Pássaro Branco na Nevasca

passarobranconanevascaWhite Bird in a Blizzard (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Gregg Araki volta com seu universo oitentista, de cores mais berrantes e visual muito mais kitsch do que a década realmente mereceria. Mas, é este o universo que Araki gosta de desenvolver seus filmes, sempre com temática gay, adolescência, e o sexo como facilitador das relações pessoais.

Dessa vez ele exagera nas doses dramáticas, ou melhor, na caricatura das mulheres. A mãe infeliz (Eva Green) é a própria caricatura da dona-de-casa, o pai (Christopher Meloni) então eleva esse retrato infiel à enésima potência. Porém, o foco é a filha (Shaileine Woodley), descobrindo sua sexualidade, pagando de madura, enquanto sobrevive tranquilamente ao desaparecimento da mãe, sem vestígios. A vida segue, os amigos esquisitos, a faculdade. A mãe como uma sombra de uma lembrança.

Mas, este é mais um indie americano, a trilha fofa está sempre presente, o ar lúdico, a neve caindo em ritmo lento. São apenas losers, com o mesmo peso dramático de qualquer filme de Sundance. Até o final revelador do paradeiro da mãe, com todas as pitadas possíveis do cinema de Araki. Sem dúvida, um trabalho coerente a sua carreira, isso não perdoa essa criação de personagens tão perfeitos para seu filme, tão impossíveis ao mundo.

Casa Grande

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Casa Grande (2014)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em seu primeiro longa de ficção, o diretor Fellipe Barbosa pega emprestado a crise financeira vivida por sua própria família (conforme suas afirmações em entrevistas) para traçar assim dois paralelos: a crise da classe média alta carioca, e a discussão sobre o sistema de cotas nas universidades federais. A cena inicial, tecnicamente bem construída na sincronização de som e imagem, tem um plano geral do quintal da casa (grande), onde o pai (Marcelo Novaes) faz a ronda de apagar as luzes de todos os cômodos. É exemplo do quanto a câmera tenta sempre alcançar distanciamento particular, mesmo com toda a carga autobiográfica da história.

Finanças e política correm como pano de fundo. No centro, o personagem do adolescente Jean (Thales Cavalcanti), em vias de prestar vestibular, enquanto vive sob a rígida proteção paterna nessa fase de libertação, de inquietude sexual. Seus comportamentos variam entre os encontros inocentemente apimentandos com a empregada da casa, o namoro com a garota que conheceu no ônibus, a amizade com os colegas de classe e o discurso que tantas vezes repete o do pai, mesmo que ele tenha comportamentos diferentes que não ficam tão claros até o inevitável confronto.

O filme sabe muito bem olhar para o mundo da classe média alta, entender e desenvolver os personagens ricos, retratar este mundo e criticá-lo didaticamente (exemplo do jornal com a manchete sobre Eike Batista, referência desnecessariamente didática). Os mais pobres acabam abordados com afago, e só. Além disso, a necessidade do roteiro de problematizar tudo, como a cena que repete o drama do filme Chamada a Cobrar, ou a discussão acalorada no churrasco. Ao tentar exibir a arrogância da elite e o discurso de justiça racial, o filme funciona bem melhor em sua rigidez estética do que quando tenta impor esse discurso condescente com a crise institucional brasileira.

Oharu, A Vida de uma Cortesã

oharuSaikaku Ichidai Onna (1952 – JAP)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um primor de narrativa clássica, inspirado-se no romance A Vida de uma Mulher Sensual, de Saikaku Ilhara, o mestre japonês Kenji Mizoguchi entrega outros de seus filmes fundamentais. Em foco, as relações sociais na época do Japão feudal, principalmente sob o prisma sexual. Praticamente um filme resumo do cinema de Mizoguchi, foco em personagens femininas, o Japão histórico (aqui o século XVII), a fluidez proporcionada pelas panorâmicas com travellings laterais.

Não é bem a decadência de Orahu (Kinuyo Tanaka), está mais para os altos e baixos, de uma mulher linda, romântica, e cada vez mais fragilidade e perseguida pelos costumes machistas da época. O filme abre com ela cinquentona, uma prostituba castigada pela idade, não lhe permitindo assim muitos clientes. Abre-se um longo flashback, Oharu fez parte da Corte Imperial, apostou no casamento por amor (fora de sua casta) e acabou expulsa da corte. Sua vida é de novos amores, e as consequências de quando seu passado vem à tona. Uma vida de perseguição, de destino marcado pelo trágico. Concumbina, ou meretriz, a sociedade à época não lhe permitia ir além, Mizoguchi narra a desgraça pela tônica de uma mulher sem opção.

