Birdman ou a inesperada virtude da ignorância

birdmanBirdman: or (The Unexpected Virtue of Ignorance) (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Exagero, extravagância, eloquência. Não faltam adjetivos capazes de rotular o novo filme de Alejandro González Iñarritu. O cineasta mexicano, que explorou o recurso das histórias que se entrecruzam até esgotar a paciência do público, vem agora, com o ego nas alturas, discutir a inesperada virtude da ignorância. O ator (Michael Keaton) que tenta na Broadway a redenção após o estigmar de ser o herói dos cinema (Birdman) é prato cheio para Iñarritu preencher com histerismo os bastidores de uma peça prestes a estrear.

O ego de Iñarritu começa pelo falso único plano-sequencia, a qual o filme ser apresenta. Personagens berrando o tempo todo, os nervos à flor da pele, é tudo capturado pelo exagero de discursos agressivos, e pela petulância de quem tenta resumir os males do mundo em meia-dúzia de personagens caricatos. É o cinema da demasia, da loucura calculada na pretensão de um estudo psicológico humano, que não vai além da arrogância da sátira do absurdo.

A Teoria de Tudo

ateoriadetudoThe Theory of Everything (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um dos mais cotados postulantes ao Oscar 2015, a nova cinebiografia do físico Stephen Hawking (Eddie Redmayne) busca os limites do piegas melodramático. Lembra muito Uma Mente Brilhante, mas desce ainda mais profundamente em todos os elementos capazes de traumatizar as lágrimas de um público que esteja ávido por isso.

O roteiro é baseado no livro escrito pela primeira esposa, Jane Hawking (Felicity Jones), e há muito dela no filme, ela praticamente rivaliza o protagonismo de Hawking na história. Porém, o que sua personagem tem a oferecer? Uma mãe dedicada, uma esposa que encara de frente as lamentações físicas do marido gênio? Pouco que acrescente realmente há história de Hawking. O fraco telefilme da BBC não dá toda essa importância, consegue focalizar melhor as idéias e trabalhos de Hawking, o cineasta James Marsh prefere o romantismo, por isso surge com força a presença de Jonathan (Charlie Cox), outro que nada oferece a persona de Hawking.

Restam dramas, cujos atores principais não conseguem ir muito longe em suas atuações, e falta a figura de Hawking, o tamanho de sua importância para o mundo da física. Não basta colocar um plano com a capa dos livros sendo vendidos nas livrarias, claro que dosar o tom das conversas científicas é algo delicado, praticamente bani-las já é uma amputação da própria paixão do cinebiografado, de demonstrar quem ele realmente é.

Bamako

bamakoBamako (2006 – Mali) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um tribunal africano julgando instituições como o FMI e o banco Mundial. Essa a ideia proposta por Abderrahmane Sissako, entre as discussões a dependência econômica de países como Mali frente o pagamento dos altos juros da dívida externa. A relação do PIB entre educação, saúde e juros, sempre desequilibrada impedindo algo muito maior que o desenvolvimento econômico, e sim a sobrevivência da população que carece de tudo, incluindo comida.

Um júri a céu aberto, no pátio de uma casa dividada por diversas famílias, advogados franceses tentando defender a justiça dos contratos, de outro locais que questionam a moralidade, o intervencionismo e a dependência econômica imposta. Enquanto Sissako expõe de maneira clara opiniões diversas e necessidades básicas, ainda encontra espaço para tratar das famílias que vivem naquele pequeno vilarejo. Principalmente da cantora de bar e seu marido, a vontade de trabalhar no exterior, a tragédia diária. Sissako traça uma vértice entre a questão macro africana e o microcosmos de seu povo carente, desesperançado, simplório e ainda assim tão belo.

A Vida na Terra

avidanaterraLa Vie Sur Terre (Mal – 1998) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Parte de um projeto de filmes sobre a virada do milênio, o diretor Abderrahmane Sissako assume o protagonismo desse filme construído sem roteiro, que permite que a trama se desenvolva livremente entre a idiossincrancia da tecnologia dos anos 2000 e o atraso, e distância do “mundo”, de uma região simplória da África. A pequena rádio diverte a população, a comunicação via telefone é precária, o filme faz questão de repetidamente ter cenas demonstrando a dificuldade em trocar meio dúzia de palavras com o estrangeiro.

