A Paixão de Joana d’Arc

apaixaodejaoanadarcLa Passion de Jeanne d’Arc (1928 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

É impressionante a força narrativa com que Carl Theodor Dreyer resgata a heroína francesa. O filme é praticamente a reconstituição (baseada nos relatos guardados pela corte francesa) do julgamento de Joana d’Arc (Maria Faconetti). A câmera fixa, plano fechado na atriz, que chora, se desespera, fica desconsolada por não acreditarem em sua versão da história, nos sinais e falas de Deus. No contraplano os que julgam, inquisidores, ofensivos. O silencio do cinema mudo, a força da atuações, exageradas, poderosas.

A atuação de Maria Faconetti foi considerada a melhor de todos os tempos por Pauline Kael, talvez a crítica americana tivesse razão dessa vez. Dreyer, de forma seca, simples e angustiante, oferece a Faconetti as ferramentas para essa atuação desesparada, os olhares perdidos, a proximidade à sentença de morte, o peso da verdade e coação de mentir para se safar. A intensidade com que Dreyer castiga a atriz, praticamente resumindo seu filme ao seu rosto, é o que torna o julgamento cortante de tão penoso.

Vício Inerente

vicioinerenteInherent Vice (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

É como se Paul Thomas Anderson condensasse toda a parte descolada de sua carreira num único filme. Sua bastante fiel adaptação do livro homônimo de Thomas Pynchon é um noir multicolorido, e animado em sua trilha sonora, em permanente viagem de entorpecentes. Esse espírito captado por Anderson é tal qual o livro. A sensação de que o detevido “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix) vive em constante efeito de drogas, e outros alucinógenos, é a verdadeira linha narrativa utilizada por Pynchon e por Anderson.

O detetive se mete nas maiores confusões quando se envolve a investigar um pedido de sua ex, de gangues de motoqueiros nazistas, a um navio de contrabando, passando por um policial estranhíssimo, tudo é motivo para Doc “fumar um”. Este noir pós-moderno de Anderson carrega tons sexuais, o colorido dos hippies dos anos 70, e doses cavalares de humor por uma Califórnia extravagante e sensual.

Seguir todos os acontecimentos (tanto no filme, quanto no livro) se mostra uma perda de tempo, é impossível, é confuso, não deve mesmo fazer sentido nem na cabeça do autor. Talvez por isso consiga traduzir tão bem a essência dos anos 70, a malemolência, o suingue de quem coloca sua vida em risco e simplesmente ri de tudo a seguir. Anderson sai dos temas tão densos, da rigidez religiosa, para um clima de liberdade total, de descompromisso, o submundo do retrato da liberdade setentista.

Outros Filmes de Paul Thomas Anderson aqui na Toca: Jogada de Risco | Boogie Nights | Magnólia | Embriagado de Amor | Sangue Negro | O Mestre

Eden

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Eden (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O cinema de Mia Hansen-Love sugere a comparação a um avião planador. Seus filmes sobrevoam personagens com leveza, observam num voyeurismo contemplativo. A sutileza ocupa o espaço do peso dramático, ela sempre opta pelo singelo, se permite evitar o profundo, sem que se esquive das dificuldades (a morte do pai em O Pai das Minhas Filhas, a fase problemática do protagonista neste novo filme). Hansen-Love surge como um novo expoente do cinema novo francês, mas, mesmo selecionado para o Festival de San Sebastian, seu novo trabalho se coloca apenas num segundo escalão de destaques do ano.

Baseando-se livremente na vida de seu irmão, Hansen-Love foca seu olhar na cena eletrônica francesa, que nos anos 90 começou a ganhar destaque (tendo como seu grande nome o Daft Punk). Paul (Félix de Givry) surge nessa época num duo de house-garage, e por meio de capítulos (que constituem 20 anos), o filme traça o perfil de alguém que tentou viver da música, aproximou-se do sucesso, mas não conseguiu solidificar a carreira. O filme vai da empolgação aos amores frustrados, das raves e amizades até os desprazeres provocados por excesso de drogas, as expectativas e decepções maternas. A palavra Eden remete a um “local de prazeres”, e a vida de Paul sempre foi um eden inconsequente, um sonho levado ao extremo do possível.

Do mundo underground, a visão de Hansen-Love é bela, recheada desse contemplativo que equilibra o ritmo das músicas e a “vida loca” da juventude. Com naturalidade, o filme dosa essa equação entre pura agitação e leveza, num travelling de 180º filma  a galera vibrando com o setlist de Paul, a câmera trafega lentamente, os corpos pulam ao ritmo da música, é um conjunto que só fica harmônico no filme. Há outras cenas desse tipo de beleza, a cineasta não parece interessada em ir muito além da cena musical da época, nem mergulhar nas profundezas de Paul, prefere essa posição intermediária de quem observa tudo sem julgamentos.

