O Regresso

oregressoThe Revenant (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Estamos no século XIX, caçadores ganham a vida se embrenhando por regiões inóspitas, em eterno conflito com indígenas locais. Na trama, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é atacado ferozmente por um urso, e acaba traído e abandonado por um de seus parceiros (Tom Hardy). O filme se torna uma aventura de sobrevivência, até desembocar na sede de vingança. Claro que tudo isso é exagerado, afinal estamos em outro filme de excessos de Alejandro González Iñárritu.

Os longos planos-sequencias destacam mais energia em meio as lutas sangrentas. O balé da câmera focaliza potencializa o grau de urgência, as batalhas coreografadas entem e saem de foco. Nesse Survivor de época, Iñárritu falsamente discute a honra e a lealdade, seu desejo explícito é causar novo impacto com o grau de violência e a quantidade de adversidades a qual o protagonista (semi-morto) precisa passar para retonar ao grupo. E nesse quadro, DiCaprio cumpre as necessidades com uma atuação de gritos, desespero e a dor física e psicológica dos limites testados a cada instante.

Podcast Cinema na Varanda: EP 06 – Feitiço do Tempo ou O Dia da Marmota

Episódio novo! No papo desta semana: os vencedores do SAG, nossos pitacos sobre “Trumbo” e “Anomalisa” (sem spoilers!) e, já que terça (2) é o Dia da Marmota, uma conversa sobre como a onda de remakes, reboots e séries mortas-vivas afeta nossos pobres sentimentos (é, não resistimos à volta do Arquivo X). Bom podcast e voltamos no meio do Carnaval com o próximo episódio!

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Trumbo – Lista Negra

trumboTrumbo (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Para quem acompanha o mundo do cinema, histórias como essas são sempre interessantes por trazerem detalhes, bastidores, um algo mais, além dos filmes. A cinebiografia do roteirista Dalton Trumbo coloca em questão novamente a era da caça as bruxas de Hollywood, pessoas ligadas a indústria delatando aqueles chamados “comunistas”, hoje os delatores ficaram com a imagem negativa que na época recaia sob os mais favoráveis ao modelo soviético.

O filme dirigido por Jay Roach (outro cineasta do mundo das comédias, como Entrando Numa Fria e Austin Powers) apega-se principalmente a força da persona de Trumbo, não é por menos que ele foi o retratado a fim de resumir todos os que passaram pelo processo de perseguição. Só que Roach faz de forma tão acadêmica e preguiçosa, que as curiosidades são o que sustenta a narrativa de forma geral. Sabemos que Trumbo escrevia durante horas numa banheira, sabíamos que apoiava o comunismo, mas o filme nunca vai mais fundo em suas ideias, em seus roteiros, em possíveis influencias que o fizeram chegar a algum argumento.

Dessa pobreza, resta Bryans Cranston se contorcendo para ser a alma, e tudo mais que Roach não consegue desenvolver. De caricaturas e bons atores (interpretando grandes astros) sobram pouco além de coadjuvantes apagados e dramas pouco desenvolvidos em detrimento de pontuar a história de maneira didática ao extremo.

Winter on Fire

Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom (2015 – UCR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Sergei Loznista já havia tratado do assunto no documentário Maidan: Protestos na Ucrânia. Essa nova abordagem dos fatos, dirigida por Evgeny Afineevsky, é bem mais didática. Com depoimentos e imagens de arquivo, pontua a traição do governo ucraniano em acenar aproximação com a Rússia, não seguindo os passos de entrada na União Européia (como o povo esperava). A traição política gera revolta, jovens às ruas e a violência do governo causa a revolução popular que durou noventa dias na praça de Maidan.

São cenas de violência da polícia, muitos feridos nos confrontos, enquanto o material detalha o dia-a-dia dos revoltosos e as estratégias militares do governo. O impacto da violência das imagens e a estrutura narrativa tradicional somados resultam num documentário que caberia perfeitamente num especial de tv, mas como boa parte dos documentários indicados ao Oscar, os temas são mais importantes que a questão cinematográfica em si.

