Bem-Vindo a Nova York

bemvindoanyWelcome to New York (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Estou para encontrar um filme tão corrosivo quanto este. Começa com uma “pequena entrevista” de Gérard Depardieu dizendo que não gosta de políticos, estaria justificando o porquê de entrar nesse projeto. A partir daí ele interpreta Sr. Georges Devereaux, que é apenas um codinome para Dominique Strauss-Kahn. Desde a primeira cena o ex-diretor-geral do FMI é deflagrado como um asqueroso viciado em sexo. Reuniões em escritório, orgias em hotéis, num patamar fora de controle.

É a destruição completa da figura pública, Abel Ferrara não poupa Devereaux da exposição vexaminosa em cena alguma. No decorrer do filme vem o caso do ataque a uma empregada de hotel que destruiu a carreira de Strauss-Kahn, que era tido como próximo presidente da França. Ferrara foge dos jornais, da repercussão da mídia. Seu foco é o íntimo da rotina de Devereaux. Não se trata de um estudo de um personagem, mas sim de uma destruição ácid. Desde as discussões com a esposa (Jacqueline Bisset), até os detalhes dentro da prisão (revistado nu pelos policiais, por exemplo).

Òbvio que Ferrara está imaginando diálogos, inventando, mas a construção de um personagem tão asqueroso parece mais crível do que a de qualquer vilão da vida real, que se tenha noticia. Arrependimento não existe, há o que o dinheiro pode comprar, e sua incapacidade de controlar suas investidas. Um homem movido por seu instinto sexual, por mais que esse instinto possa jogá-lo ainda mais na lama. Depardieu e Ferrara juntos perdem qualquer pudor e entregam aquela visão escrota que temos dos políticos mais corruptos, nesse caso o contexto é sexual, mas qualquer outro figurão poderia se colocar num mesmo contexto moral, trocando o sexo por mais fortuna vinda de corrupção.

Comboio

comboioConvoy (1978 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Já me parece um Sam Peckinpah cansado, do pouco que sei os problemas de saúde, e os vícios (drogas e álcool) já debilitavam demais o diretor (a ponto de ter sido contratado alguém para fazer seu trabalho em parte das gravações). Por isso, o resultado saiu meio torto, de empolgantes sequencias de caminhões cruzando estradas em alta velocidade. Ou do charme bruto de Rubber Duck (Kris Kristofferson) que causa frisson nas mulheres, principalmente em Ali MacGraw num corte de cabelo bem espivetado.

Por outro lado, há uma forte carga política na trama que parece se diluir em seu terço final, como se Peckinpah cria-se uma atmosfera de protesto, para logo a seguir abrir (um pouco) a mão em prol dos toques de humor e sedução.

Há também exageros na trama, principalmente quando os caminhoneiros tentam tirar um dos amigos da prisão. Mas, em sua essência é uma interessante, e meio moleque, criação de um protesto de caminhoneiros cansados de, incógnita (mais ou menos como os vinte centavos), o estopim é o abuso de poder do xerife (Ernest Borgnine), mas o comboio de mais de uma centena de caminhões se mostra, apenas, como um grupo que persegue um líder, sem uma grande razão.

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia

tragameacabecadealfredo-garciaBring me the Head of Alfredo Garcia (1974 – EUA/MEX) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Talvez seja o filme que mais tenha o charme no estilo de filmar de Sam Peckinaph. Diga-se por charme o derramento de sangue, a paisagem de terra batida e roupas suadas, o humor característico, e muitos disparos. A história é simples, e toda passada no México. Um figurão manda trazerem a cabeça do homem que engravidou sua filha em troca de uma bela quantia em dinheiro.

Uma série de capangas parte atrás do sedutor, mas é Benny (Warren Oates), um malandro carioca à mexicana, quem tem informações sobre o paradeiro do sujeito, por conta de um caso que sua amada (Isela Veja) teve com o sujeito.

Começa um road movie com tudo que Sam Peckinpah pode proporcionar, além desse humor desbocado, já que o protagonista passa parte do filme brigando com a cabeça e repleto de moscas à sua volta. É daqueles filmes deliciosos de se acompanhar, por mais que parece irregular em muitos momentos (fotografia escura, soluções de reviravoltas tão inverossímeis, quanto divertidas). É Peckinpah trazendo seu faroeste ao mundo urbano, um caminho mais que necessário, que já era tendência em trabalhos anteriores.

Os Implacáveis

osimplacaveisThe Getaway (1972 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Vou soltar uma frase machista ao extremo, mas esse é daqueles “filmes de homem”. Assalto a banco, perseguições de carro, tiroteios, traições e vingaças, mulheres com cenas insinuantes, um cardápio completo.

Steve McQueen e Ali MacGraw (com sex appeal no último) são o casal Bonnie & Clyde da vez. Primeiro Peckinpah filma McQueen no presídio, no cotidiano do detento é dividido com imagens congeladas, esse efeito dá um impacto, impõe estilo. A seguir os planos para um assalto à banco, depois fugas por inúmeros meios de transporte (carro, trem, ônibus). Sempre com tiroteios, malandros na captura, e sequencias eletrizante que pairam entre o suspense e ação pura. Em alguns momentos exagerada na dose, o riso é sintomático (a fase no lixão é o ápice), mas nada que um novo golpe a seguir não recupere a estima pelo casal implacável.

