Ventos de Agosto

ventosdeagostoVentos de Agosto (2014) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A vida nos rincões, o famigerado Brasil grande, aquele distante das cidades. O filme tem o casal Shirley (Dandara de Morais) e Jeison (Geová Manoel) como fio condutor para essa vida rudimentar. A vida ganha com a pesca, ou com o “catar coco”, o mínimo de influência tecnológica (o celular não pega bem, as casas não tem endereço e nem numeração). O diretor Gabriel Mascaro insere suas experiências em documentário nesse ritmo primitivo de viver. O banho de coca-cola, o corpo que descansa sob o caminhão de cocos, ou o barquinho que invade o oceano.

Outros elementos são incorporados, aos poucos, o técnico de som que capta o vento, as águas raivosas que invadem as praias, a moto ou a cultura rock que tenta se adapta ao ritmo do lugar. Shirley veio para cuidar de uma senhora, Jeison fica fascinado com ossadas que encontra no mar, ou na praia. E os ventos que cortam o mês de Agosto, e mudam com aspectos do clima, e o fascínio que mexe com os interesses de Jeison, a incorporação do inesperado causando reações. O filme traz essa brasilidade divertida e inocente, mas não consegue ir além do insinuar. Suas ambições são pequenas, quase tão primitivas quanto o pequeno vilarejo, esquecido do mundo. A câmera quer se integrar ao local, fazer parte da paisagem, a herança do documentário traz essa riqueza de sons e sensações, e afasta a ficção da etnologia.

A Professora do Jardim de Infância

aprofessoradojardimdeinfanciaHaganenet (2014 – ISR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os atores chegam a bater na câmera de tão fechados os planos, na primeira cena uma cotovelada, por exemplo. É uma proximidade além do cinema, quase aflitiva. Os olhos azuis da professora do jardim de infância, Nira (Sarit Larry) tornam-se imensos e ambiciosos, os do garoto Yoav (Avi Shnaidman) profundos e tocados pela carência – que mais tarde teremos ferramentas para julgá-la. O menino é interpretado como prodígio, versa poemas sobre amores não correspondidos, de maneira espontânea. A professora se encanta, transpõe sua própria ambição de poeta frustrada ao garoto, assim como a babá utiliza os versos do garoto para sua pretendida carreira de atriz.

O diretor Nadav Lapid costura sua história de obsessão com belas sequencias, ora um plano-sequencia virtuoso de crianças brincando num escorregador, ora da chuva que cai e a professora tentando impor inspiração ao garoto que só queria sua soneca. Lapid constrói os perigos das obsessões de forma quase lúdica, do amoroso ao perigoso. A relação aluno-professora vai além da sala de aula, as lentes de Lapid além do cinema tradicional. Há muito da sensibilidade feminina, assim como da virilidade masculina, nas interrelações, mas, acima de tudo está o jogo de obsessão capaz de transformar comportamentos, Nira parte a abdicar de sua própria vida, em prol da poesia que ela tanto admira, e de um talento que talvez só ela enxergue, mas que passa a sua prioridade compulsiva.

O Sol do Marmelo

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El Sol Del Membrillo (1992 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os pormenores da vida de um pintor, o trabalho artesanal de preparar o quadro, as tintas da aquarela, posicionar-se para iniciar seu trabalho de retratar a árvore frutífera do quintal de sua casa/estúdio. Documentário arquitetado pelo diretor Victor Erice e pelo pintor Antonio López García, lindos marmelos amarelos, e suas folhas de um verde vigoroso, a admiração do pintor pela árvore que ele mesmo plantou quando criança. Erice retrata o detalhamento e a simetria da técnica que López estabelece. A preciosidade dos detalhes, preocupações milimétricas. Enquanto isso a casa segue sob reformas, são duas artes que ocorrem paralelamente.

Os encontros com amigos, o som do rádio que narra os acontecimentos políticos no Golfo Pérsico, ou a queda do Muro de Berlim. Uma Madri ensolarada, a transição oitentista para a nova década está nas roupas, nos objetos. Erice mergulha profundamente no meticuloso, passa a admirar também os raios de sol sob os marmelos. O pintor tenta estabelecer a luz certa, no momento, exato, Erice não fica atrás e capta os detalhes desse olhar apurado, determinado. Por entre os galhos ele capta os enquadramentos mais bonitos, o pintor entregue à sua paisagem. Acima de tudo um filme contemplativo, de quem arrumou uma cadeira e passa tardes assistindo a execução de um ofício, de sua arte.

Do que Vem Antes

doquevemantesMula sa kung ano ang noon / From What is Before (2014 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tão simples quanto fantástico. Quase no final da maratona, de quase 6 horas, a narração em off determina: “a memória de um cataclisma”. Câmera estática, longos planos fixos e abertos, o preto e branco que quase dá sensação do esverdeado da vegetação. Estamos numa zona rural das Filipinas, início da década de 70. Primeiramente o cineasta Lav Diaz, com sua narrativa hipnótica, insere o público no ritmo do vilarejo.

