Magia ao Luar

magiaaoluarMagic in the Moonlight (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um filme novo, de Woody Allen, a cada três anos. Já venho falando nisso há anos, agora vou lançar a campanha. Quem sabe ele não se sensibiliza e amadurece melhor suas ideias. Ele voltou ao mundo da burguesia, dos romances fofos, dos roteiros desenvolvidos a partir de 2-3 ideias de cenas (nada me tira da cabeça que a cena final foi chave, de onde grande parte da trama começou).

Mágicos e médiuns, o imaginário humano pelo oculto, pelo indecifrável. Sophie (Emma Stone) é a bela jovem que tem visões, conversa com mortos, descobre segredos. Para descobrir seus truques e provar ser uma charlatã é convocado Stanley (Colin Firth), ilusionista respeitado em Londres. Filme de época, na França, belos casarões e vestidos, milionários e o charme de um cético racional. Woody Allen filma mais uma daquelas histórias para se assistir enquanto arruma o quarto, se prepara para dormir, dando uma olhadela na tela da tv, sem muita importância. Seu filme tem estilo, algumas ideias, e uma história que faça tudo isso se encaixar.

The Year One

theyear1The Year One / L’an 01 (1973 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Após os movimentos estudantis de 1968, as manifestações e tudo mais, algumas pessoas pregavam que o mundo devia recomeçar, sair do zero. As pessoas deveriam quebrar com o sistema, poder viver com maior liberdade, trabalhando quando quisessem, sem a necessidade capitalista de possuir bens materiais. Seria o ano 1, o recomeço.

Os diretores Alain Resnais, Jacques Doillon e Jean Rouch embarcaram nesse projeto, não muito conhecido atualmente, simulando o que seria o mundo com essa nova concepção. Na França uma vida quase anárquica invadindo as ruas, esse movimento se espalhando por outros cantos do mundo. Uma sátira interessante, um mundo muito mais livre, provavelmente impossível de ser vivido, mas cinematográfica uma deliciosa viagem. Como se a vida hippie de comunidade tomasse as grandes metrópoles. Seja no sexo, nas relações pessoais, e principalmente nas relações profissionais.

Ida

idaIda (2013 – POL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Outro filme em que o rigor estético, orquestrado pelo diretor (Pawel Pawlikowski) é a chave para sobressair-se na cena do cinema contemporâneo. Filmando em branco e preto, Pawolikowski vai à década de 60 na Polônia. Uma jovem (Agata Trzebuchowska), prestes a ser tornar freira, vai ao encontro de sua tia (Agata Kulesza) e única parente.

Em poucos dias, as duas partes numa busca pela verdade, ao corpo dos parentes que morreram nos massacres de judeus na Segunda Guerra Mundial. Enquanto a jovem Ida vive um pouco fora do convento, antes de se finalmente confirmar seus votos. Enquanto a tia lhe mostra um pouco do mundo, e o quanto é uma mulher forte e fragilizada, as duas resgatam novamente o passado assombroso do Nazismo.

Desprovido de sentimentalismo, a narrativa seca e elegante prima pela força estética empregada por Pawolikowski que resgata as regiões distantes das grandes cidades, o mundo do campo, entre vegetações secas e casas simples. Ida é seguro, cirúrgico, e exemplarmente resumido pelos olhos da jovem que testemunha uma realidade tão próxima que ela nem pensara ter vivido.

 

 

24 City

24city24 City / Er Shi Si Cheng Ji (2008 – CHI) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Por meio de relatos de ex-funcionários de uma fábrica de armamento bélica, que irá ser demolido para dar lugar a um grandioso complexo de apartamentos e hotéis (batizado como 24 City), o cineasta chinês Jia Zhang-Ke parte, em mais um capítulo, de sua saga de reflexão sobre seu país, e a sociedade desestruturada que tenta reencontrar-se após as aberturas econômicas e mudanças estruturais.

São depoimentos pessoais, alguns emocionantes. Lembranças do passado, de pessoas, de familiares que se separaram, do dia-a-dia, apelidos, brincadeiras, ilusões. Zhang-Ke traz o tema das Revoluções Estudantis, de conflitos em que a China se envolveu e o sucateamento da fábrica após a baixa necessidade de armamentos. Volta a demonstrar o deslocamento frenético de pessoas, como a migração é em prol do emprego, mesmo que famílias precisem ser separadas (e fiquem sem contato por anos, décadas). Zhang-ke olha para o passado, mas quer refletir o vazio do futuro.

