Hacker

hackerBlackhat (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O insucesso de seu lançamento nos EUA jogou o filme diretor para home vídeo no Brasil, mesmo tendo Chris Hemsworth encabeçando o elenco. Soa muito como uma variação de Miami Vice, desde o romance do protagonista com uma oriental (aqui Tang Wei), e mais principalmente nas obsessões mais latentes de Michael Mann. Troca-se a quadrilha de tráfico de drogas por hackers, as metralhadoras dividem espaço com vírus e notebooks.

Mann não é adepto de roteiros elaborados, seus thrillers são carregados de emoção pela atmosfera, ou pela própria angustia dos personagens. Aqui, não é diferente, a estrutura simplificada (hacker caçando as pistas de onde está outro hacker) está disfarçada pela caçada global, os policiais e as discussões sobre jurisdicação mundial. Se o roteiro é essa formalidade no cinema de Mann, e sua forma de filmar é o vislumbre de seus adeptos, Hacker me parece menos inspirado. A proximidade com Miami Vice, as peripécias exageradas de um hacker (esse nerd brutamontes metralhando inimigos), nem são a problemática.

A tentativa de mergulhar no mundo dos bytes, sinais luminosos invadindo os mainframes, ainda não se acertou nos filmes de crimes cibernéticos. Mann fica no meio-fio, nem tão técnico (nos assuntos da informática), e nem tão explícito na solidão que afronta seus personagens. Ainda filma cenas de tiroteiros, como poucos, mas Blackhat parece um filme mais bruto na ação, claro no romance, mais próximo de um trabalho típico do gênero.

Paria

pariaParia (2000 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Pelas ruas de Paris, a noite de Reveillon da chegada dos anos 2000, tendo dois sem-teto como figuras centrais. Inicialmente, o filme os coloca num ônibus que recolhe mendigos, que serão levados e tratados num abrigo. A história volta 36 horas na vida de Victor (Cyril Troley) e Momo (Gérald Thomassin), construindo assim a primeira parte da Trilogia dos Tempos Modernos (precedido por A Ferida e A Questão Humana).

Com câmera na mão, muitas vezes focado a nuca dos personagens (no melhor estilo dos Dardenne), o trambiqueiro Momo, e o recém-desempregado e despejado Victor, rapidamente se tornam figuras simpáticas ao público. Seja pela malemolência de Momo, vendo sua grande chance ao aceitar um casamento arranjado, seja pela devoção amorosa de Victor pela garota com quem está flertando. Ambos sobem naquele ônibus com outras parias da sociedade, desprezados, esquecidos, os completamente excluídos.

Marginais, gozadores, extremamente grosseiros, ou apenas pessoas excluídas e ridicularizadas. O diretor Nicolas Klotz apenas os focaliza como esses parias perdidos na noite de Reveillon, dando voz ao destino cruel, enquanto traz à tona a questão da imigração (no casamento arranjado, nos presos em uma batida policial), são os protagonistas da noite, num canto escuro da cidade-luz, que todos só querem esquecer. O tom até otimista com que Klotz-Perceval sobrecarrega os personagens traz outros elementos que serão obsessivos nos trabalhos seguintes da dupla, como a fétida ferida do mendigo. Porém, Paria se difere dos demais trabalhos pela dureza mais crua, a exposição regada ao swing que Gérald Thomassin consegue imprimir com maestria.

Perfil: Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval

Klotz_Perceval2469webHá poucos dias foi publicado um pequeno post, intenção era apenas de resgatar os filmes vistos e dar luz à retrospectiva. Este post é mais completo, ainda resgatando aqueles textos, mas dando possibilidade de dividir outros trabalhos desse casal cuja obra é fascinante e plural.

Ao se debruçar, um pouco, na vida de Nicolas Klotz e Elisabeth Percival, é fácil notar que a obra criada pelo casal se mistura integralmente com a vida deles, com seus ideaism, aflições, preferências culturais. Enfim, a visão de mundo deles está impressa em seus filmes. Da relação com o teatro ao jazz, da literatura ao prazer em discutir política, e, sobretudo, na ingenuidade do amor como real esperança de dias melhores.