O sujeito que fabrica vinho artesanal – Tony (Roeder Camanag), o homem que cuida das vacas do fazendeiro – Sito (Perry Dizon), o garoto que deseja reencontrar os pais que desapareceram – Hakob (Reynan Abcede), as duas irmãs, Itang (Hazel Orencio) que abdicou de sua vida para tratar de Joselina (Haniel Karenina), que sofre de problemas mentais e o povo da região acredita que tenham poderes de cura. O padre católico Guido (Joel Saracho), a mascate intrometida Heding (Mailes Kanapi), há outros, o importante é afirmar a precisão com que Diaz desenvolve cada um deles, com a parcimônia que a longe dura lhe permite, mas com a riqueza de detalhes que os constroem como pessoas, não meros personagens.

O ar de “mau maior” cobre cada um dos planos, eles não, mas o público está sempre esperando pelo pior. O filme percorre dois anos, pacientemente entendemos o papel de cada um naquela sociedade, seus problemas, seu ganha-pão. Até que chega a lei marcial, o ditador Ferdinando Marcos impõe o decreto nº 1081, ato “democrático” que coloca os militares nas ruas, a caça aos comunistas. Diaz inicia o processo de desconstrução do vilarejo, a violência onde havia algo acima da paz, o terror. Estranhos fatos ocorrem: vacas morrem, cabanas incendiadas, os moradores começam a partir daquele lugar. O filme é direto, contundente, sem que deixe de ser pacato.

O caos chega de mansinho, os personagens se adaptam, aceitam, ou simplesmente fogem. Seus dramas beiram o limite a ponto das verdades chegarem à tona (Tony, Hakob, Joselina, Heding), os militares ditam regras, o toque de recolher num local inóspito. Lav Diaz capta o horror por lentes pacientes de registrar as transformações causadas no micro, onde as leis nem sequer chegam, onde as grandes decisões dos governos não ajudam em nada, mas quando trata-se dos interesses políticos, estes são lembrados e sacrificados como se tivessem qualquer consideração política.

O Homem que Elas Amavam Demais

ohomemqueelasamavamdemaisL’Homme que’on Aimait Trop (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O novo elegante drama de André Téchiné é baseado numa polêmica que balançoou a França há poucos anos. Revive uma história ocorrida há 30 anos, envolvendo uma dona de cassino na Riviera Francesa, sua filha e um advogado conselheiro da família. Téchiné realiza uma adaptação livre de Une Feem Face à la Mafia, escrito por Jean-Charles e Renée Le Roux. Estranhamente o cineasta tenta esconder a fase atual da história, focando quase toda a duração de seu filme em possíveis fatos que formaram a relação entre as mulheres da família Le Roux e o advogado.

Os personagens são criados de forma rica, a matriarca poderosa e astuta para os negócios. O advogado manipulador, conquistador e interesseiro. A jovem, reçem-divorciada, romântica e carente, que pouco interesse tem com os assuntos financeiros da família. Téchiné e seu costumeiro requinte, repetindo o piloto automático de seus trabalhos anteriores, confirma (o que nem necessário era) sua capacidade de exímio narrador, mas ainda tento entender porque um filme tão francês guarda segredo do paradeiro de seus personagens, para ser encerrado de forma tão acelerada e abrupta, como um filme de tribunal. Os créditos finais revelando os últimos fatos, tudo tão corrido, apressado, enquanto Téchiné calmamente desenhava as relações políticas entre cassinos e máfia, ou a doçura da paixão que a frágil mulher deixara se entregar por completo.

As Horas Finais

These Final HoursThese Final Hours (2014 – AUS) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Neste novo filme australiano apocalíptico, o mundo acabará em doze horas, segundo a voz melancólica da narração em off. James (Nathan Philips) só quer cruzar a cidade de Perth para chegar numa grande festa, ficar chapado e esperar o fim. Parece uma decisão acertada, afinal, as chamas já tomaram Américas, África e Europa, o fim está próximo. O país virou um campo de batalha, suicidas, estupradores, a população perdeu os limites.

O filme é sobre o drama pessoal de James, deixar a amante, encontrar a namorada, antes dar uma passada na casa da irmã. O medo da morte iminente cria personagens inconstantes, irresponsáveis, no caminho até a festa ele encontra uma garota indefesa. De grande irresponsável, o protagonista sente o peso da necessidade do heróico ato de ajudar a garota a encontrar o pai. É louvável. Zak Hilditch mistura a leveza da inocência com a promiscuidade de uma rave infinita, drogas e sexo explícito para os olhares de uma criança inocente, que só pretende estar próximo de sua familia quando tudo ocorrer. O cineasta pretende oferecer redenção a seu personagem, consegue mesmo um melodrama aquecido pelo fogo que cobre o planeta.

 

 

O Idiota

oidiotaDurak / The Fool (RUS – 2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

As histórias de corrupção nos governos russos não parecem muito diferentes de qualquer outro país. A Rússia, em especial, tem sido exposta de forma crua e tenebrosa por seu cinema. Yuriy Bykov é impiedoso, direto, cria uma situação limite para colocar a prefeitura, de uma pequena cidade, e todo o secretariado sob o limite extremo entre proteger-se e deixar que ocorra uma catástrofe.

Casas fétidas, a câmera na mão intensificando o ambiente repugnante, asqueroso, familias no limite da marginalidade. Um encanador ainda é regido por princípios humanos, os idiotas somos nós que estamos a mercê de decisões de políticos inescrupulosos, entregues à podridão do sistema. O filme termina melodramático, o conto moral carregado de ironia. O sarcasmo de Bykov deixa clara sua mensagem, expor o modus-operandi  do poder de forma clara, a máquina da corrupção desumana e irresponsável.