Repercussão: Cannes 2015

cannes2015E ontem se encerrou mais uma edição do badalado, amado/odiado Festival de Cannes. Não tem jeito, ele é o balizador do ano, a maior plataforma de lançamento dos filmes que devem figurar entre os mais falados do ano e presentes em outros festivais. Da tela do meu computador, ou do celular, estive acompanhando mais um ano de críticas, repercussões, tweets e podcasts. Críticos torcendo por alguns filmes, odiando outros, enquanto por aqui se espera, ansiosamente, a oportunidade de conferir grande parte da lista de filmes que complementou todas as mostras do festival.

Mas o festival inicia, verdadeiramente, algumas semanas antes, com a divulgação dos filmes selecionados. Cada festival tem suas características, mas todos querem estar em Cannes, afinal é a grande vitrine para venda de direitos de distribuição no mundo todo. É o parque de diversões do arthouse. Os primeiros sinais de surpresa vieram com a divulgação, nomes considerados certeiros na Competição Oficial foram parar em mostras paralelas, dando espaço para outros diretores que já figuravam em edições anteriores do festival, mas nunca com tal destaque. Assim, Miguel Gomes (ok, seu filme de 6h não coube no escopo da Competição), Desplechin, Kawase e Apichatpong Weerasethakul forma preteridos.

cannes20153Antes eram apenas especulações de nomes e títulos, agora, são especulações baseadas nas opiniões dos outros. Ainda assim, no resumo o festival traz expectativas positivas, ainda que alguns tenham decepcionado fortemente. Mesmo só tendo ganho o prêmio de direção, Hou Hsiao-Hsien sai como o queridinho da imensa maioria. Desde sua primeira exibição se torna o filme mais aguardado do ano. Outro que deixou muita gente vislumbrada foi Carol de Todd Haynes (Rooney Mara levou o prêmio de melhor atriz, empatado com Emanuelle Bercot por La Loi Du Marché) num melodrama requintado. Também grandes elogios para Saul Fia, do estreante húngaro Laszlo Nemes (Grande Prêmio). São os quase unanimes da Competição, com Mia Madre (possível último filme de Nanni Moretti) também desperando boas does de elogios.

cannes20152A segunda leva é de filmes curiosos, ou de diretores eficientes. Agora todos querem falar sobre Dheepan (vencedor da Palma de Ouro), o francês Jacques Audiard havia batido na trave com O Profeta, mas seu cinema é daqueles que preenche as salas de cinema alternativo sem que cause grande comoção. São boas histórias, narradas de forma eficiente, thriller ou drama, longe das construções sofisticadas de alguém como Hsiao-Hsien. Seu novo filme é sobre imigração ilegal de um rebelde de Sri Lanka. A recepção foi positiva, mas não vi uma lista sequer em que o filme estivesse no top 10 do festival.

 

Festival é assim mesmo, sua importância está na exibição, a premiação é a cereja do bolo. Afinal, o júri é formado por poucas pessoas, ligadas ao cinema, e portanto fica muito pessoal. Os irmãos Coen presidiram o júri, a escolha por Audiard me parece até coerente com o que se esperar dos Coen, por mais que não sejam estilos semelhantes. O humor negro dos Coen pode até ecoar na vitória de The Lobster (prêmio do júri), se bem que Lanthimos vai muito além do humor negro, e, pelo visto, teremos que aturá-los por mais um tempo. Mountains May Depart, de Jia Zhang-Ke também causou boas impressões, drama político acerca de algumas década de sua China.

Os italianos pareciam vir com tudo, Sorrentino era o grande favorito (antes do festival começar), e nem ele, e nem Garrone conquistaram a maioria. Joachim Trier, Stephane Brizé e Dennis Villeneuve, e até Kore-eda agradaram. O restante ficou entre o medíocre (Michel Franco levou roteiro, muitos detestaram) e as vaias (a maioria não entendeu a presença do filme de Gus Van Sant).

