Uma Longa Viagem

umalongaviagemThe Railway Man (2013 – AUS) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Surgiu como postulante ao Oscar, do ano passado, ate suas primeiras exibições. O naufrágio o levou ao ostracismo, e agora estreia, quase sem repercussão. O peso do passado para ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial, o fantasma das torturas desumanas. Tantos e tantos filmes assumiram este como tema. Dessa vez, baseado no livro autobiográfico de Eric Lomax (Colin Firth), sob direção pasteurizada de Jonathan Teplitzky, temos um ex-soldado britânico aficionado por trens. Ao invés de desenvolver melhor o personagem, o filme traz um romance (Nicole Kidman), e o peso do mundo sob as costas desse sujeito metódico.

Por meio de flashbacks, a captura e trabalho na construção da estrada de ferro (aquela da ponte do Rio Kwai). O filme não consegue nada além de uma fotografia embacada, cenas de tortura e melodramas carregados de uma emoção nada comovente. A mesmice de histórias dolorosas que se repetem, sem que o cinema esteja ganhando algo além de lagrimas e lamentações.

Mommy

mommyMommy (2014 – CAN) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Depois de assistir a horripilante estreia do garoto prodígio, que Cannes tanto adora, achei por bem passar bem longe da carreira do jovem canadense. Colecionador de muitos deflatores, e alguns admiradores, Xavier Dolan segue sua carreira, e com este (que é seu quinto filme) ganhou o Prêmio do Juri (em Cannes, dividindo com Godard, vejam só). Pois bem, acabando quebrando o “boicote” e voltando a esse Dolan “mais maduro”.

A palavra é afetação. Dolan não conseguiu perder a afetação, muito menos a necessidade de colocar demais de si em seus filmes. É a mesma relação umbilical entre mãe e filho, excêntrica, dramática. Dessa vez, há a inserção de uma nova mãe (a vizinha), balanceando os dois desajustados, trazendo ares de harmonia ao caos que impera naquela casa.

Dolan brinca com o tamanho da janela, grande parte é projetado em 1:1, impressão de planos ainda mais fechados nos personagens, ainda mais penetrante, em alguns momentos volta ao tamanho mais “padrão”, brinca nesse vai-e-vem como uma criança com brinquedos novos, e que não sabe com qual brincar primeiro. A presença das música, é tudo visceral, ou tenta ser. O cineasta consegue extrair boas interpretações desse trio que beira a esquizofrênia (o garoto é violento, impulsivo), mas é muito exagerado (afetação), além da necessidade de poesia, na sensação de liberdade no longboard (que chega a ser falada para ficar clara ao público), seja nos silêncios e choros. Dolan não aprendeu a dosar os elementos, claramente se parece com uma tentativa de versão de moderna de Os Incompreendidos, de François Truffaut, com Oasis e ópera pop italiana. É só outro filme afetado.

Caçada Mortal

cacadamortalA Walk Among the Tombstones (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Pode ser implicância minha, mas ainda não consigo visualizar a lógica que levaram a carreira do irlandês, dos dramas “consagrados” (quem se lembra de Nell ou A Lista de Schindler?), para o cinema de ação. Principalmente porque Neeson se tornou um astro, com arma empunhada, mas, tal qual boa parte dos atores do gênero, ele criou um personagem sólido, e o repete a cada filme, não importa o roteiro, nem o diretor. É uma personificação de um personagem único, não importa a situação-limite que se encontra.

E, nesse ponto, a estreia na direção do roteirista Scott Frank, é apenas mais um filme de ação bem desenvolvido tecnicamente. A fotografia é bonita, principalmente em como ele capta a noite, a movimentação na chuva, é tudo muito bonito. Apesar disso, são os mesmos clichês de sempre (principalmente a do herói carregado por erros do passado, sua imperfeição), descuido com arestas, tudo em prol de mais tiros, mais reviravoltas que possam causar mais brigas. Até quando vai o hiato de astros do cinema de ação?

Duas Vidas

duasvidasZwei Leben (2012 – ALE) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Noruega foi ocupada pelos alemães. Algumas mulheres norueguesas tiveram relacionamentos com os soldados, algumas crianças nasceram, e foram levadas à Alemanha por serem arianos legítimos. Katrine (Juliane Koehler) é uma dessas crianças que reencontrou sua mãe norueguesa (Liv Ullmann). Com a queda do Muro de Berlim, em 1990, o assunto volta a tona em tribunais europeus.