Filmes de Mia Hansen-Løve aqui na Toca: O Pai das Minhas Filhas | Adeus, Primeiro Amor

Cléo das 5 às 7

Cleo-de-5-a-7Cléo  de 5 à 7 (1962 – FRA)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Subdividido em pequenos capítulos de poucos minutos, o filme acompanha duas horas na vida da cantora francesa Cléo (Corinne Marchand). Momentos angustiantes enquanto a jovem aguarda os resultados do exame que podem indicar uma doença fatal. Nesse intervalo, ela procura uma cartomante, encontra amigas, vai às compras, anda de bonde, enfim, transforma Paris em palco de seu desfile.

A diretora Agnès Varda encontra o timing perfeito entre tensão e leveza, além das possibilidades de explorar a personalidade de Cléo em sua plenitude. A ingenuidade, a futilidade, as inseguranças, o ar romântico, a esperança. Varda filma como seu pintasse um afresco, com sensibilidade, e frescor, enquanto rivaliza o tempo de Cléo entre medos e incertezas e as companhias que cruzam seu caminho nessas 2 horas fatídicas. A diretora transpira Nouvelle Vague (ela como um dos expoentes femininos, ainda que sua carreira seja anterior ao movimento), enquanto busca a efervescência da juventude na forma narrativa. Como na cena inicial, a imagem centrada nas cartas, enquanto a cartomante lê o futuro da jovem, sem que tenhamos outra visão que não sejam as cartas.

Dívida de Honra

dividadehonraThe Homesman (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Novamente presente em Cannes, as lembranças da estreia na direção de Tommy Lee Jones são animadoras, novamente com um faroeste. Mas, se seu filme anterior era duro, seco e próspero, neste novo trabalho prevalece o tradicionalismo (com pitadsa leves de humor carrancudo), além de um espaço para o próprio ator-diretor brilhar.

Três mulheres “enlouqueceram” num pequeno vilarejo em Nebraska, algo em torno de 1850. Alguém precisa cruzar o deserto para levá-las para tratamento. A única que encara a missão é uma solteirona durona (Hilary Swank), que recruta um “vagabundo” (Tommy Lee Jones) para ajudá-la. Por mais que haja outros nomes de destaque, o filme não consegue desenvolver outros personagens que não a dupla central. Focado principalmente nas discussões entre dois turrões, enquanto a fotografia de Rodrigo Pietro tenta dar dimensões da aridez do local. O road movie é demais focado nessa relação “conturbada”, Lee Jones presta a retomada da narrativa tracional de faroestes, com doses de dramas e justiças, bem longe da sensibilidade inesperada que Três Enterros apresentara.

As Minas do Rei Salomão

King Solomon’s Mines (1985 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Quando o assunto é cinema, dei sorte já na primeira sessão, e comecei com o pé direito. Aos sete anos de didade, a professora pediu uma redação, nas férias de julho, sobre o desenho do He-man, que estava em cartaz no cinema. Minha mãe me levou ao falecido Penharama, e havia uma sessão-dupla que consistia no desenho, e antes dele a aventura com Sharon Stone e Richard Chamberlain, na adaptação de J. Lee Thompson para o livro de aventuras.

Portanto, foi com esse sub-Indiana Jones, a aventura da loira indefesa, e Allan Quatermain, pela África, que se dava minha iniciação nas salas de cinema. O filme é uma tola diversão, com canibais, aventuras carregadas de humor, e um tesouro perdido que Nazistas e Turcos procuram incessantemente. Mas, o que ficou mesmo, foi o gostinho da primeira sessão, da pipoca, das poltronas e daquela tela enorme. Entre tribos hostis e medalhas de ouro, os sonhos de uma criança descobrindo um novo mundo.

Para Sempre Alice

parasemprealiceStill Alice (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Com muito atraso, mas finalmente chegou a vez de Julianne Moore. Não houve competidora para ela, no Oscar de melhor atriz, dessa vez, ganhou todos os planos da corrida do Oscar até a estatueta dorada. O filme? Bem o filme serve apenas a este proposito, fazer justiça com o trabalho errado.

A doutora em linguística, mãe de três jovens adultos, acometida precocemente de Alzhmeier, oferece a Moore todas as artimanhas cativantes à Academia. Explosões de emoção, momentos contidos, discursos emocionantes, o filme pode abusar dela, mas ela está sempre ali, correspondendo com o talento que vai da doçura ao ápice da dramaticidade.

No meio daquela coisa redonda e modorrenta, melodramática, que carrega sem dó da trilha que tenta emocionar o público mais fácil. É tudo hermeticamente preciso para ser rasteiro, emocionante, a breguice da dramaturgia. Os responsáveis por esse tom inofensivo são os diretores Richard Glatzer (que faleceu esta semana) e Wash Westmoreland, incapazes de aproveitar o ótimo elenco (não faltam oportunidades tendo Kristen Stewart como filha rebelde, e Alec Baldwin como marido). Mas não, eles preferem o draminha barato, a emoção na medida doce.