 

cannes20154Das mostras paralelas, As 1001 Noites, de Miguel Gomes, encantou, os romenos Porumboiu e Munteau, além de Apichatpong e Desplechin foram só elogios. Deixando assim essa sensação estranha de um festival que tenta forçar uma renovação, deixando de lado alguns de seus pesos pesados, para apostar em jovens (que talvez não sejam as apostas corretas). Cannes pode se dar ao luxo de colocar nomes tão importantes na Un Certain Regard ou na Quinzena dos Realizadores, mas, pelas repercussões, não foram os jovens cineastas que demonstraram a renovação.

A vitória francesa, e até a escolha na abertura de um filme francês que nada agradou, demonstram uma tentativa de olhar para dentro da própria indústria francesa. Percebe-se um destaque menor ao cinema americano nessa edição (por mais que houve exibição de animação nova da Pixar, e o novo Mad Max tenha figurado entre os melhores do festival), ainda assim é perceptível esse movimento de tentar renovar. E a cerimonia de entrega dos prêmios então, várias apresentaç~eos musicais, um clipe de homenagem, um flerte forte para o formato de festa que o Oscar promove (não deu certo). Cinema não é um esporte, nem uma ciência exata, viva a pluralidade, e as opiniões distintas. E se o júri não escolheu o melhor filme, que pena, porque daqui alguns anos, o que vai se lembrar é da Palma de Ouro para Jaques Audiard.

Condenado à Vitória

condenadoavitoriaThe Jericho Mile (1979 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Folsom Prison serviu como cenário para o primeiro telefilme dirigido por Michael Mann. O cineasta demonstra interesse nas relações entre gangues, as quais são divididas por etnias (negros, brancos, mexicanos). O protagonista, Murphy (Peter Strauss), corre pelo pátio da prisão, ao som empolgante de Sympathy for the Devil (Rolling Stones), sem um rumo definido, apenas pelo prazer de correr. Os enquadramentos e cortes se repetem, nos pés, em plano geral, ou nas gangues que assistem o corredor solitário. Enquanto Murphy se destaca, a ponto de se discutir a possibilidade dele competir nas Olimpíadas, a prisão permanece sob as regras de convivência internas, do tráfico à violência como forma de dominação.

Esses dois momentos se relacionam, é quando Mann aproxima o lirismo e o ritmo contagiante, com o retrato duro da violência. Desde seu primeiro filme, por meio de personagens que primam pela veracidade das escolhas, pelo mundo fora-da-lei, sinais de um estilo que seria personificado em seus trabalhos no cinema. O final é belíssimo numa espécie de rito da liberdade do indivíduo, mesmo para quem cumpre pena perpétua.

James Brown

jamesbrownGet on Up (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Na briga pelo pior filme entre os ícones da música soul, os americanos ganharam dos brasileiros. A cinebiografia de Tim Maia não é nada perto da tentativa de soar cool, o tempo todo, dirigida por Tate Taylor, que constrói a biografia de James Brown. A personalidade já é caricata por natureza. Exagerado, histérico, egocêntrico. No cinema, James Brown (Chadwick Boseman) conversa com a câmera, impetra todas as maneiras possíveis de trazer o swing ao personagem, principalmente no trato com o público.

Além dessa insistência, resta o didatismo dos fatos, porque imergir na figura de James Brown é a única tarefa que o filme não faz, provavelmente por não saber como fazer. Os excessos tomam o verdadeiro espaço das relações, das frustrações, da ânsia de ser o maior que Brown carregava. O filme não desperdiça pequenos detalhes da vida, nada que náo pareça peça do roteiro para dar-lhe um ar lunático. A distância entre falar a realidade e soar real, eis o que Tate Taylor passou longe aqui, além da transpiração, a inspiração, a música de Brown toca e convida o filme para dançar, mas, o filme é muito duro e só consegue dar berrinhos num canto do salão

Últimas Conversas

ultimasconversasÚltimas Conversas (2015) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Nossa curiosidade mórbida é maior que o respeito ao autor, por isso, quando um artista morre antes de encerrar um trabalho (filme, disco, o que for), essa curiosidade, aliada aos interesses econômicos do “último trabalho de fulano” resultam na finalização do trabalho, sem aval do criador.

