Festival do Rio 2014

Festival-Do-Rio2014Ontem foi a festa de abertura, com O Sal da Terra (documentário de Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders sobre Sebastião Salgado), e a partir de hoje começam as sessões para os cinéfilos. Serão 2 semanas de outra safra bem interessante de filmes que serão lançados em breve, ou tiveram grande destaque nos festivais deste ano. Tempo de maratonas, correr atrás de ingressos, montar programações, e lamentar os filmes que não vieram (parte dos ausentes farão parte da Mostra SP, outros não).

Como dito, a safra é diversificada, filmes dos mais aguardados do ano. Continua com uma presença respeitável dos filmes mais “pop”, além de se tornar a plataforma de lançamento dos principais filmes nacionais do ano. Se minhas estatísticas não falharam, são quase 80 filmes dos principais festivais fazem parte da programação. Este post ficará fixo até o final do festival, atualizado com links para textos dos filmes vistos, que estiverem na programação, Segue abaixo destaques e considerações de acordo com os festivais mais prestigiados:

Sundance:

  • Ida [Pawel Pawlikowski] – rodou muitos festivais o ano todo com destaque no boca-a-boca
  • Frank [Lenny Abrahamson]
  • Cold in July [Jim Mickle]
  • Life Itself – A Vida de Rober Ebert [Steve James]
  • The Skeletons Twins [Craig Johnson]
  • Os Mais Jovens [Jake Paltrow]
  • Kumiki [David Zellner]
  • Nick Cave – 20.000 Dias na Terra [Iain Forsyth eJane Pollard]
  • Whiplash – Em Busca da Perfeição [Damien Chazelle] – grande vencedor de Sundance 2014
  • A Most Wanted Man [Anton Corbijn]
  • Pescando Sem Redes [Cutter Hodierne]

Berlim:

  • Carvão Negro [Yinan Diao] vencedor do Urso de Ouro
  • Boyhood: Da Infância à Juventude [Richard Linklater] – dispensa comentários
  • Jornada ao Oeste [Tsai Ming-Liang]
  • Bem Perto de Buenos Aires [Benjamin Naishtat]
  • 71 [Yann Demange] – destaque na competição
  • Stations of the Cross [Dietrich Brüggemann] – destaque na competição
  • A Terceira Margem [Celina Murga]
  • Massagem Cega [Lou Ye]
  • Catedrais da Cultura 3D [Wim Wenders, Michael Glawogger, Michael Madsen, Robert Redford, Margreth Olin e Karim Aïnouz]
  • Stratos [Yannis Economides]
  • Aloft [Claudia Llosa]

Cannes:

  • Mapa para as Estrelas [David Cronenberg] – melhor atriz em Cannes para Julianne Moore
  • Timbuktu [Abderrahmane Sissako] – grande destaque na competição
  • Maidan – Protestos na Ucrânia [Sergei Loznitsa] – passou fora da competição, causou impacto
  • Mr. Turner [Mike Leigh] – melhor ator em Cannes para Timothy Spall
  • Pessoas-Pássaro [Pascale Ferran] – destaque Un Certain Regard
  • Uma Garota à Porta [July Jung]  – destaque Un Certain Regard
  • National Gallery [Frederick Wiseman] – destaque Quinzena dos Realizadores
  • Mommy [Xavier Dolan] – prêmio do Juri
  • Jimmy’s Hall [Ken Loach]
  • O País de Charlie [Rolf de Heer]
  • Bande de Filles [Celine Sciamma] – destaque Quinzena dos Realizadores
  • O Sal da Terra [Wim Wenders, Juliano Ribeiro Salgado]
  • Te Peguei Dormindo Nicole [Stéphane Lafleur]
  • Exército Vermelho [Polsky Gabe]
  • Incompreendida [Asia Argento]
  • The Disappearence of Eleanor Rigby [Ned Benson]
  • El Ardor [Pablo Fendrik]
  • Xenia [Panos Koutras]
  • Ao Seu Lado [Asaf Korman]
  • Party Girl [Marie Amachoukeli,Claire Burger, Samuel Theis]
  • Coma Seus Mortos [Jean-Charles Hue]
  • Aleluia [Fabrice Du Welz]
  • Um Dia Difícil [Seng-Hun Kim]
  • Corrente do Mal [David Robert Mitchell]
  • Água Prateada, um autorretratro da Síria [Mohammed Ossama]
  • Fantasia [Chao Wan]
  • Mais Sombrio que a Noite [Sebastiano Riso]
  • Titli [Kanu Behl]
  • Gente de Bem [Franco Lolli]
  • Coming Home [Zhang Yimou]