Sua obra constitui-se de pequenos capítulos de um mesmo tema, se sua voz ecoa ainda rígida e crítica, já demonstra sinais da necessidade de buscar algo novo, diferente. Seus filmes saíram do falso documental, para o documentário propriamente dito, sempre com desesperança, carência financeira, distanciamento da cultura de seu povo. Zhang-ke continua convicto, capaz de grandes momentos (como a mulher que relembra de brincadeiras que causaram o fim do seu namoro), mas com sinais de um futuro tão incerto quanto da sociedade chinesa que ele tanto destaca.

Todas as Noites

todasasnoitesTouts Les Nuites (2001 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O roteiro (inspirado em Gustava Flaubert) trata da amizade de dois amigos, numa cidade no interior da França. Adolescentes em 1967. A vida os separa, mas a amizade se mantém. Um tenta ser escritor (Adrien Michaux), o outro vai estudar em Paris (Alexis Loret) e se envolve com a esposa (Christelle Prot) de um de seus professores, foge com ela aos EUA.

Seguem os caminhos dos amigos, os envolvimentos amorosos, as decepções da vida. Os acontecimentos não são o mais significativo no filme de estreia de Eugène Green, aliás o roteiro parece apenas preencher algumas lacunas, porque a essência está nos planos rígidos, no plano-contraplano, na suntuosidade da noite. O estilo forte do diretor, com diálogos marcos e um rigor estético impressionante, resultam numa espécie de poesia filmada.

Os atores encontram o tom certo entre o erudito e o naturalismo, os planos-fechados, a luz, tudo ganha importância incondicional. O desenrolar da história é quase onírico, até quadrado. O sexo em sua forma literária. Como Green comanda e conduz esses personagens, o verdadeiro chamariz de seu filme.

 

 

 

Eu Te Amo, Eu Te Amo

euteamoeuteamoJe T’aime, Je T’aime (FRA – 1968) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Alain Resnais e sua mente inquietante em meio a viagens do tempo. O cineasta francês volta a brinca com tempo e memória, fragmentos de lembranças percorrem a vida de um suicida fracassado (Claude Rich), que aceitou participar de um experimento que o faria viajar em seu passado. Enquanto os cientistas tentam controlar a situação, que parece fora de controle, Resnais resgata pequenos pedaços de passado desse homem. Forma a história de sua vida, profissional e amorosa, e até um possível assassinato.

Novamente bela a maneira como Resnais conduz a narrativa, cenas que se repetem, detalhes que surgem do quebra-cabeças que montamos na memória. São fragmentos e fragmentos que confudem, que esclarecem, entender linearmente não é o importante, e sim como Resnais é capaz de contar histórias de amor, de maneiras tão diferentes, de sair de pequenas lembranças para uma forma tão bela de resumir relacionamentos, momentos, uma tarde na praia. Humor, ternura e a montagem desconexa, Resnais sempre um poeta do cinema em sua amplitude.

Borgman

BorgmanBorgman (2013 – HOL) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Fico tentando mergulhar livremente nesse tipo de cinema que cineastas como Alex van Warmerdam fazem, sátiras que não prezam pela graça, um surrealismo envergonhado e a liberdade de não se preocupar com o crível, o palpável. Fantasias satíricas, provocações que não chegam ao sutil, e nem se abrem abertamente ao humor negro. Inventar uma bebida que mexe com a personalidade das pessoas é fácil, essa é apenas uma das artimanhas desse roteiro.

Pouco importa se a gangue, que estava escondida em buracos na mata, é de ladrões, sequestradores, ou vítimas fugindo de perseguidores implacáveis. Um deles, Camiel Borgman (Jan Bijvoet) escapa e pede um banho na casa de uma família classe-media alta. Com o jeito de mendigo, o pedido é negado, o dono da casa sai de controle e Camiel se torna um pesadelo na vida daquela família. Van Warmerdam brinca com coincidências, cria uma engenhosa e cruel vingança, que não perdoa até que nada tem a ver com a confusão. O filme provoca a classe média, sua distancia, a subversão. Tenta propor uma nova ordem, mas vem enraizada de uma violência que descredencia sua própria sátira social.