O ducmentário é aberto com um depoimento do próprio Eduardo Coutinho (que morreu antes de que a edição fosse concluída), discutindo o conteúdo do material gravado, se queixando do resultado pífio (segundo sua opinião). Enfim, deixando claro que aquele material não lhe agradava, não havia conteúdo interessante para um filme.

Pois bem, João Moreira Salles e Jordana Berg finalizaram o filme. Tentaram dar um ar mais pessoal, colocar mais de Coutinho no ducmentário. Transformando assim a autocrítica, a análise de quem está descontente e precisar entregar o filme para “pagar as contas, sobreviver”, mesmo que resultado não represente a qualidade de cinema que ele busca.

Eu jamais lançaria esse filme, as entrevistas com os estudantes não são interessantes, Coutinho demonstra seu desinteresse nos personagens, ou fala mais que eles tentando extrair alguma coisa. E o filme vai soando melancólico, até traça um panorama com a repetição de temas (e problemas familiares) que tais jovens expõem. Mas, é pouco, Coutinho alerta para isso, mas, era óbvio que esse material seria jogado ao público, era impossível conter a curiosidade.

Mad Max: Estrada da Fúria

madmaxfuriaemtodasMad Max: Fury Road (2015 – AUS/EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tom Hardy não demonstra a mesma figura marcante de Mel Gibson, ao reviver Max, esse sobrevivente-vingador das estradas da saga. Eeis que surge Charlize Theron como a verdadeira personagem forte da trama. Uma presença mais forte de Hardy faz falta: suas poucas falas e muitos resmungos o transformam em um mero distribuidor de chutes e pontapés. Assim, sobre espaço para a heroína Furiosa (Theron) roubar-lhe o carisma, o protagonismo, o filme.

Dito isso, o novo Mad Max é estupendo e insano. Nessa época de enxurrada de franquias retomadas, em que os novos filmes tem perdido, de goleada, aos anteriores, George Miller retoma o mundo pós-apocalíptico de Mad Max com a mesma fúria, e mais recursos tecnológicos capazes de oferecer um dos filmes mais alucinante do cinema. A trama se aproveita da mesma configuração de mundo um desolador. Água e combustível são os verdadeiros ouros da sobrevivência. Plantas e verduras beiram a extinção. Praticamente um reboot do segundo filme, mas com elementos que sugerem uma unificação entre este segundo e o terceiro (a fuga do grupo contando com a ajuda de Max para escapar da gangue, a cidadela sob controle ditatorial).

Depois de uns vinte minutos alucinantes, onde a narração em off evoca o passado de Max e explica a sociedade capitaneada pelo extravagante e regupgnante Immortan Joe (Hugh Keayes-Barney) e seus vivos-mortos, temos um breve fade-out (primeira chance do público respirar) e começa a caçada alucinante pelo caminhão dirigido pela Imperatriz Furiosa.

Olhos grudados na tela, a ação só para no pequeno alívio cômico no melhor estilo Victoria’s Secret. Aliás, vale mencionar como o cineasta desenvolve tão bem alguns personagens, mesmo no meio de tanta adrenalina e ritmo acelerado. As parteiras, o passado de Furiosa, Nux (Nicholas Hoult) representando os mortos-vivos, e até mesmo relações românticas que surgem em momentos de tanta intensidade.

George Miller prefere cenas mais realistas. Há menos efeitos especiais e mais dublês. Tudo é estiloso: as roupas de couro e metal, a guitarra que cospe fogo, os homens amarrados em longos cabos (como numa apresentação circense). A caçada entre estradas de terra batida, as caveiras e muito, muito Rock N’Roll. Miller envolve o público nesse universo alucinatório, extrapola todas as possibilidades que a cabine daquele caminhão oferece, destrincha as máquinas enquanto trafegam no máximo de sua velocidade. É pura adrenalina e pulsação, e os enquadramentos endeusam esses “cavalos” de metal que fazem barulho e soltam fumaça.