O diretor George Maas parte para o suspense, cheio de flashbacks o filme dá sinais de que Katrine tem segredos em seu passado que a trama tenta (mas não consegue) revelar só nos minutos finais. Efetivamente, apenas Katrine é a personagem mais desenvolvida, os demais (incluindo Liv) são coadjuvantes que servem para trazer o e peso do drama familiar, enquanto isso aparece a Stasi e seus métodos pouco ortodoxos. Resumindo, uma salada que tenta ser como thriller americano, tenta resgatar crimes de guerra, dramas familiares, mas só tem algum impacto quando a verdade sobre a fugitiva do orfanato é revelada.

O Siciliano

osicilianoThe Sicilian (1987 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Em muitos pontos a filmografia de Michael Cimino me faz lembrar Coppola, também na fase da Nova Hollywood. Ambos filmaram a Guerra do Vietña, ambos adaptaram Mario Puzo em histórias envolvendo máfia, a Sicília. Há outros filmes de Cimino que tem algo do clima de O Poderoso Chefão, talvez Cimino seja mais virtuoso no ato de filmar, porém mais próximo do cinema de ação.

Christopher Lambert (sempre fraquinho) encarna Giuliano (personagem verídico que agia como Robin Wood nas minhtanhas da Sicília). O roteiro apresenta ascenção e queda, a proximidade com o povo, a ingenuidade do ego inflado e a sabedoria dos verdadeiros mafiosos em manipularem-no. Cimino dá sinais de seu estilo em alguns momentos, aproveitando, por exemplo, na visão árida das montanhas. Porém, de forma geral, pelas atuações irregulares, ou pela condução quem esboça um western, mas se apresenta apenas como um filme que adapta as ideias do livro, de forma pouco inspirada.

Latitudes

latitudesLatitudes (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Projeto trasmídia do diretor Felipe Braga é bem interessante, mais até que a proposta. Foi exibido entre cinema, tv e youtube, com versões diferentes, tamanhos diferentes, mas sempre partindo de um mesmo roteiro. A ideia de unir um casal, em 8 encontros/localidades, explorando as nuances da relação deles com as localidades não funciona tão bem. Por outro lado, é interessante a forma como Braga narra de maneira fragmentada, assim como fragmenta também a formação dos personagens e da relação em si.

Alice Braga e Daniel de Oliveira interpretam o casal que vive de encontros, às escondidas na Europa, entre uma viagem e outra de negócio. Tentam manter ao máximo a vida privada, enquanto lutam e brincam com seus sentimentos. Se falta ao roteiro essa interação com os personagens e as localidades, sobra a explosão emocional e o jogo de conquista entre os dois. Personagens tão independentes, e tão comuns quanto qualquer um.

Calvary

calvaryCalvary (2014– IRL) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Primeira cena é um plano fechado, no rosto de um padre (Brendan Gleeson), dentro do confessionário, ouvindo um homem narrar seu passado, em que foi abusado sexualmente por um padre. O homem promete matar aquele que lhe está ouvindo, no próximo domingo, como forma de compensação.

Como o calvário desse padre. Afinal, ele conhece o homem, mas não sabe o que fazer com tal informação que coloca sua vida em risco. A seguir o roteiro segue a vida desse padre, desde as discussões com seus superiores, até pequenos relacionamentos com a comunidade. Grandes as pretensões do diretor John Michael McDonagh, tenta transformar esse padre cheio de modernidades (descobrimos que ele teve um passado obscuro antes da vocação, com filha suicida (Kelly Reilly) e outros detalhes) numa espécie de catalisador da maldade que aquela comunidade carrega.

McDonagh carrega em tantos personagens obscuros, uma forma de tentar criar suspense sobre a figura do homem que prometeu matar, mas é um artíficio tão em vão. O calvário do padre se torna uma visão demasiada negativa de McDonagh sob sua cara Irlanda. Como se todo o peso mundo caísse sob as contas desse homem, é muita vontade de condensar o mundo todo nessa figura alcoólatra e bem-humorada.