Rotterdan:

não acompanhei a repercussão do festival, por isso não sei se há outros filmes em destaque. Tres filmes foram eleitos o melhor filme, dois deles estão na programação

 Locarno:

  • A Princesa da França [Matías Piñeiro] – destaque na competição
  • A Sapiência [Eugène Green] – destaque na competição
  • Dois Disparos [Martín Rejtman]
  • Listen Up Philip [Alex Ross Perry]
  • Ventos de Agosto [Gabriel Mascaro]
  • Cavalo Dinheiro [Pedro Costa] – melhor diretor em Locarno
  • Sobrevivente [Jungbum Park]

Veneza:

  • Amnésia Vermelha [Xiaoshuai Wang] – destaque da competição
  • Contos Iranianos [Rakhshan Bani E’Temad] – destaque da competição
  • Manglehorn [David Gordon Green]
  • Falando com Deus [Guillermo Arriaga, Emir Kusturica, Amos Gitai, Mira Nair, Warwick Thornton, Hector Babenco, Bahman Ghobai, Hideo Nakata, Alex de la Iglesia]
  • O Preço da Glória [Xavier Beauvois]
  • Corações Famintos [Saverio Costanzo]
  • Burying the Ex [Joe Dante]
  • Só Deus Sabe [Josh Safdie, Ben Safdie]
  • O Presidente [Mohsen Makhmalbaf]
  • The Humbling [Barry Levinson]
  • Três Corações [Benôit Jacquot]
  • O Ciúme [Philippe Garrel] – da competição de 2013
  • Dente por Dente [Kim Ki-duk]

Nova York:

  • Garota Exemplar [David Fincher]

San Sebastian:

  • Silent Heart [Bille August]
  • Ar Livre [Anahí Berneri]

Outros Filmes:

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Mostra SP:

Quem olha essa lista e se pergunta: sobrou algum filmes para a Mostra SP? Calma, sobrou sim, É verdade que com a excluvisidade, a acirrada disputa entre os 2 festivais tem dividido os destaques do ano, com isso quem perde é o público. Mas, mesmo com a extensa lista do Festival do Rio, sobrou ainda muitos filmes que podem (ou não estar presentes na programação do festival paulistano). Segue abaixo alguns exemplos:

  • Winter Sleep [Nuri Bilge Ceylan] – Palma de Ouro em Cannes
  • Force Majeure [Ruben Ostlund] – dos filmes mais comentados do ano, passou em Un Certain Regard – Cannes
  • Goodbye to Language [Jean-Luc Godard] – prêmio do Juri em Cannes
  • Leviathan [Andrey Zvyaginstev] – destaque da competição principal de Cannes
  • Jauja [Lisandro Alonso] – destaque na Un Certain Regard
  • Two Days, One Night [Jean-Pierre and Luc Dardenne] – outro destaque da competição de Cannes
  • From What Is Before [Lav Diaz] – melhor filme em Locarno
  • The look of Silence [Joshua Oppenheimer] – Grande Premio em Veneza
  • Fidelio L’Odyssee D’Alice [Lucie Borleteau] – destaque da competição em Veneza
  • The Postman’s White Night [Andrei Konchalovsky] – destaque da competição em Veneza
  • Relatos Selvagens [Damian Szifron] – destaque em Cannes, confirmado na Abertura da Mostra SP
  • Le Meraviglie [Alice Rohrwacher] – grande premio em Cannes
  • A Pigeon Sat On A Branch Reflecting On Existence [Roy Andersson] – Leão de Ouro em Veneza
  • Tribe [Myroslav Slaboshpytskiy] – melhor filme da Semana da Crítica – Cannes
  • Li’l Quinquin [Bruno Dumont] – Cannes
  • White Dog [Kornél Mundruczó] – melhor filme Un Certain Regard
  • She’s Funny That Way [Peter Bogdanovich] – retorno do diretor, passou em Veneza
  • Pasolini [Abel Ferrara] – Veneza
  • O Velho do Restelo [Manoel de Oliveira] – Veneza
  • Tsili [Amos Gitai] – Veneza
  • La Chambre Bleue [Mathieu Amalric] – Cannes
  • Still the Water [Naomi Kawase] – Cannes
  • Phoenix [Christian Petzold] – San Sebastian

