Eles Voltam

elesvoltamEles Voltam (2012) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um carro para, no meio de estrada, dois adolescentes descem e o carro parte. Ali ficam dois irmãos. Largados pelos pais. Imagino que tal comportamento passe pela cabeça de muitos pais, o inferno das brigas e crises adolescentes, e, simplesmente largar o “problema” numa estrada qualquer.

O filme de Marcelo Lordello não é sobre a relação pais x filhos. Está muito mais voltado na situação em si, em seguir os passos de uma garota de 12 anos, sozinha, quieta, perdida. Maria Luiza Tavares é Cris, a garota que carrega seu celular e age como uma pena, deixando o vento a levar. Aceita ajuda de quem se dispõe, simplesmente segue as ordens. Talvez o filme de Lordello seja sobre isso, a inoperância da adolescência de classe média, a necessidade de quebrar o cordão umbilical, o escudo protetor com que os pais os protegem do mundo.

A câmera acompanha os encontros de Cris, garotas de sua idade, pessoas muito pobres, e elapassiva, aceitando, esperando que uma luz a deixe em casa. Afinal, ela tem 12 anos, e independência nenhuma. Os planos fechados, o ritmo contemplativo, praia, areia, a vida nbo meio do nada. Lordello parece pouco preocupado com discussões, a força da realidade de seu filme vem do mesmo olhar de sua personagem, uma visão passiva, que aceita tudo, de close-ups que mostram sem dizer muito.

E quando havia sinais de desfecho, a movimentação desse road movie chega a um destino, e traz com ele os conflitos, os reencontros, e algum drama que não fica claro, e que pouco soa como importante para aquela história de uma menina que nem está amadurecendo, e apenas enfrentando uma adversidade que a vida lhe impôs.

Uma Juíza Sem Juizo

umajuizasemjuizo9 Mois Ferme (2013 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O título nacional já dá as coordenadas. Trata-se de um filme para não se levar a sério. Uma daquelas comédias cujos acontecimentos só poderiam se passar na cabeça do autor. Uma juíza workaholic (Sandrine Kiberlain) que acredita ser inteligente por manter-se solteira e distante de relacionamentos, uma festa de Reveillon, um bandido acusado de um crime tenebroso (Albert Dupontel). E, um diretor, Albert Dupontel, acreditando que as leves confusões podem soar engraçadas. Até o grand-finale, no meio do tribunal, com um quê de emoção, o filme pega emprestado do que de pior as comédias se utilizam.

Eu, Mamãe e os Meninos

eumamaeeosmeninosLes Garçons et Guillaume, à Table! (2013 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Por mais autobiográfico que o filme seja, o ator, diretor e roteirista Guillaume Gallienne entrega um trabalho para sua própria vaidade (primeiro foi apresentando no teatro). Trata-se de sua vida, por isso interpreta a si de garoto até a fase adulta, e também sua mãe. É uma tentativa forçada de brilhar, ou, pelo menos, a arrogância do centralizador que é incapaz de dividir suas coisas com alguém.

A história de um garoto afeminado, obcecado pela mãe, e que foi tratado de forma diferente de seus irmãos desde sempre (o título original faz referência a mãe chamando as crianças para o almoço: os meninos e Guillaume para a mesa). O autor tenta vender a idéia (os franceses compraram, ganhou o Cesar e a Quinzena dos Realizadores em Cannes) de que a família, sem perceber, foi tratando Guillaume como um homossexual, sem que ele próprio pudesse notar sua verdadeira sexualidade.

 O colégio interno, a viagem à Espanha, a mania de imitar mulheres da família, a incapacidade nos esportes. A comédia segue o tom da afetação leve e descontraida, cai em momentos extremamente desnecessários (como na cena com Diane Kruger) e se equilibra nesse ar de desabafo sincero de um tipo de sexualidade que foge dos rótulos.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Hoje-Eu-Quero-Voltar-SozinhoHoje Eu Quero Voltar Sozinho / The Way He Looks (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O diretor Daniel Ribeiro transforma em longa o seu premiado curta (Eu Não Quero Voltar Sozinho) sobre três amigos adolescentes, um deles cego, e o despertar da sexualidade. O filme é muito mais abrangente, Ribeiro trata de diversos temas, mas divide a temática central da homossexualidade com a questão familiar da superproteção.

Leo (Guilherme Lobo) sofre bullying na escola, vive sob as garras firmes da mãe, e de sua fiel amiga (Tess Amorim). Gabriel (Fabio Audi) é o novo aluno que acaba se aproximando dos dois. O roteiro esboça um triangulo amoroso, ou vários, porque consegue espaço para desenvolver outros personagens, inúmeras possibilidades. E o filme segue naquele ritmo Melhores Coisas do Mundo, calcado no tripé que deixa os jovens malucos: escola-amor-liberdade.

