O Informante

oinformanteThe Insider (1999 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um filme sobre grandes corporações e seu poder além das leis, o lobby das grandes indústrias de tabaco, a falta de lisura da imprensa quando atingem seus interesses comerciais. Tenho essa impressão, de que você não entendeu nada do filme, se acredita que são estes seus temas. Uma impressão ofensiva, a bem da verdade, mas o filme de Michael Mann se apresenta tão rico em camadas que tornar as subtramas complementares seria como torná-lo um drama moral e quadradinho.

Há um embate forte entre dois personagens complexos: o executivo (Russel Crowe) e o jornalista (Al Pacino). Cada um deles carrega sua carga ética, e seus interesses próprios. Por isso que, mesmo jogando do mesmo lado (se é que se pode dizer isso), há tantas cenas de embate entre eles. Discussões, acusações e argumentações. No fundo eles querem a mesma coisa, a entrevista bombástica que traria a tona verdades da saúde pública. Porém, há meandros, interesses e desconfianças, A relação de confiança parece prestes a ser quebrada, e o jogo é este, mantê-la inquebrável.

O jogo de tribunais entre corporações envolve tabagistas e jornalistas, Mann tem esse poder de manter as coisas grandes como subtramas imprescindíveis, mas de dar valor as pequenas relações (afinal, são elas que perfazem os acontecimentos). Seja as discussões entre jornalistas (nisso, afigura de Christopher Plummer é essencial), seja no peso da situação financeira confortável ruir frente as verdades que o executivo demitido estaria prestes a expor. Mann cria o clima exasperante, o suspense em sua forma mais acolhedora e claustrofóbica, pelo âmbito psicológico. Tudo tão imperfeito quanto real, tão eloquente quanto assustador. Nos planos fechados na casa do jornalista, ou nos planos abertos que amplificam o poder da dúvida do executivo, tudo tão pensando, quanto milimetricamente realizado para ser esse filme que te sufoca a ponto de não ser mais tão importante a tal verdade, e sim os mecanismos que marcam os bastidores de uma matéria polêmica.

O Exterminador do Futuro 5: Gênesis

oexterminadordofuturo5Terminator: Genisys (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Partimos da máxima que desde James Cameron a franquia nunca mais foi a mesma. Pudera, da ideia original, a partir de um sonho de Cameron, à criação da figura icônica do Exterminador (Arnold Schwarzenegger), criou-se uma das franquias milionárias de Hollywood. Mais que original, a ideia vai de encontro a um dos grandes temores da humanidade (que já vem desde 2001 de Kubrick), a inteligência artificial fugindo de nosso controle, passando por uma guerra entre máquinas e humanos e viagens no tempo. Os filmes serviram também para marcar suas épocas, tanto tecnologicamente, quanto em estilo. O primeiro é tão anos 80, o segundo pega muito do vibe Guns N’ Roses que tomava ao mundo (presente na trilha sonora). Cameron teve ainda a grande sacada de transformar o vilão apavorante do primeiro filme, em novo aliado de Sarah e John Connor. O Exterminador passa a defendê-los contra exterminadores mais modernos, Schwarzenegger vira o ícone que já se projetava.

Cameron pulou do projeto após o segundo filme, e os filmes seguintes não se mantiveram como antes. Porém, eles mantiveram a estrutura dos personagens, e pularam para épocas sem perder a linha lógica que havia sido arquitetada. No primeiro o exterminador vinha aniquilar a mãe (Linda Hamilton) do futuro líder da rebelião, no segundo o alvo era John Connor já adolescente. A cada volta no tempo, pequenas mudanças no futuro. O terceiro capítulo foi dirigido por Jonathan Mostow, mesmo sem brilho, ainda Schwarzenegger o único remanescente. A dominação da Skynet foi adiada, não solucionada.

O quarto capítulo (A Salvação) transforma realmente John Connor (Christian Bale) num soldado, longe da fragilidade que Cameron pregava. Dirigido por McG, ainda mantém a base sólida dos Connor’s e Kyle Reese (Anton Yelchin), dessa vez é a vida de Reese que precisa ser protegida, a saga vai cada vez mais transformando a figura de John Connor como a única salvação da humanidade. Os dois últimos capítulos se apresentam mais genéricos como filmes de ação, vivendo apenas da herança de história deixada, ainda que consigam manter a chama do charme dos personagens.