God Help the Girl

godhelpthegirlGod Help the Girl (2014 – Reino Unido) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O líder do Belle & Sebastian decidiu entrar no mundo do cinema. Stuart Murdoch escreveu e dirigiu esse musical indie pop que anda sendo chamado de Grease Indie. Não poderia ter utilizado mais clichês num único filme. Há os personagens de comportamento loser, que se unem, os romances, as cenas de efeito, e muita, mas muita música fofa. Resumindo, tem tudo que não precisamos mais no cinema

É tanta fofura que irrita, e a quantidade de canções contribuiu para diminuir, ainda mais, a empatia. O filme carece de tudo, desde um roteiro consistente, até atores ou um diretor mais capazes de transmitir aquilo se que se pretende numa proposta do tipo: ser pop, e ser marcante. Cinema precisa mais que vontade, uma banda e fofurices.

Anatomia de um Clipe de papel

anatomiadeumclipedepapelYamamori Clip Koujo No Atari (2014 – JAP)  estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A proposta do cineasta Ikeda Akira é lúdica, prima pelo surreal, e tenta mirar nas tradições e costumes de sua cultura. A história é narrada através do trabalho, praticamente escravo, numa garagem improvisada como fábrica de clipes de papel. Os funcionários são maltratados e humilhados pelo gerente, todos apáticos aceitam calados. O filme segue o cotidiano de Kogure, seu comportamento passivo é comprovado em outros lugares de frequenta (na praça com um flerte, no restaurante, a dupla de marginais que lhe até as roupas).

Eis que surge uma borboleta, que entra em sua casa e se torna uma mulher. Ela fala uma língua estranha e passa a morar com ele. Por trás do lirismo dessa transformação borboleta-mulher, Akira se apega a uma narrativa por demais enfatilizada. A escassez de diálogos e repetição de cenários servem para intensificar a mecanização da vida cotidiana, mas representam pouco ao filme. Muita artificialidade nos comportamentos e ações, as evidências da cultura acabam quebradas por essa necessidade de passividade que vai além do minimamente humano.

O Senhor Fez em Mim Maravilhas

osenhorfezemmimmaravilhasEl Senyor Ha Fet Em Mi Meravelles (2011 – ESP) W/O

Parte de um projeto intitulado Correspondências Fílmicas, do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, o documentário de Albert Serra é endereçado ao cineasta Lisando Alonso. Serra e a equipe que filmou Honra de Cavaleiros parte pelos locais por onde passou Don Quixote, ne La Mancha. Ali filmam o cotidiano de filmagens, conversas sobre futilidades, um diário de estrada.

A imagem quadrada quebra os planos abertos e hipnóticos do cinema de Serra, perde aquela sensação de corpos que se misturam com o ambiente, por mais que ele mantenha o foco distante, as conversas que nem sempre batem com a imagem. É um distanciamente tão grande de qualquer foco que o público vai perdendo também o interesse. A imensa maioria desiste da sessão, chega ao ponto em que a sensação da proposta já está resolvida e o desinteresse torna-se tão intenso que resta seguir os passos dos demais, e também abandonar o filme, antes de seu final com a sensação de não estar perdendo nada que seja bom ou ruim, apenas desinteressante..

Mapa para as Estrelas

kinopoisk.ruMaps to the Stars (2014 – CAN/EUA)

Fico imaginando como teria sido recebido o novo filme de David Cronenberg nas mansões de Hollywood. Tanta gente da indústria citada nominalmente, ou representada, por esse veneno corrosivo do cineasta que traz as estranhices para próximo do público. Seu novo filme não perdoa nada da capital do cinema americano, da hipocrisia das relações sociais, aos devaneios emocionais e promiscuidades sexuais.