There’s Too Much Love (do Belle & Sebastian) toca algumas vezes, entre elas num dos momentos mais marcantes do filme quando Gabriel ensina Leo a dançar. É um pouco o espírito do filme, aquela coisa desengonçada dos adolescentes, narrado de forma envolvemente e sensível por Ribeiro. Se a direção dos atores soa um pouco frouxa, naqueles jovens a tradução da juventude e seus anseios. A abordagem simples dos temas dá voz a uma crônica, que pretende soar leve e sincera, atraente e universal, e é feliz em todos esses objetivos.

Babilônia 2000

babilonia-2000Babilônia 2000 (1999)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Eduardo Coutinho produziu em 1999 dois documentários, uma espécie de ano de transição em sua filmografia. Não que todos os seus documentários não eram caracterizados por um tema definido, mas Santo Forte marca uma fase de entrevistas com temas fortes e marcantes, enquanto os trabalhos anteriores (incluindo este Babilônia 2000) tinham seu tema, mas os depoimentos transcorriam livremente, quase sempre com dramas, preceonceito e temas equivalentes. Seja o mundo dos catadores de lixo, a história do negro, ou a vida no morro. O Fim e o Princípio voltaria a viver essa liberdade, mas Santo Forte abriu essa linha.

Babilônia 2000 foi filmado no Morro da Babilônia, em 31 de Dezembro de 1999. Coutinho e sua equipe passam o último dia do milênio com os morados do morro, assiste os preparativos para o Reveillon, ouve as histórias, mostra a pobreza sem invadir a privavidade alheia. Alguns dos depoimentos são emocionantes, a chegada dos anos 2000 não trouxe esperança, por mais que haja tanto otimismo e esperança naqueles sorrisos.

Não são poucos os que disseram que a virada do milênio era apenas a mudança de mais um ano, a visão de um mundo cão (miséria no Brasil, guerras pelo mundo), a inflação que corroi o dinheiro, a globalização como mal, uma profundaconsciência da realidade surge daquelas vozes que se fazem de inocentes, mas estão bem longe da desinformação. Guardam uma consciência popular enquanto enfrentam a violência urbana, levam a vida com sorrisos para esconder as desgraças presentes em cada uma daquelas casas.

Atomic Age

atomicageL’âge Atomique / Atomic Age  (2012 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Referência ao momento de detonação da bomba atômica, o filme dirigido por Héléna Klotz cruza uma noite em Paris. Dois garotos se conhecem num vagão de trem, Victor (Eliott Paquet) e Rainer (Dominik Wojcik), a misteriosa relação parece calcada em cumplicidade e numa sedução, não necessariamente sexual, que está muito bem representada pelo título.

Vivem a ponto de ebulição, flertam na balada, brigam na rua, andam pela cidade vazia. A filha de Nicolas Klotz foge dos temas engajados do pai, busca a representatividade da juventude a qual faz parte, uma juventude esgueirada pela irresponsabilidade da liberdade. Faz uso precioso do som, seu filme é pura sensibilidade. A música eletrônica, os cigarros, a noite cintilante, e corpos que encontram e interagem com outros corpos. Pelo frescor da proposta de Héléna navegamos por essa noite que parece tão comum, mas que pela naturalidade tenta resumir toda a sociedade contemporânea que está prestes a assumir o controle do mundo.

Entre Nós

entrenosEntre Nós (2013) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um grupo de jovens amigos reunidos numa chácara, curtindo sua paixão literária e o desejo de se tornarem escritores. Cheios de vida, de esperança, de confiança em seu próprio taco. Cartas escritas e enterradas para serem relida em 10 anos. Tudo é lindo, tudo é alegria, ainda mais com as libertações sexuais e muito álcool para animar.

Paulo Morelli filma os dramas da fase adulta, sua visão após dez anos é de gente ressentida, com sentimentos de fracasso, culpa, ou amores renegados ao passado em prol de alguma estabilidade. Seu drama poderia ser algo próximo de um Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, dirá um Cassavetes. Mas náo, seus personagens se mostram cada vez mais fragilidades pela própria criação irregular dos mesmos, pela obviedade de seus atos.

O mote principal de todo o drama (carregado em Caio Blat) fica óbvio desde o primeiro instante, e o status coadjuvante dos demais estará sempre renegado a essa culpa maior de alguém que vive sob uma mentira (que mundo cruel, não?). Tenta ser intimista, tenta ser doloroso, mas todos os esforços parecem em vão quando sua proposta parece amarrada a escalação do elenco, tendo que colocar no topo os nomes centrais (Carolina Dieckemann e Paulo Vilhena, que mostram tantas fragilidades, e Maria Ribeiro, nessa ordem).  Uma visão desgraçadamente pessimista do mundo.