Oscar e as Premiações de Cinema

julianne-moore-2-1024                   01310

Continuo vendo pessoas revoltadas com os vencedores do Oscar, como se o prêmio fosse a interpretação máxima do que melhor o cinema do mundo produziu no ano. Discordo. Com o passar dos anos acabei desenvolvendo uma relação diferente, se tornou mais uma grande reunião social, com amigos falando de cinema, criticando roupas, elogiando filmes, falando a madrugada toda sobre suas impressões, opiniões, e piadinhas noite adentro, enquanto a festa tenta nos divertir e representar esse prêmio máximo do cinema. Dessa forma, eu fico com a festa (que é chata, cafona, longa e cansativa), e não com as escolhas.

Como premiação, o Oscar não me diz nada além de entender as preferências do público americano, resumindo, pouco importa. Ganhou Birdman, que eu considero o pior filme do ano, histérico, irritante e pedante, eu preferiria Sniper Americano e seu american way of life atualizado, ou Boyhood e a consagração do cinema inventivo de Richard Linklater. Mas, não foi assim, os votantes tem suas preferências e a agitação amalucada de Iñarritu saiu vencedor.

Entendendo hoje a dinâmica, quem são os votantes, e todo o processo do Oscar. Alguns podem me xingar, mas fica claro que é um prêmio da indústria, porque os votantes são parte integrante da indústria (atores, produtores, fotógrafos, diretores, editores, e outros técnicos), portanto o Oscar reflete a visão desse grupo de votantes. Claro que por serem os membros da indústria de cinema mais influente do mundo, a premiação tem relevância maior do que qualquer outro prêmio (numa distância sideral), e consequentemente atrai a atenção do mundo. E, é natural que tente refletir-se como o prêmio máximo do cinema, afinal, nós mesmos o colocamos no pedestal. No fundo funciona como o Goya (Espanha), Donatelo (Itália), Bafta (Inglaterra), Cesar (França) e tantos outros. Porém, tomou tamanha proporção que os holofotes do Oscar geram milhares e milhares de dólares a mais de bilheteria, e com os interesses econômicos surgem as campanhas de marketing, por mais indicações e, portanto maiores bilheterias. Os outros prêmios não tem um centésimo dessa força, até porque, a produção desses países é bem menor, a França é um dos poucos países que tem bilheteria de filmes nacionais forte (Coréia do Sul é outro destaque).

Com toda a magnitude do Oscar, a imprensa quer se mostrar ligada, outros prêmios menores querem antecipar o Oscar e assim se apresentarem antenados, ser a prévia do Oscar. Qual o resultado disso? Nos últimos anos o Oscar não tem mais surpresas, porque todos os segredos foram decifrados, os Sindicatos entregam seus prêmios antes,  e chegamos na festa apenas para confirmar a consagração dos que já sabemos serão os vencedores. Não consigo imaginar uma solução para devolver a surpresa que não seja mudar a premiação dos sindicatos, que são fortes, e portanto impossível. Das litas de final de ano, passando por Globo de Ouro, Bafta, Spirit e etc, até finalizar com os Sindicatos, a corrida do Oscar se tornou uma forma de telegrafar o resultado Oscar. Nisso, os Sindicatos são o ponto-chave, seus premiados entregam a preferencia de grande parte dos votantes, portanto, se um filme ganha os prêmios dos Sindicatos, também ganhará o Oscar (elementar, meu caro Watson). Enquanto isso, jornalistas tentam se mostrar influentes e lançam listas de melhores totalmente baseadas nos filmes cujas distribuidoras estão torrando rios de dinheiro em marketing para o Oscar. São 2 meses de prêmios e mais prêmios para os mesmos filmes, as premiações dos EUA entraram num círculo vicioso que parecem vendidas ao sistema, sem qualquer possibilidade de personalidade. Por mais que Sundance, Rotterdã e Berlim ocorram antes do Oscar, ele  marca definitivamente o fim do ano anterior, e o início do próximo quando falamos em exibição no cinema.