É como eu disse no início, é filme para os homens se imaginarem na pele do protagonista, com a mulher do lado, a coragem e a precisão dos tiros, e o estilo cool que seduz qualquer fã de cinema. Isso é McQueen, isso é Peckinpah e sua violência na veia, e seus cortes rápidos, o frenesi do seu cinema.

Sob o Domínio do Medo

sobodominiodomedoStraw Dogs (1971 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A violência flamejante dos filmes de Sam Peckinpah e o instinto humano de sobrevivência, tão presente nos faroestes, mudam de endereço. Uma série de acontecimentos evidenciam os aspectos tímidos e pacatos de David Summer (Dustin Hoffman), que vai passar uma temporada, com sua esposa (Amy Summer) no interior da Inglaterra, e só quer a tranquilidade necessária para seus estudos acadêmicos enquanto ela cuide da casa.

Conflitos entre o casal, e o desejo irrefreável que ela, com suas atitudes libidinosamente provocativas (como andar de blusa, sem soutien, na rua), causa nos homens broncos que são a essência do local, são o combustível para a explosão de violência que sai dos limites do racional.

De repente David se vê, em sua casa, acuado, com sua honra abalada por tantas razões (as acusações da esposa, o choro por razões que ele ainda nem desconhece, numa cena fortíssima que envolve violência e entrega, num perfeito misto de emoções). E aquele bando de homens prontos a invadir “sua fortaleza”. O pacato dá lugar a um homem obestinado a proteger sua casa/honra, dominado pelo medo, porém empulsionado por essa necessidade de se fazer valer de seus instintos.

São sequencias de tirar o folego, praticamente todas as cenas trabalhadas sob sombras, efeito que enaltece o grau de terror, e o perigo do desconhecido. A transformação do matemático num guerreiro sem armas, usando como sua proteção a mesma arma de seus adversários: a falta de controle.

Desejo Humano

desejohumanoHuman Desire (1954 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Culpa e justiça. Novamente esses dois conceitos andam interligados em mais um filme de Fritz Lang. Por entre o mundo dos maquinistas corre a trama (baseada em livro de Emile Zola) envolvendo um casal, cuja crise conjugal só é explicita quando ele (Broderick Crawford) pede ajuda da esposa (Gloria Grahame) em tentar recuperar seu emprego.

Outro maquinista é Jeff Warren (Glenn Ford), ex-combatente na Guerra da Coréia, que volta para casa, retoma seu emprego, e, obviamente, busca o que todos buscavam nos anos 50, uma esposa, uma família (e até hoje, não?). Lang usa e abusa dos tons melodramáticos, mas há certa economia, como se o cineasta tentasse sempre controlar as rédeas. Por outro lado, é no clima de tensão, do universo noir, que sua precisão cirúrgica é eficiente.

Demora até descobrirmos que o casal é formado por um ciumeto alcoolatra, e uma mulher de interesses levemente diabólicos. As personalidades são serão completamente claras ao público após a ótima sequencia nas cabines do trem. A carta, o assassinato, o triângulo amoroso (derivado de outro triângulo), Lang usa a culpa, a justiça, discorre sobre a moral de cada um dos personagens enquanto carrega cada um deles para um beco, aparentemente, sem saída. Novamente atingimos o momento do melodrama, e novamente o caminho romântico dá lugar. A vida pode não ser sempre esse final em mar de rosas aos “mocinhos”, mas Lang faz isso parecer natural.

A Gardênia Azul

agardeniaazulThe Blue Gardenia (1953 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Encontro exemplar do noir de Fritz Lang e a voz aveludada de Nat King Cole.  O cantor aparece no filme, mesmo que não haja brilho em sua aparição, ainda ssim, fica o legado da música tema, não só repetida diversas vezes, mas funcionando também como peça importante do desvendar da história.

São três telefonistas que dividem a mesma casa. Na cena inicial elas são apresentadas, juntamente com um jornalista (Richard Conte) e um artista galanteador (Raymond Burr). Na casa delas que Lang desenvolve, de maneira mais interessante, as personagens. Norah (Anne Baxter) vivendo um amor solitário, com seu namorado na Guerra da Coréia. Sally (Jeff Donnell) que nem respira de empolgação lendo aqueles romances policiais, e a domadora (Ann Sothern) que ter o controle de todas as situações.

 As aspirações românticas femininas, e a sedução irresponsável masculina. Lang parte do trivial para embasar as relações entre seus personagens. Imprensa, polícia, a vida americana na década de 50. Antes de chegar às fortes cargas melodramáticas, o filme resgata um clima de tensão enervante com as investigações da morte de um dos personagens. A frequente culpa que carregam os personagens de Lang, aliada a carga ética da moral que eles carregam, fazem o caminho do clichê, mas a cada filme o cineasta busca um leve toque que possa escapar do óbvio, o que dá o melhor sabor de seus filmes que tanto se dividem entre o noir e o melodrama.