Noites Brancas no Píer

noites-brancas-no-pier1Nuits Blanches sur la Jetée (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Encontros notívagos num píer, reúnem uma mulher e um homem. Ela, Natasha (Astrid Adverbe) à espera de seu amado, que prometeu retornar em 1 ano. Ele, um professor, Fédor (Pascal Cervo) vivendo um ano sabático. Quatro noites seguidas de encontros fortuitos, onde ambos refletem o vazio de seus corações.

Adaptação, de Paul Vecchiali, da obra Noites Brancas, de Dostoiévski. O autor não está apenas na inspiração, a homenagem vai até mesmo ao rebatismo do personagem masculino, claro sinal da profunda admiração de Vecchiali. São basicamente diálogos entre os dois (exceto na epígrafe num cameo do diretor). Meio teatral, meio literário, ainda assim, com elementos narrativos fílmicos que enobrecem a beleza do texto. Planos fixos, as luzes refletindo sob o mar negro da noite (oposição às noites brancas do livro), enquanto Natasha e Fédor versam sobre suas vidas, decifram suas biografias entre o lúdico e o direto, criam teorias ou buscam sentidos ao vazio que os assombra.

Em poucas noites tornam-se cúmplices de seus sentimentos, lágrimas ou sorrisos, a música unindo os dois corpos (que cena linda da dança). Apaixonados? Descobriremos mais tardes. A forte ligação entre eles não guarda segredos. Afinal, em tão pouco tempo, sabemos tanto daqueles dois solitários. Pena que tenha sido apenas o primeiro filme do veterano Paul Vecchiali a chegar aos cinemas daqui.

Pays Barbare

paysbarbarePays Barbare (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Utilizando-se de imagens gravadas entre as décadas de 20 e 40, o trabalho dos diretores Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchini é um found footage sobre a dominação italiana da Etiópia. A invasão facista, a liderança de Mussolini.

Por meio das imagens desgastadas, o documentário acompanha a chegada italiana, o encontro com as culturas tribais africanas. Uma construção lenta e rica, capaz de costurar a atmosfera da invasão facista. O mais interessante é como a dupla de diretores, sai de um material de arquivo, para criar um documentário sobre a barbárie. Sem que as imagens utilizem a violência como forma de penitência ao próprio público. Dai a construção precisa, o trabalho minucioso, a transformação do material em poderosa constatação da destruição colonialista.

A Hora e a Vez de Augusto Matraga

A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O melhor do filme está no que você não vê. A batalha que acontece entre consciência, fé e coração de Augusto Matraga (Leonardo Villar). A complexidade da personalidade do rico fazendeiro surge quando ele é traído pela esposa, sofre uma emboscada e praticamente é dado como morto. O homem rico e violento, viril no trato social, sobrevive por pouco, e encontra redenção em sua fé.

Roberto Santos adapta Sagarana de Guimarães Rosa, vivemos o cinema novo, o cinema do cangaço está na moda (quase o western brasileiro). São filmes genuínos de uma brasilidade, mesmo empunhando armas e carregando a violência masculina, há essa relação com religiosidade quase como o leme das vidas. Ao abdicar de tentar retornar sua vida, Augusto Matraga se entrega a fé, ele quer viver, mesmo que essa nova vida seja distante de tudo que ele tinha (esposa, filho, fazenda, posses). Essa opção é posta em suspenso com a chegada do grupo de Joãozinho Bem Bem (Jofre Soares). Alguém que ousa cruzar a ponte e tentar trazer Augusto Matraga ao mundo, e toda sua crueldade. Nisso tudo, a sequencia final é categórico, o novo Augusto diante de suas novas convicções, de seus velhos comportamentos e da religião que lhe serviu como prumo.

Maidan: Protestos na Ucrânia

File photo of smoke rising above burning barricades at Independence Square during anti-government protests in KievMaidan (2014 – UCR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Quando começaram os protetos anti-Rússia, pró- União Européia, na praça Maidan, em Kiev, o cineasta Sergei Loznitsa correu com sua câmera para o local. Ali, passou a registrar o dia-a-dia das manifestações, dos pequenos movimentos de pessoas, até discursos inflamados, o início do confronto com a polícia, violência, bombas. É um registro histórico, importante, Loznitsa se mantem distante, a imagem é fixa, nenhuma entrevista, nenhuma intervenção do diretor.

Há cenas fortes, principalmente no confronto. Há também o hino nacional cantando com fervor, duas vezes, libelo do nacionalismo. Loznitsa registra com amor, certeza que abraça a causa, mas não consegue ir além da sensação de um câmera ligada, esquecida, ao léu, cuja imparcialidade não é exatamente sinônimo de um cinema mediador, ou determinante. Chega até a ser monótono, mas, sem dúvida, é um registro legítimo de mais um massacre de governantes contra o clamor da população.