Adolescentes dependentes químicos, pessoas desequilibradas e violentas, relacionamentos quebradiços, aspirantes da indústria de cinema que trabalham servindo aos ricaços. Cronenberg é incisivo, cruel. Seu filme é irregular, de formas geométricas imperfeitas. Obtuso e perturbado.

Julianne Moore vive a atriz em crise, desesperada por entrar no filme que sua mãe atuou (décadas atrás), e apresenta todos os desequilíbrios emocionais que podemos imaginar. John Cusack é o terapeuta das estrelas, seu filho (Evan Bird) é o problemático astro adolescente, alcoolatra, dependente químico. A família tem membros ainda mais transloucados. Nesse tabuleiro que Cronenberg brinca de relacionar os demais personagens, do motorista de limousines (Robert Pattison, novamente nesses carrões num filme de Cronenberg), a misteriosa garota de luvas (Mia Wasikowska), a mãe fragilizada (Olivia Williams).

É a desglamourização de Hollywood baseada em suas próprias necessidades de construção. Festas, vaidade, esquisitices, dinheiro farto, poder. Cronenberg não lida com os temas, ele os expõe impiedosamente, demonstrando podridão onde tenta se vender glamour. Loucura onde deveria ser o mundo dos sonhos. Nos entrega um mapa cruel, nefasto

Exibição

exibicaoExhibition (2013 – ING) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

 

D (Vivi Albertine) artista plástica. H (Lilam Gillick), arquiteto. Casados há 18 anos. Decidem vender a casa onde mora. Não se trata de uma casa qualquer, foi construída em detalhes, cada ambiente, cada detahe, os diferentes materiais que se complementam. O ponto intrigante é este: por que eles pretedem vender aquilo que os representa?

Joanna Hogg foca na composição visual. Os corpos se misturam com a decoração, servem de inspiração para o trabalho do arquiteto e da artista. A isso se mistura o desgaste matrimonial e a sexualidade. Ela não parece mais tão interessada nele, vive uma fase de explorar seu corpo e outras formas que se relacionam ao trabalho. Ele tenta, insiste. Ela também não parece aberta a falar sobre trabalho, teme críticas. Suas inseguranças parecem dominar a artista, ainda assim decideram mudar de casa.

Hogg filma por reflexos em vidros, capta sons da rua, do desconhecido, a persianaque permite a visão parcial. Explora essa relação da casa dos os corpos. Usa da inspiração, a narrativa é induzida, os diálogos raros. Os conflitos camuflados. Até a cena final, a casa se torna o personagem principal, seja quem forem os coadjuvantes que a habitarem.

Life Itself – A Vida de Roger Ebert

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Life Itself (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

É extremamente didático e carinhosa a forma como o diretor Steve James conta a vida do crítico Roger Ebert. Aliás, é curioso esse formato, porque lembra muito o estilo de suas críticas. Ebert escrevia textos longos, contava muito do filme, mas seus textos eram dotados de um charme cativante. James mantém a narrativa em dois tempos, recontando a trajetória de Ebert, pelo Sun Times, e os últimos dias de sua vida com toda as dificuldades do câncer impactante que deformou seu rosto.

Depoimentos de muitos cineastas (Martin Scorsese, Werner Herzog, Errol Morris e Aya DuVernay), e grande atração para o programa de TV que Ebert apresentava, junto de Gene Siskel. O programa o tornou o mais popular crítico de cinema, ficou no ar por mais de 2 décadas. O deocumentário faz jus a Ebert, mas é de um tradicionalismo formal que remete ao didatismo de programas de tv.

Cold in July

coldinjulyCold in July (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A grande atração é ver Michael C. Hall (Dexter) no cinema. O diretor Jim Mickle vai ao Texas, aquele lugar onde os homens andam de chapéu e bota, e carregam armas o tempo todo. É assim que Mickle trabalha com o clichê do lugar. Lembra um pouco do universo de David Gordon Green, mas a lembrança termina rapidamente.

Seu filme é um suspense típico, pais protetores, armas e honra. A câmera tenta algum suspiro fora do básico, mas é só.A história começa com legítima defesa, vai para caminhos quase inimagináveis, mas mantém-se sólido ao tripé que lhe servia de alicerce. Essa visão de um Texas tão bruto e árido oferece esse tipo de histórias, que já se tornaram mero passatempo.