Por isso que, muito mais interessantes, são as listas individuais de críticos fora dos EUA, como Cahiers du Cinema, Sight & Sound e tantos outros órgãos especializados (basta encontrar os que mais se identificam com você que pretende ir além do escolher um filme na fila da bilheteria). Estes tem olhares para o circuito de seus países, e os grandes festivais, conseguem assim enxergar o novo, buscar novas experiências e tendências, dar fluência ao hoje e ao amanha do cinema. Obviamente que são listas pessoais, ou de um seleto grupo de pessoas, e representam também influencias culturais, além de preferencias pessoais. Porém, não estão enraizadas nessa necessidade de colar suas opiniões com o Oscar, prever, para assim serem respeitadas. O Oscar representa seus votantes, é um indicador interessante das preferencias dos que fazem acontecer na grande indústria de cinema, mas estão há anos-luz do que de melhor está acontecendo no cinema, além de representarem a vanguarda da vanguarda, completamente alheios à novidade.

Por fim, não pelas escolhas, talvez mais por uma proximidade particular com a cultura francesa, tenho acompanhado mais de perto a premiação do César, que também representa as preferência da indústria francesa, porém numa dinâmica diferente. Distante das campanha inflamada de marketing, o César alia cinema autoral e grandes sucessos populares de bilheteria, e tem seu pilar no Festival de Cannes. Os filmes franceses que são destaque, ou que compõe a Mostra Competitiva, estão sempre entre os indicados. É uma forma de prestigiar o Festival ou provar que a seleção do Festival opta pelo melhor dos filmes nacionais mesmo. Criando assim interesse ainda maior, dos cineastas franceses, de fazerem parte de Cannes, e assim manter a parcela importante do Festival para a indústria local. Este ano estavam lá Saint Laurent, Acima das Nuvens, Timbuktu (coprodução com a Mauritânia que ganhou quase tudo no César), além de destaques como Amor à Primeira Briga (ganhou 3 César). Além da festa ser mais descontraída (do pouco que entendo das minhas aulas de francês abandonadas anos atrás). O César parece representar mais o cinema francês, e menos a influência das campanhas de marketing das distribuidoras nos membros da indústria.

Portanto, assistam aos filmes do Oscar, eles são importantes, vão agradar a muitos, mas encontrem os atalhos para o tipo de cinema que atendam suas vontades. Sejam eles longe dessas premiações, ou dentro dos festivais de filmes mais obscuros e improváveis. Divirtam-se mais, e lembre-se que o Oscar representa muito… para quem quer vender bilhetes de cinema, e nada para quem está à procura do cinema que vá além do apenas contar histórias.

Sniper Americano

americansniperAmerican Sniper (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O novo american way of life do americano médio é defender seu país contra o terrorismo, enquanto em casa uma bela família aguarda o retorno do pai herói contra os inimigos islâmicos. São conceitos enraizados após os governos de Bus pai e filho, onde o nacionalismo e a defesa nacional estão acima de tudo. É outro típico trabalho do bom e velho Clint (Eastwood), sereno e republicano, porém antenado as coisas mais íntimas da “sua gente”.

A partir da biografia de Chris Kyle (Bradley Cooper), um atirador de elite americano, que se tornou lenda, pela quantidade de mortes de combatentes inimigos durante batalhas no Iraque, Clint traz a guerra para dentro da cidade, da vida rotineira, para perto de nós. Falando ao celular com a família, disparos por todos os lados, a rua vira um campo de batalha e a esposa ouve tudo do outro lado, frágil, louca, incapaz de fazer nada, os tempos mudaram, tudo está ao alcance de nossas mãos.

Chris é o herói americano típico, se alista depois de ver na tv americanos mortos num ataque terrorista. De caráter integro, de nacionalismo puro, de virtudes únicas. Esposa (Sienna Miller), filhos, o respeito dos colegas, a precisão militar. Clint legitima a decisão dos governantes de interceder militarmente em outros países, enquanto traça o drama particular de Chris, como a dificuldade de adaptação quando longe do campo de batalha.