O veterano diretor reinventa sua própria obra, como se fosse possível voltar no tempo e refazer o passado. O trailer prometia muito, a entrega do filme é ainda melhor, um dos melhores filmes de ação de todos os tempos. O cinema de autor chuta a porta e invade o mainstream.

Mad Max – A Trilogia

madmaxMad Max – A Trilogia

Em breve chegará aos cinemas o novo filme da saga australiana apocalíptica de Mad Max. Mesmo 30 anos após o lançamento do último filme, o diretor George Miller é quem está à frente desse quarto capítulo. Momento propício para, como eu fiz, rever estes filmes que permearam a adolescência, que preencheram tardes. De dar de cara com a juventude de Mel Gibson, e, principalmente de perceber que grandes temores futuristas dos anos oitenta ainda nos afligem (ou nos atingem): guerras, o poder do petróleo, riscos de falta de água.

madmax1Em 1979, Mad Max (estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza) aparece com a história de um grupo de motoqueiros arruaceiros colocando terror nas estradas australianas. O policial Max (Mel Gibson) se vê tendo de abandonar, a carreira, e proteger sua família, após “ser jurado” pelo grupo que assola a região com carnificina desenfreada. George Miller filma perseguições inesquecíveis, a violência explícita de filmes de terror, as roupas de couro e metais que amedrontam só de aparecer em cena. É um filme viril, implacável.

madmax2O segundo capítulo é de 1983, Mad Max 2 – A Caçada Continua (estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza) absorve o pós-guerra que desestabilizou o mundo. Combustível virou moeda de troca letal, água praticamente o ouro líquido. A sobrevivência algo primitivo, a sociedade regida pela barbárie. Regiões completamente áridas, apenas terra seca e destroços de diferentes tipos de veículos. Max se tornou um vingador solitário, trafega pelas estradas aniquilando marginais. Sua vida não parece ter sentido algum, consumido pela tragédia e necessidade de vingança. Na segunda metade, praticamente uma batalha medieval, um grupo com mulheres e crianças criou uma fortaleza, possuem um caminhão tanque de combustível. Gangues de motoqueiros assassinos querem roubar o caminhão-tanque. George Miller intensifica grandes cenas de batalhas apocalípticas, sempre com máquinas e figurinos metálicos, cria assim um visual próprio, alucinante, enquanto filma visceralmente sequencias empolgantes.

madmax3Além da Cupula do Trovão (estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza)fecha a trilogia futurista, foi lançado em 1985. Tina Turner é a líder de uma cidade que ainda sobrevive à falta de água. Ela vive conflito com o grupo que produz energia à cidade, e contrata Max para matá-lo. Neste filme George Miller divide a direção com George Ogilvie, e o que se vê é uma grande aventura infanto-juvenil, praticamente um Goonies sem encanto. Perde-se a mão do que estava sendo construído, com exceção da luta mortal na arena, onde o clima dos filmes anteriores permanece intacto. O restante são crianças ajudadas por Max, se metendo em aventuras, acreditando que ele seja o Messias.

Garotas

garotasBande de Filles / Girlhood (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Céline Sciamma está de volta, e com ela o universo de personagens jovens, que já faiz parte de seus filmes anteriores. Lembra muito o filme anterior de Sofia Coppola (A Gangue de Hollywood), só que a gangue de garotas é transportada à França, dentro da comunidade negra. Sciamma traz esse mundo de gueto, a exposição social da vida em conjuntos habitacionais. Porém, seu filme é focado mesmo na cultura social, seja na crise familiar da jovem que quer sua liberdade, e sofre repressão. Seja nas relações de status social, as provocações, a autoafirmação de liderança no grupo.

Distante do frescor e da novidade na abordagem de Tomboy, se encontra entre o filme de Sofia e o universo Juhn Hughes, nem tão melancólico, e longe de ser divertido. É uma visão mais crua, menos poética, que dialoga exatamente com as tendências atuais (roupas, estilo, música). Um tanto bruto quanto a própria feminilidade de suas meninas-personagens.