elegante e patina em todas as cenas em que Lhemitte não marque presença (por mais que Arestrup tenha ganhado o César de ator estrageiro e demonstre seu costumeiro refinamento). O fato é que o jo vem assessor não decola, seu protagonismo é engolido pelos demais em cena, até Julie Gayet pode mais que o atrapalhado e sem graça Personnaz.

O Sétimo Continente

osetimocontinenteDer Siebente Kontinent (1989 – AUT) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Ainda não sei em sua fase televisiva, mas, desde sua estreia nos cinema (com este filme), seus casais de protagonista sempre se chamam Anna e George, se eles têm uma filha, sem nome é Evi. Michael Haneke é assim, método, calculista, um engenheiro capaz de comandar as emoções do público, de forma discreta, e um tanto sádica.

A ideia veio de um artigo de jornal. Haneke filma um casal (Birgit Doll e Dieter Berner) austríaco, de classe-média, entediante. Empregos estáveis e rendas confortáveis, uma linda e doce filha. Ao dar importância de protagonista a cada objeto em cena (a mesa do café, o aquário, o relógio, a placa do carro, Haneke encontra o incomodo que sempre instaura na plateia. Como também, traz o foco para além dos personagens, como se tudo fizesse parte do todo, de forma igualitária.

Cansados daquela vida, ausente de emoções, eles planejam se mudar (destino Austrália, referencia ao título, um mito de sol e felicidade para os europeus). Nesse ponto que toda atmosfera criada por Haneke faz sentido, os minutos finais são angustiantes, é nítido o que vem pela frente, mesmo que os olhos não queiram acreditar. A tv como último refúgio é apenas um dos questionamentos.

Noé

noeNoah (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Darren Aronofsky vai provando que não se dá bem com grandes orçamentos. A coisa sai de controle, se torna faraônica, imensa. Fonte da Vida era seu filme mais fraco, e o maior orçamento que Aronofsky havia trabalhado. Agora adaptando parte do Velho Testamento da Bíblia, revivendo a figura de Noé e sua Arca, o orçamento enorme resultou num monstrengo oco.

A força religiosa da história está presente, porém, além da mensagem de Deus que Noé (Russel Crowe) interpreta e leva adiante, o filme foca muito mais nos dilemas de um homem integro em sua fé. E, também, se torna, talvez, o primeiro defensor do ambientalismo da história. Os animais quase não aparecem no filme, e quando aparecem são apenas efeitos especiais. Por outro lado, em dado momento, a história vira um grande filme de ação, com lutas e gente correndo por todos os lados.

Aronofsky deixou tudo grandioso demais, por mais que a história seja realmente definitiva (afinal, o planeta foi inundado e só sobrou quem estava na Arca), há sempre essa necessidade pela emoção, pela disputa, o vilão está presente até o último minuto. Por outro lado, há o drama familiar, que coloca a prova tantos questionamentos de Noé, seria o melhor do filme se não ficasse quando chamuscado por essa necessidade de ação a todo custo.

Cannes 2014

cannes2014

 

 Não tem jeito, Cannes é o holofote e o tapete vermelho do cinema tido como autoral. Por isso que tos os envolvidos com cinema aguardam a lista dos filmes selecionados, reclamam das ausências ou presenças, e os profissionais brigam para estar por lá. Ter um filme em Cannes significa ser visto, ser valorizado. E, consequentemente projeção e vendas.

Já sabemos bem como funciona a lista principal, uma divisão geográfica que tenta agradar a todos, manter o prestígio dando preferência aos queridinhos do festival. São sempre 4 franceses, 4 filmes dos EUA (e Canadá), algum latino, se possível um africano, pelo menos 1 italiano, uns 2 britânicos e algum filme da Ásia (se possível, mais de um). Os nomes são, essencialmente,  os mais consagrados da atualidade, sobrando pouco espaço para jovens (que acabam em outras mostras paralelas), a prenseça de 1 ou 2 títulos na Competição traz sempre um quê de aposta pequena, de gente que acaba virando habitué em breve.

Este ano, entre os queridinhos do festival estão os Irmãos Dardenne,  Cronenberg, Egoyan, Godard, Assayas, Kawase, Leigh, Loach, e novos queridinhos como Ceylan, Bonello, Dolan, o russo Zvyagintsesv e Hazanavicius surgem pela segunda vez. Novidade mesmo na competição é a italiana Alice Rohrwacher, o argentino Szifron (filme tem produção de Almodóvar, o que ajuda muito), e o americano Bennet Miller (sua escolha demonstra uma grande aposta em seu filme para o Oscar, ou uma safra franquíssima americana para este ano). Se quer novidade, urgência, algo novo? Melhor buscar em outro festival, a seleção de Cannes tem suas cadeiras vitalícias preenchidas e poucos espaços.

A abertura do festival será com a cinebiografia de Grace Kelly, com Nicole Kidman no papel principal. Mas, se aindaé cedo para se entusiasmar com algum filme, meus radares estarão com atenção redobrada para Saint Laurent, Sils Maria, Winter Sleep, Leviathan e Deux Jours, Une Nuit.

Já a prestigiosa Un Certain Regard abriga filmes de diretores nem tão famosos, comparado a outros anos. Ainda assim tem Mathieu Amalric, Wim Wenders, Lisando Alonso e a estreia de Ryan Gosling. Essa lista merece uma garimpada melhor.

Agora que venha logo Maio e a cobertura do Festival para despertar o interesse, ou o interesse por todos esses filmes.