Há a questão da necessidade de partir, a questão do movimento é algo mais poético no trabalho de Sissako, contraponto com a aspereza seca com que vivem os locais de Sokolo, essa pequena vila no Mali. É tão belo e provocador, afinal, estamos imersos por novos computadores, a globalização, e há povos que vivem tão alheios a esses confortos, que nem sabem que precisam de tantas novidades que o novo milênio trazem. Ou melhor, eles não precisam, não são afetados pelo capitalismo que nos impõe necessidades, Sissoko mostra que há vida na Terra, mesmo que dessa forma tão “rudimentar”.

Timbuktu

timbuktuTimbuktu (2014 – MAU/FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Nos filmes anteriores de Abderrahmane Sissako, a narrativa era sempre dividida em um painel de personagens interagindo com regiões africanas. Esse formato persiste na primeira metade, um pequeno painel das influências da ocupação de um grupo de rebeldes islâmicos em Timbuktu. É fácil perceber que será um filme sobre as mazelas africanas, sobre dor. Com financiamento francês, portanto mais dinheiro, são nítidas as novas possibilidades de Sissako, como, por exemplo, os planos abertos, aproveitando a paisagem árida, pequenos lagos, ou a arquitetura típica.

Nesse grupo de pequenas histórias que, aparentemente, se formam livremente, prevalece a do homem dono de um pequeno rebanho de gado. A esposa cobiçada pelos invasores, a confusão com um pescador que mata um de seus bezerros, o homem vai a julgamento do grupo que agora comanda militarmente a região. Sissako tenta expressar a nova ordem sob a regida dos invasores, maior impacto é a genuína vida tão distante das metrópoles. O filme não consegue diferenciar a vida do antes e depois, além de partir fortemente para a concentração de tragédias nos mesmos personagens. Poderia ficar com as pequenas histórias, com os dramas individuais, mas não, a necessidade de intensificar o clímax diminui a potência da agressividade distribuída.

Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo

FOXCATCHERFoxcatcher (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A polêmica corre solta pela internet, o lutador Mark Schultz (Channing Tatum) dispara tweets bipolares sobre o filme. Sua reação vai do ódio eterno, por sutis conotações homossexuais na história, até elogios rasgados após as indicações ao Oscar. Schultz não se controla, explode, demonstra ser o personagem que o filme expõe.

O diretor Bennett Miller vai ser tornando o homem das biografias do cinema americano moderno. Depois de Capote e Moneyball, ele volta ao mundo do esporte, dessa vez o foco na luta greco-romana. A história beira o fascinante por conta do multimilionário John du Pont (Steve Carell) e seu fascínio pelo esporte. Egocêntrico, carente, frágil, poderoso economicamente, Du Pont se torna patrocinador e líder da equipe olímpica americana. Por mais que o filme tenha predileção por Schultz, é no contido Du Pont que encontra os ingredientes do desequilíbrio emocional, da loucura, da total falta de controle.

Oposto está o irmão de Schultz, David (Mark Ruffalo) com sua personalidade sociável e amável. Os três formam os pilares do comportamento competitivo que o filme tenta preservar enquanto desenvolve a trágica história de declínio de um campeão olímpico. A força do capital, a incapacidade de se desvincilar de uma armadilha não-planejada, algo como cair na areia movediça. Porém, Miller perde tempo, gasta cenas, tem esses personagens poderosos (como era Capote), e resgardo-os excessivamente em cenas contidas. Acelera a história, demora tempo demais construindo o alicerce para ter que terminar a casa de qualquer jeito. Resta um hiato, dose sacal de distanciamento, que o próprio roteiro não dá conta de preencher.

The Skeleton Twins

theskeletontwinsThe Skeletons Twins (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Sundance e seus filmes indies, com losers fofinhos, crises existenciais e trilha Sonora característica. Quando o festival conseguirá escapar do estigma desse cinema rotulável e repetitivo? Enquanto o festival está longe de ser referência num cinema moderno, vamos aturando a melancolia de filmes que nascem da mesma forma de sapato.

O diretor Craig Johnson não demonstra nenhum sinal de tentar escapar desse formato, portanto, bingo, seu filme foi selecionado. O drama conta a história de dois gêmeos suicidas (Kristen Wiig e Bill Harder, mesmo que estejam 10 anos sem se ver, tentam o suicídio no mesmo momento. Promissor não? Tentando resgatar os anos de convivência, o casal de irmãos passa um tempo juntos, briga, entra em crise, se envolve na vida do outro. A festa da intimidade em família. O roteiro ainda tenta ter alguma esquisitice indie, para dar aquele ar cool (no caso a afeição dos dois por esqueletos). Sundance segue nivelado por baixo.