Foi no teatro que se conheceram, na década de 70. Construindo juntos a carreira e a família (dois filhos, também ligados a cinema e música). Ela assinando os roteiros, e ele assumindo a direção (agora, ambos dividem os créditos de direção). A retrospectiva que passou pelo Rio de Janeiro em 2014, e essa semana foi exibida no Cinesesc, é quase completa, certeza que não por implicância dos próprios autores. Os dois primeiros longas, As Noites Bengali e La Nuit Sacrée não agradam a Klotz, perdemos a chance de conhecê-los.

Nesses filmes já havia algumas das questões fundamentais que formatam a carreira do casal: imigração, amor ingênuo, discriminação, relações humanas. Entre os quatro longas de ficção principais (Paria, A Ferida, A Questão Humana e Low Life), o casal se debruça em filmar ensaios e documentários, filmes experimentais que surgem como ideias a serem incorporadas em próximos longas, ou que ajudam a complementar essa dicotomia entre obra e via pessoal. A imensa vontade de discutir com o público, sempre com simpatia, mas, acima de tudo, com essa proposição de dálogo aberto quase os coloca sob o rótulo que temos dos franceses de: cultos, eruditos, que devem viver de vinho e reflexões intelectuais.

Segue abaixo texto para alguns (infelizmente) dos filmes que foram apresentados nessa retrospectiva, incluindo o lançamento mundial de Zombies, e já sabendo que eles andaram filmando por São Paulo, para o próximo trabalho do casal. Fica a expectativa pela possibilidade de conhecer toda a obra do casal.

brad_meldhauBrad Mehldau (Brad Mehldau, 1999 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Parte da série Jazz Collection, do canal ARTE, o documentário acompanha o jovem jazzista por uma turnê na Europa e EUA. Quase um ensaio, com muita câmera na mão e super-close-up’s, Klotz consegue captar além do músico, seja nas conversas de bastidores (entre cigarros e copo na mão), seja nas gravações de grandes trechos de show. É a possibilidade de imersão na música, na inspiração, e nas inúmeras possibilidades de improvisação. Um jazz filmado entre o caótico e o belíssimo.

 

 

lesamantscinemaLes Amants Cinéma (Les Amants Cinéma, 2008 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O documentário dirigido pela filha do casal, Héléna Klotz, trata dos bastidores da filmagem de A Questão Humana (o filme mais conhecido do casal). A intimidade bruta, desde momentos de se ouvir jazz em casa, na sala de móveis antigos, a toda problemática construtiva do filme, o documentário faz essa criação imperfeita do período de criação. Inseguranças, brigas de casal na sala de montagem, as fragilidades e incertezas do trabalho em grupo, e da própria obra em si.

É intrigante a possibilidade aberta de conhecer ainda mais a intimidade (profissional e pessoal) de Klotz e Perceval, as personalidades individuais e acongruencia no rtimo de trabalho. Ensaios, ideias, bastidores de filmagens, mas, acima de tudo, um documentário sobre dois amantes do cinema, cujos filmes transcendem na própria energia do casal.

 

 

 

3447082_3_7d52_le-vent-souffle-dans-la-cour-d-honneur-ou-les_d3725e05281f13bf9e1c1dbe956c76bbLe Vent Souffle dans la Cour D´Honneur (Le Vent Souffle dans la Cour D´Honneur, 2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Outro telefilme para o canal ARTE, dessa vez a abordagem dos bastidores e os fantasmas do Festival de Teatro de Avignon, porém sob o estilo mais intuitivo e ensaísta, e menos informativo. Klotz e Perceval registram depoimentos de alguns dos principais autores do festival, que atualmente recuperou sua importância no cenário europeu. Cenas de arquivo dos anos 60 (carregadas de teor político, pré movimento estudantil de 68) contrapõem-se ao cenário fantástico, e aos depoimentos da nova geração de autores consagrados.