 

EM COMPETIÇÃO

Filme de abertura
Olivier DAHAN GRACE DO MÓNACO 1h43
***
Olivier ASSAYAS SILS MARIA 2h03
Bertrand BONELLO SAINT LAURENT 2h15
Nuri Bilge CEYLAN WINTER SLEEP 3h16
David CRONENBERG MAPS TO THE STARS 1h51
Jean-Pierre DARDENNE,
Luc DARDENNE
DEUX JOURS, UNE NUIT 1h35
Xavier DOLAN MOMMY 2h20
Atom EGOYAN CAPTIVES 1h53
Jean-Luc GODARD ADIEU AU LANGAGE 1h10
Michel HAZANAVICIUS THE SEARCH 2h29
Tommy Lee JONES THE HOMESMAN 2h02
Naomi KAWASE FUTATSUME NO MADO
(Still the water)
1h50
Mike LEIGH MR. TURNER 2h29
Ken LOACH JIMMY’S HALL 1h46
Bennett MILLER FOXCATCHER 2h10
Alice ROHRWACHER LE MERAVIGLIE 1h50
Abderrahmane SISSAKO TIMBUKTU 1h40
Damian SZIFRON RELATOS SALVAJES(Wild Tales) 1h55
Andrey ZVYAGINTSEV LEVIATHAN 2h20

UN CERTAIN REGARD

Filme de abertura
Marie AMACHOUKELI,Claire BURGER,Samuel THEIS PARTY GIRL1º filme 1h35
Lisandro ALONSO SIN TITULO 1h41
Mathieu AMALRIC LA CHAMBRE BLEUE 1h15
Asia ARGENTO INCOMPRESA 1h43
Kanu BEHL TITLI1º filme 2h04
Ned BENSON ELEANOR RIGBY
1º filme
1h59
Pascale FERRAN BIRD PEOPLE 2h07
Ryan GOSLING LOST RIVER1º filme 1h45
Jessica HAUSNER AMOUR FOU 1h36
Rolf de HEER CHARLIE’S COUNTRY 1h48
Andrew HULME SNOW IN PARADISE1º filme 1h28
July JUNG DOHEE-YA(A Girl at my Door)1º filme 1h59
Panos KOUTRAS XENIA 2h03
Philippe LACÔTE RUN
1º filme
1h40
Ruben ÖSTLUND TURIST 2h
Jaime ROSALES HERMOSA JUVENTUD 1h40
WANG Chao FANTASIA 1h25
Wim WENDERSJuliano RIBEIRO SALGADO THE SALT OF THE EARTH 1h40
Keren YEDAYA LOIN DE SON ABSENCE(Away From His Absence) 1h35


FORA DA COMPETIÇÃO

Dean DEBLOIS DRAGONS 2 1h45
ZHANG Yimou GUI LAI
(Coming Home)
1h51

SESSÕES DA MEIA-NOITE

CHANG PYO JEOK
(The Target)
1h39
Kristian LEVRING THE SALVATION 1h30
David MICHOD THE ROVER 1h40

 

SESSÕES ESPECIAIS

Aida BEGIC, Leonardo DI COSTANZO, Jean-Luc GODARD, Kamen KALEV, Isild LE BESCO, Sergei LOZNITSA, Vincenzo MARRA, Ursula MEIER, Vladimir PERISIC, Cristi PUIU, Marc RECHA, Angela SCHANELEC, Teresa VILLAVERDE LES PONTS DE SARAJEVO
(Bridges of Sarajevo)
1h50
Gabe POLSKY RED ARMY 1h25
Sergei LOZNITSA MAIDAN 2h
Ossama MOHAMMED EAU ARGENTÉE 1h50
Stéphanie VALLOATTO CARICATURISTES – FANTASSINS DE LA DÉMOCRATIE
(Cartoonists – Foot Soldiers Of Democracy)
1h46

Eles Voltam

elesvoltamEles Voltam (2012) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um carro para, no meio de estrada, dois adolescentes descem e o carro parte. Ali ficam dois irmãos. Largados pelos pais. Imagino que tal comportamento passe pela cabeça de muitos pais, o inferno das brigas e crises adolescentes, e, simplesmente largar o “problema” numa estrada qualquer.

O filme de Marcelo Lordello não é sobre a relação pais x filhos. Está muito mais voltado na situação em si, em seguir os passos de uma garota de 12 anos, sozinha, quieta, perdida. Maria Luiza Tavares é Cris, a garota que carrega seu celular e age como uma pena, deixando o vento a levar. Aceita ajuda de quem se dispõe, simplesmente segue as ordens. Talvez o filme de Lordello seja sobre isso, a inoperância da adolescência de classe média, a necessidade de quebrar o cordão umbilical, o escudo protetor com que os pais os protegem do mundo.

A câmera acompanha os encontros de Cris, garotas de sua idade, pessoas muito pobres, e elapassiva, aceitando, esperando que uma luz a deixe em casa. Afinal, ela tem 12 anos, e independência nenhuma. Os planos fechados, o ritmo contemplativo, praia, areia, a vida nbo meio do nada. Lordello parece pouco preocupado com discussões, a força da realidade de seu filme vem do mesmo olhar de sua personagem, uma visão passiva, que aceita tudo, de close-ups que mostram sem dizer muito.

E quando havia sinais de desfecho, a movimentação desse road movie chega a um destino, e traz com ele os conflitos, os reencontros, e algum drama que não fica claro, e que pouco soa como importante para aquela história de uma menina que nem está amadurecendo, e apenas enfrentando uma adversidade que a vida lhe impôs.