Cortinas Fechadas

cortinasfechadasClosed Curtain / Pardé (2013 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Jafar Panahi continua no Irã, sob prisão domiciliar, e proibido de filmar. Ainda assim não lhe falta coragem para realizar filmes, e os enviar ao exterior de forma clandestina, contando com a ajuda de amigos, no caso Kambuzia Partovi que codirige e atua no filme.

Câmera fixa pela janela de uma casa de veraneio (com vista para o mar), de lá alguém chega de táxi e fecha as cortinas. É um filme todo de metáforas, que claramente se relacionam aos pensamentos, sentimentos, sensação de um Jafar Panahi emocionalmente cansado de seu afastamento do mundo. Lá dentro um escritor esconde um cão (animal considerado impuro pelo governo religioso do Irã). Por isso, as cortinas fechadas. Chegando dois irmãos buscando refugio, a polícia os persegue. A garota fica, ela tem tendências suicidas e o tempo todo confronta o enclausuramento do escritor.

Mais adianta surge o próprio Panahi, os personagens são seres fictícios, abstratas sensações de Panahi. As metáforas soam confusas, deveras obstusas, o grande Panahi parece cansado, mentalmente, como se o cárcer privado estivesse deixando-o esgotado. É triste de ver, doloroso. Os personagens vem e vão, as cortinas se abrem e fecham, o diretor segue tentando exprimir sua revolta ou comparar o Estado do Irã com os personagens, mas o que fica mesmo é essa voz que precisa falar, mesmo que esteja abafada, cansada, é uma voz que não se cala, mesmo proibida e vigiada.

Muriel

murielMuriel ou Le temps d’un retour (1963 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Comparado a seus dois trabalhos anteriores, Hiroshima e Marienbad, este é o primeiro filme de Alain Resnais mais próximo a uma estética convencional. Mais próximo, mas não necessariamente assim pois sua edição acelerada, falsamente descompassada, são um novo sinal das experimentações de Resnais, que resultam na inesquecível sequencia no bar, dois planos-contraplanos, alternados e simultâneos.

 Na pequena Boulogne, sob reconstrução pós –Guerra, como acusam os primeiros planos do filme, Hélène (Delphine Seyrig) espera a chegada de seu amor da juventude (Jean-Pierre Kérien) que voltou a pouco da Argélia. Já vivem a terceira idade, reatar um romance da juventude pode até ser uma possibilidade, uma tentativa vã de reencontrar o que se perdeu. Mas, jamais algo que seja completamente possível.

Dos jovens temos Françoise (Nita Klein), que chegou com Alphonse, uma pretensa sobrinha. O personagem chave é Bernard (Jean-Baptiste Thiérrée), ex-combatente da Guerra da Argélia, meio perturbado com seu passado, enquanto vive amores, principalmente de sua noiva Muriel (que nunca aparece, pode ser até uma invenção de Bernard).

É um filme sobre maturidade, o fim das esperanças, mas não aquele desesperador, um fim por notar as reais possibilidades da vida. Seja esse afim resgatando cartas e recordações do passado, seja ele pela dificuldade das relações humanas. Muriel é essencialmente sobre solidão, do casal maduro que tenta eliminar a solidão com um passado que já se foi. Ou, nos dois jovens perdidos, desamparados, à beira do loucura, ou dae uma autorredenção.

Bem-Vindo a Nova York

bemvindoanyWelcome to New York (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Estou para encontrar um filme tão corrosivo quanto este. Começa com uma “pequena entrevista” de Gérard Depardieu dizendo que não gosta de políticos, estaria justificando o porquê de entrar nesse projeto. A partir daí ele interpreta Sr. Georges Devereaux, que é apenas um codinome para Dominique Strauss-Kahn. Desde a primeira cena o ex-diretor-geral do FMI é deflagrado como um asqueroso viciado em sexo. Reuniões em escritório, orgias em hotéis, num patamar fora de controle.

É a destruição completa da figura pública, Abel Ferrara não poupa Devereaux da exposição vexaminosa em cena alguma. No decorrer do filme vem o caso do ataque a uma empregada de hotel que destruiu a carreira de Strauss-Kahn, que era tido como próximo presidente da França. Ferrara foge dos jornais, da repercussão da mídia. Seu foco é o íntimo da rotina de Devereaux. Não se trata de um estudo de um personagem, mas sim de uma destruição ácid. Desde as discussões com a esposa (Jacqueline Bisset), até os detalhes dentro da prisão (revistado nu pelos policiais, por exemplo).

Òbvio que Ferrara está imaginando diálogos, inventando, mas a construção de um personagem tão asqueroso parece mais crível do que a de qualquer vilão da vida real, que se tenha noticia. Arrependimento não existe, há o que o dinheiro pode comprar, e sua incapacidade de controlar suas investidas. Um homem movido por seu instinto sexual, por mais que esse instinto possa jogá-lo ainda mais na lama. Depardieu e Ferrara juntos perdem qualquer pudor e entregam aquela visão escrota que temos dos políticos mais corruptos, nesse caso o contexto é sexual, mas qualquer outro figurão poderia se colocar num mesmo contexto moral, trocando o sexo por mais fortuna vinda de corrupção.