É um documentário sobre teatro, sobre movimento, sobre espaços, e também sobre política e cultura. Mas, principalmente, sob o teatro em si. O tipo de abordagem permite a fluidez da própria arte, e as possibilidades de absorção de seus aspectos, mitos e fantasmas, numa homenagem reflexiva sobre o próprio teatro e suas vertentes.

 

 

ceremonybrazzaCeremony Brazza (Ceremony Brazza, 2014 – AFS/FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O próximo longa-metragem do casal deve se chamar Ceremony. Este aqui é um daqueles trabalhos que devem estar presentes, foi filmado na África do Sul, parte integrante do projeto Diálogos Clandestinos. Surgiu após o convite para ministrar aulas de cinema no país. Um ensaio bastante abstrato de dança, cultura e encenação. Abre e fecha com um dançarino energético, inquieto, que dança freneticamente contra sua sombra. É uma interessante visita do casal que tanto filmou a imigração africana na Europa, agora ele resgata a cultura local num mergulho da câmera por corpos, formas e sons, como se fosse um daqueles filmes de museu cujas pessoas entram e saem rapidamente.

 

 

Zombies (Zombies, 2008-2015 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os zombies, mas não aqueles que o cinema americano propagou. Enquanto Godard tem se enveredado por ensaios que questionam a forma, e atacam a cultura americana (entre outras coisas), o casal Klotz e Perceval resgata a arte sob a metafórica personificação dos mortos-vivos, que vagam sem rumo pela vida, vão muito além dos vampiros de Jarmusch (Amantes Eternos).

Foram 4-5 noites de filmagem com atores de workshop de teatro ministrado pelo casal. A trilha sonora é composta de uma única musical instruimental (de Ulysse Klotz, outro filho do casal), e acompanha poemas e textos de autores como Allen Ginsberg, John Giorno e Robert Walser. Luzes, cores, e zombies trazendo à tona temas como a violência, ou melhor atrocidades (como na cena alegórica da encenação de um revolucionário morto por um soldado arrependido), ou a sintuosa dança da mulher com um machado na mão (todo sob um vermelho penetrante).

A abstração, o lúdico, a junção de textos, som e imagens nos torna um submarino submergindo sob a rígide dos autores que contemplam a figura dos zombies como a perfeita tradução da atual bárbarie que se tornou a relação humana entre povos nesse mundo caótico de indiferença e desumanidade.

O Capital

ocapitalLe Capital (2012 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Constantin Costa-Gavras já foi um cineasta bem mais interessante. Nunca deixou de estar próximo aos temas políticos, nem que fosse a política de dentro do Vaticano. Mais recentemente, seu novo alvo é a globalização, o mundo corporativo de forma geral. Não deixa de ser um alvo correto, e também perigoso, afinal, filmes sobre o mundo corporativo dificilmente dão certo.

Enquanto o roteiro tenta destrinchar jogos de interesse entre banqueiros e milionários de fundos de investimento, o Costa-gavras tenta manter o foco em pontos mais “socialistas” como o emprego, as garantias sociais, e até mesmo a ética. As tentativas são devoradas pela narrativa manjada, pedagógica, explicando questões que o público nem deve estar interessado em entender. Costa-gavras não percebeu que mudou de público, que seu discurso deixou de ser de esquerda, seus filmes são de uma direita que prima pela ética, que pretendem expor corruptos, porém, são apenas representações interpretadas de artigos de cadernos de economia, sem a vivacidade, sem a esperança de construir, sem urgência. E quanto se perder esse espírito, resta pouco de cinema a se apreciar.

O Cinema de Klotz e Perceval: A França dos Excluídos

Klotz_Perceval2469web

Chegou ontem a São Paulo, no Cinesesc, a retrospectiva da carreira do casal Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval. Só um de seus filmes foram lançados comercialmente no Brasil, alguns passaram em festivais, mas nunca um leque tão grande de possibilidades de conhecer a obra do casal (mesmo que incompleta). Um cinema profundo, tendo foco claro essa França dos excluídos. Enquanto corro para as exibições, compartilho aqui textos de 3 filmes imperdíveis.