A cada novo filme, as expectativas de uma grande bomba se renovam. Nenhum deles chega a esse status, mesmo após mais de 30 anos. Alan Taylor é o diretor do quinto episódio da franquia, e mantém a escrita. Schwarzenegger volta, com explicações para seu envelhecimento, mas a questão centra é outra. Ainda que siga a linha lógica (e cronológica da saga), inclusive retomando cenas e acontecimentos do primeiro filme, há uma quebra no tripé Sarah-John-Kyle. Não é só a mistura à la De Volta para o Futuro 2, e sim na estrutura mocinhos e vilões. De resto, Taylor repete a incapacidade dos filmes, que não tiveram Cameron, em não renovar, ousar. Outro filme de ação típico, que sobrevive do resgate dos primórdios da franquia. O público vai seduzindo pela memória afetiva, e encontra outros atores, nos mesmos personagens. Máquinas e explosões, só que com interpretações pífias e a tentativa de transformar “Get Out” no novo jargão imortal que “I’ll be back” ou “Hasta la vista, baby” se tornaram.

Sangue Azul

sangueazulSangue Azul (2014) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A trupe de circo chega a Fernando de Noronha, oportunidade de Zolah (Daniel de Oliveira), o homem-bala, reencontrar sua mãe (Sandra Corveloni) e irmã (Carolina Abras). A beleza da ilha paradisíaca, e dois irmãos que resumem suas vidas em dois elementos da natureza (água e ar). Ela vive como mergulhadora que guia turistas, já ele pula de galho em galho, livre, desenvolto.

É outro típico filme de Lírio Ferreira, musical, suado, maconhado. Praticamente fede a sexo (o fede não quer ter um tom pejorativo). A dança, a praia, o suor, o sexo na areia ou em qualquer canto. Pouco-a-pouco, entre um ou outro plano da beleza imensurável de Noronha, o roteiroi sugere a relação carnal entre os irmãos. Utiliza o parentesco, mas julga a relação como de amigos de infância com desejos mal resolvidos. A trama segue a trupe, e o pequeno clã de moradores que os rodeia, mas o filme é mesmo sobre a libertação desse instinto incestuoso. O problema são as metáforas, as facilidades da trama em unir pontos, enquanto tenta poetizar outros personagens, seu resultado é menos onírico, e mais prático do que pensa.

The Blue Room

theblueroomLa Chambre Bleue (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O prestigiado ator Mathieu Amalric segue tentando estabelecer, também, sua carreira de cineasta. Ele parte da delicadeza, filma objetos enquanto personagens conversam, utliza a trilha sonora, quase permite notar o vento passar pela janela daquele quarto azul. É um filme de tribunal, ele interpreta o homem que está prestando depoimento, algemado, acusado de algum crime.

O filme tenta esconder ao máximo as informações, o interrogatório abre os flashback’s, desenvolve a história dos amantes, e suas vidas conjugais, e algum crime que lá adiante pode-se entender. Amalric se preocupa demais com os detalhes, com os segredinhos. Falta a seu filme alma, brilho, características marcantes que deem sua notação pessoal. É um filme bem intenso, agradável, nunca chega a ser realmente interessante.

Fogo Contra Fogo

fogocontrafogoHeat (1995 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tenho essa leitura de que o gênero “filme policial” veio ocupar a lacuna deixada pelo Western. Espécie de atualização do gênero para esse novo ambiente urbano que se formou com o desenvolvimento. Eles continuam durões, empunhando armas, normalmente em caçadas entre vilões e o mocinho. Nesse critério de western atualizado, Fogo Contra Fogo nasceu clássico. Michael demorou anos entre o primeiro roteiro que escreveu, e finalmente filmá-lo a contento. Tentou que outro diretor encabeçasse o projeto (quando seu nome ainda não tinha o peso), tentou tranformá-lo numa série de tv (dessa ideia saiu L.A Takedown), e finalmente voltou ao proeto, com orçamento e dois dos maiores astros: Al Pacino e Rober DeNiro.