Comboio

comboioConvoy (1978 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Já me parece um Sam Peckinpah cansado, do pouco que sei os problemas de saúde, e os vícios (drogas e álcool) já debilitavam demais o diretor (a ponto de ter sido contratado alguém para fazer seu trabalho em parte das gravações). Por isso, o resultado saiu meio torto, de empolgantes sequencias de caminhões cruzando estradas em alta velocidade. Ou do charme bruto de Rubber Duck (Kris Kristofferson) que causa frisson nas mulheres, principalmente em Ali MacGraw num corte de cabelo bem espivetado.

Por outro lado, há uma forte carga política na trama que parece se diluir em seu terço final, como se Peckinpah cria-se uma atmosfera de protesto, para logo a seguir abrir (um pouco) a mão em prol dos toques de humor e sedução.

Há também exageros na trama, principalmente quando os caminhoneiros tentam tirar um dos amigos da prisão. Mas, em sua essência é uma interessante, e meio moleque, criação de um protesto de caminhoneiros cansados de, incógnita (mais ou menos como os vinte centavos), o estopim é o abuso de poder do xerife (Ernest Borgnine), mas o comboio de mais de uma centena de caminhões se mostra, apenas, como um grupo que persegue um líder, sem uma grande razão.

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia

tragameacabecadealfredo-garciaBring me the Head of Alfredo Garcia (1974 – EUA/MEX) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Talvez seja o filme que mais tenha o charme no estilo de filmar de Sam Peckinaph. Diga-se por charme o derramento de sangue, a paisagem de terra batida e roupas suadas, o humor característico, e muitos disparos. A história é simples, e toda passada no México. Um figurão manda trazerem a cabeça do homem que engravidou sua filha em troca de uma bela quantia em dinheiro.

Uma série de capangas parte atrás do sedutor, mas é Benny (Warren Oates), um malandro carioca à mexicana, quem tem informações sobre o paradeiro do sujeito, por conta de um caso que sua amada (Isela Veja) teve com o sujeito.

Começa um road movie com tudo que Sam Peckinpah pode proporcionar, além desse humor desbocado, já que o protagonista passa parte do filme brigando com a cabeça e repleto de moscas à sua volta. É daqueles filmes deliciosos de se acompanhar, por mais que parece irregular em muitos momentos (fotografia escura, soluções de reviravoltas tão inverossímeis, quanto divertidas). É Peckinpah trazendo seu faroeste ao mundo urbano, um caminho mais que necessário, que já era tendência em trabalhos anteriores.

Os Implacáveis

osimplacaveisThe Getaway (1972 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Vou soltar uma frase machista ao extremo, mas esse é daqueles “filmes de homem”. Assalto a banco, perseguições de carro, tiroteios, traições e vingaças, mulheres com cenas insinuantes, um cardápio completo.

Steve McQueen e Ali MacGraw (com sex appeal no último) são o casal Bonnie & Clyde da vez. Primeiro Peckinpah filma McQueen no presídio, no cotidiano do detento é dividido com imagens congeladas, esse efeito dá um impacto, impõe estilo. A seguir os planos para um assalto à banco, depois fugas por inúmeros meios de transporte (carro, trem, ônibus). Sempre com tiroteios, malandros na captura, e sequencias eletrizante que pairam entre o suspense e ação pura. Em alguns momentos exagerada na dose, o riso é sintomático (a fase no lixão é o ápice), mas nada que um novo golpe a seguir não recupere a estima pelo casal implacável.

É como eu disse no início, é filme para os homens se imaginarem na pele do protagonista, com a mulher do lado, a coragem e a precisão dos tiros, e o estilo cool que seduz qualquer fã de cinema. Isso é McQueen, isso é Peckinpah e sua violência na veia, e seus cortes rápidos, o frenesi do seu cinema.

Sob o Domínio do Medo

sobodominiodomedoStraw Dogs (1971 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A violência flamejante dos filmes de Sam Peckinpah e o instinto humano de sobrevivência, tão presente nos faroestes, mudam de endereço. Uma série de acontecimentos evidenciam os aspectos tímidos e pacatos de David Summer (Dustin Hoffman), que vai passar uma temporada, com sua esposa (Amy Summer) no interior da Inglaterra, e só quer a tranquilidade necessária para seus estudos acadêmicos enquanto ela cuide da casa.

Conflitos entre o casal, e o desejo irrefreável que ela, com suas atitudes libidinosamente provocativas (como andar de blusa, sem soutien, na rua), causa nos homens broncos que são a essência do local, são o combustível para a explosão de violência que sai dos limites do racional.

De repente David se vê, em sua casa, acuado, com sua honra abalada por tantas razões (as acusações da esposa, o choro por razões que ele ainda nem desconhece, numa cena fortíssima que envolve violência e entrega, num perfeito misto de emoções). E aquele bando de homens prontos a invadir “sua fortaleza”. O pacato dá lugar a um homem obestinado a proteger sua casa/honra, dominado pelo medo, porém empulsionado por essa necessidade de se fazer valer de seus instintos.

São sequencias de tirar o folego, praticamente todas as cenas trabalhadas sob sombras, efeito que enaltece o grau de terror, e o perigo do desconhecido. A transformação do matemático num guerreiro sem armas, usando como sua proteção a mesma arma de seus adversários: a falta de controle.