Anomalisa

ANOMALISAAnomalisa (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A grife que o nome de Charlie Kaufman estabeleceu é tão forte que chega a ser difícil acreditar que este é apenas o segundo trabalho dele como diretor de cinema. Pensado inicialmente para o teatro, acabou numa animação stop-motion (co-dirigido pelo especialista na técnica, Duke Johnson), aqueles trabalhos que levam uma eternidade e requerem um nível de paciência extremo.

E já rotularam fortemente este aqui como uma “animação de arte”. O rótulo deve-se, principalmente, pela preocupação do filme com as pequenas coisas, e que só se justificará ao final do filme. Mas, até lá, o detalhamento de pequenas atividades funciona apenas para demonstrar a crise pessoal que vive o protagonista. Ele chega a Cincinatti para uma palestra, escritor de sucesso de livros de autoajuda, cuja vida pessoal problemática vai ficando clara com o decorrer da trama.

Síndrome de Frégoli se trata de acreditar que pessoas diferentes são, na verdade, uma única pessoa “disfarçada”. O filme nunca discutirá isso abertamente, mas saber desse detalhe é chave para tentar extrair a beleza do relacionamento que ele cria com Lisa, pena que o filme não seja capaz de estabelecer esse parâmetro. Dessa forma, o romance mais se parece como a necessidade desenfreada do protagonista buscar sensações que não vive em sua rotina diária, e o efeito se dilui tornando seu trunfo em armadilha.

O Menino e o Mundo

O menino e o mundoO Menino e o Mundo (2013) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O reconhecimento com a indicação ao Oscar de Melhor Animação, já havia vencido o Festival Annecy (o mais importante de animações), é a coroação merecida ao longa dirigido por Alê Abreu. Com traços leves, e aparentemente puros, e sua narrativa minimalista, que de ingênua não tem nada, o longa conta a história do Brasil em décadas, principalmente sob a questão do êxodo para as grandes metrópoles.

Temas como desemprego, fome, e a violência da ditadura militar, ganham destaques na história lúdica desse menino que parte em busca do pai, que deixou a família no Nordeste para ganhar a vida no Sudeste. Com fundo branco, e traços simples, a animação cria fortes coloridos quem enchem os olhos pelo lado criativo.

Um idioma incompreensível dá ainda mais sustentação ao poder das imagens dos objetos que o menino encontra pela viagem (robôs destruidores de floresa, um pássaro deslumbrante, o trem, o navio de contêineres). Se a narrativa não parece prender o público durante toda a projeção, e o aspecto político seja muito denso para esses traços tão convenientes a um público bem infantil, no todo é tão louvável essa riqueza estética e poética de transformar em animação verdades tão tristes e brasileiras.

Chico – Artista Brasileiro

chicoartistabrasileiroChico – Artista Brasileiro (2015) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Depois anos após o sucesso do documentário Vinícius, eis o cineasta Miguel Faria Jr novamente retratando um músico com ligações na Bossa Nova. Chico Buarque já foi tema, ou participou, de tantos documentários para cinema e tv, que pouco de novo pode ser acrescentado. E o cineasta simplesmente não inventa nada, joga para a torcida, sabe quem há um público cativo que vai se interessar em (re)ver sobre a vida do multiartista brasileiro.

Por outro lado, é Chico Buarque, e seu bom papo, e as histórias interessantes, ajudam seu dom de manter o papo descontraído e atrativo. É por culpa do documentado que o longa se sustenta, entre alguns clipes musicais (soltos pelo ar), Chico revive sua carreira, fala de exílio, de um irmão alemão que não conheceu, de suas crises criativas. Fala de passado, presente e futuro, sempre sóbrio e divertido, e capaz de trazer alívio a mesmice do filme como um todo. O efeito imediato de sair da sessão é o de querer correr para casa e ouvir seus discos de novo.