A Ferida

A Questão Humana

Low Life

 

 

Phoenix

phoenixPhoenix (2014 – ALE) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Dramaticamente contido desde os primeiros takes. Nelly (Nina Hoss) acaba de sobreviver aos campos de concetração na Segunda Guerra Mundial, rosto desfigurado, única sobrevivente da família. Seu drama maior não é a perda, as cicatrizes das lembranças, a humilhação. Não, o drama maior dessa mulher é de recuperar seu rosto, tal qual era, para que possa ser novamente reconhecida. E reencontrar seu marido alemão (Ronald Zerhfeld), retomar sua vida.

Por essa narrativa contida, e o próprio tom de atuação de Nina Hoss, o diretor Christian Petzold constrói a fascinante história da mulher que si à procura do marido, descobre verdades, ainda assim mantém sua busca. Não é reconhecida por ele, e entra num jogo perigoso, o marido quer ter acesso ao dinheiro da esposa, e pede a ela que aprende a agir como sua esposa. Sim, o jogo de fingir que ela, é ela mesma. Imagine a dor de sobreviver ao horror dos campos de concetração e não ser reconhecida pelo próprio marido?

Enquanto flerta com o cinema clássico de Fassbinder, e essa mulher forte como a protagonita de Vertigo (de Hitchcock), Petzold prepara a armadilha, para o próprio público. Sem nunca sair do tom comedido, surge a cena final. O charme da canção Speak Low, cantada quase em murmúrios, e a desconstrução dos personagens. É o encerramento perfeito de um filme que parecia fadado ao reprimido.“Love is a spark, lost in the dark too soon…”

Miami Vice

miamiviceMiami Vice (2006 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Confesso que na época do lançamento, por total falta de desconhecimento da carreira de Michael Mann, boicotei categoricamente o filme. Era a fase de um tsunami de seriados dos anos 80 voltando ao cinema, uma adaptação mais caça-níquel que a outra. Mas o caso era diferente, aliás, bem diferente. Só os passos finais da maratona, com os filmes de Mann, para contextualizar melhor o filme, a filmografia, e os novos rumos tomados.

Mann entrou o novo século inspirando nova fase, com Ali (biografia do boxeador Muhammed Ali) o cineasta dava sinais de preferir retratar mais o biografado, e menos sua história. A narrativa é fragmentada, como se fossem pequenos conjuntos de cenas, cada uma de uma época, não necessariamente preocupadas em contextualizar o público de tudo. Se fazia, muito mais, de trazer o público para sentir Ali. Em Colateral, ele retoma o filme policial, a noite prateadas, o ritmo suntuoso, cadenciado. Muito charme.

O seriado oitentista era obra sua, não é a primeira vez que Mann revisita sua carreira (o próprio refilmou seu telefilme L.A. Takedown, se tornando o sensacional Fogo Contra Fogo), e unificando características de seus dois filmes anteriores, Mann reinventa as possibilidades do gênero. Há os policiais (Colin Farrel e Jamie Foxx), os traficantes (Luis Tosar), as armas e perseguições, o plot que daria um típico episódio do seriado, e a mulher sensual (Gong Li) que um dos protagonistas irá se apaixonar (Farrel). Mesmo com todas essas características, o filme em nada se parece com um thriller policial. A suave desconexão, os enquadramentos oblíquos, diálogos suprimidos pelo entrosamento.

É um filme hipnótico, a noite volta a ser protagonista, e as imagens noturnas panorâmicas que jamais se viu em tamanha beleza. A lancha, os olhares, eles flutuam pelos fotogramas, causando essa hipnose de charme. O roteiro já não é tão importante, o detalhismo de Michael Mann descobre outras formas de explorar suas obsessões. Os corpos não são filmados com a fluidez e leveza de Kar-Wai, mas com uma brutalidade genuína, em planos nem tão fechados, ainda assim invasores.  Mann olha para seus trabalhos passados e quer fazer melhor, é um perfeccionista, mas, acima de tudo, um cineasta que segue desbravando trilhas inexploradas, dando a seus filmes charme próprio.