A trama foi baseada numa história real, um policial de Chicago, nos anos 60, que viveu uma caçada contra um criminoso meticuloso. Em quase três horas, Michael Mann é meticuloso em construir a relação de rivalidade/admiração entre policial (Pacino) e chefe da quadrilha (DeNiro). Lados opostos, personagens que se assemelham, seja na solidão, seja na adrenalina de perigo que os contamina, ou na integridade de sua integridade.

fogocontrafogo2Como uma panela com água no fogo, a fervura com que o policial aproxima-se na caçada de seu alvo torna o filme um labirinto que encurrala a quadrilha, enquanto isso, suas vidas seguem. Cada um deles tem seus laços afetivos: mulheres, filhos, família. As vidas não param no tempo, seguem simultaneamente, e Mann dá cabo dessa teia de relações complexas e problemática com alguns destes personagens. Dessa forma desenvolve frentes, constrói camadas e mais camadas, são mágoas e frustrações. Casamentos se acabando, outros em crise, amores surgindo. A vida náo para, as inventigações seguem, os planos de um novo assalto também.

A elegância com que filma a cidade: noturna, as luzes. A explosão que o policial carrega em sua vida (a cena em que ele leva a tv embora, por exemplo), são pequenos peticos deixados por Mann, enquanto prepara o público para as grandes cenas, tiroteios e perseguições em que o cineasta destila seu estilo, alucina com essa elegância transformada numa violência romântica. Cenas de tirar o fôlego, e ainda tão plasticamente bem planejadas, O embate num café, o plano e contra-plano, cada um desvendando seu oponente, o assalto ao banco e as perseguição nos minutos finais. O novo western, um clássico desde sua concepção.

O Cidadão do Ano

ocidadaodoanoKraftidioten (2014 – NOR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Nas mãos do cinema americano, o filme teria Liam Neeson e seria um típico produto do cinema de ação. Sob direção de Hans Petter Moland, um thriller pela neve norueguesa que a edição rápida (várias câmeras focalizando o mesmo ambiente trazendo agitação na montagem, ao local pacato) tenta dar um ar mais “espertinho”.

Pai (Stellan Skargard) quer vingar a morte do filho, que morreu por engano, e se envolve numa guerra entre mafiosos. Para fortalecer (desnecessariamente) a ideia da vingança do homem comum, ele acaba de ser escolhido O Cidadão do Ano. Seu algoz é um mafioso vegano (não faltam esses detalhes que tentam ser o charme) que fica histérico se o filho não comer frutas, cinco vezes ao dia.

A neve sempre ajuda a criar cenas bonitas, de resto é o thriller de sempre, fugindo do impacto das cenas de violência, criando uma confusão sem fim para tentar livrar a cara de nosso herói de integridade inabalável.

Caçador de Assassinos

cacadordeassassinosManhunter (1986 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Num daqueles hiatos inexplicáveis, me dei conta que mal conhecia a carreira de Michael Mann. Rapidamente já corrigindo essa falha, me deparo com o primeiro filme lançado com o serial killer Dr. Hannibal Lecktor (Brian Cox). O filme é o mesmo que mais tarde foi refilmado como Dragão Vermelho, e facilmente percebe-se semelhanças físicas na interpretação de Cox e Hopkins. Mann é um cineasta virtuoso, que vai além dos gêneros, seu filme tem reconhecíveis assinaturas autorais (principalmente a elegância).

Intrigante a força de Lecktor, ele não aparece do que mais que duas cenas, é um serial killer preso cujo policial (William Petersen) que o prendeu busca ajuda para entender outro serial killer à solta. Mesmo com poucos minutos em cena, Lecktor se coloca tão vilão quanto o assassino principal, é figura-chave na trama. O clima de tensão é o mesmo que da famosa trilogia com Hopkins, tudo com a elegância de Mann e a atmosfera do cinema dos anos oitenta. Michael Mann é o cara diferenciado que realiza filmes que podem agradam seletos grupos ou grande parte do público.