A posição antagônica de Clint frente a guerra-ao-terror, legitimar e ainda assim realizar um filme tão antiguerra, tem causado discussões homéricas, polêmica por todos os lados. Encontro na visão do velho Clint, o dissecar desse sonho americano: puro e ingênuo, carregado de austeridade e dramaticidade que foge ao melodrama. Por outro lado, o heroísmo exacerbado, o exagero da rivalidade entre antiradores inimigos, Clint não é perfeito, como ninguém é. Homens duros que choram por dentro, mas agem em prol de sua integridade, de suas convicções, de sua nação. É o sonho americano desmistificado, personificado pela incomunicabilidade de um herói cristalino traído por sua própria solidariedade.

Um Santo Vizinho

umsantovizinhoSt. Vincent (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Praticamente uma nova versão de Um Grande Garoto com o humor típico de Bill Murray, no lugar de Hugh Grant, e a pegada pop de Nick Hornby trocada pela canastrice do personagem politicamente incorreto e canastrão. Não há espaço para Melissa McCarthy, muito menos para a afetada interpretação de Naomi Watts, como uma protituta interiorana. Só há Bill Murray, interpretando o que Murray faz há muitos anos. O diretor Theodore Melfi não vai além do estigma da comédia dramática do loser antipático, que, no fundo, se descobre de um grande coração.

Billy Elliot

Billy ElliotBilly Elliot (2000 – ING) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Voltar ao filme de estreia de Stephen Daldry, que rapidamente o colocou como um nome “oscarizável” em Hollywood, após tantos anos e de ter assistido ao musical, chega a ser cruel com o filme. A possibilidade de notar tantas fragilidades, desde o orçamento reduzido que encontra em soluções honestas (e pobrezinhas) alguns caminhos, até a total necessidade de concentrar, única e exclusivamente, o filme no garoto prodígio (Jamie Bell) destacando, assim, uma incapacidade de desenvolver os demais coadjuvantes.

Panos de fundo sem aprofundamento algum, principalmente a questão da greve dos mineiros, na década de 80, Daldry praticamente faz uma adaptação do mundo Disney na Inglaterra oitentista. O garoto sofre, confronta a família, mas é tudo amansado pelo conto de fadas. A relação com a professora (Julie Walters), o despertar da sexualidade, é tudo tão superficial quanto as sequencias pelo bairro de periferia de casas de tijolinho.

A história do garoto que treinava boxe, mas se encanta pelo ballet, enquanto pai e irmão durões lideram uma greve (no Governo Tatcher) que se estende por meses, é encantadora pela magia com que Jamie Bell sai dançando pelas ruas, por como Daldry conduz a história como numa transição de drama a musical, trazendo leveza e encantamento aos carregados sotaques britânicos.

Night Moves

night-movesNight Moves (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O discurso moral vem alinhado com as questões ambientais, as reinvindicações por mudanças estruturais na economia que possam privilegiar a preservação. Kelly Reichardt esgueia seus personagens por um thriller silencioso, por entre turvas florestas e a determinação jovem de fazer sua parte para mudar o mundo. O plano de Dena (Dakota Fanning) e Josh (Jesse Eisenberg) posto em prática, sem que nada seja esclarecido ao público. A narrativa é competente em guardar o segredo, fica a indagação do que eles estão aprontando?

A segunda metade é sobre o peso da culpa, arrependimento. Saem de cena a floresta, o rio límpido que reflete a escuridão noturna, surge o desanimo, os ombros carregados. Ação e reação, já dizia a lei da física, o fardo de prosseguir é mais pesado do que o planejado. Night Moves é o nome de um barco, que participa dos planos, Reichardt padece do mesmo mal de seus personagens, depois da ideia central não soube bem como seguir, e o filme vai lhe escapando das mãos.

Tangerines

TangerinesMandariinid / Tangerines (EST – 2014) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Assim como A Ilha dos Milharais, o filme foca nos conflitos étnicos na Georgia (Abecásia, Ossétia do Sul). Russos, chechenos, georgianos atacam pequenas vilas, a guerra pela terra. O filme de Zaza Urushadze não vai além do bem intencionado, parte da fuga dos estoanianos da região, após o início dos confrontos. Cria um pequeno conto moral, dois combatentes inimigos sobrevivem num confronto, e acabam resgatados por um velho estoaniano que cuida da recuperação, de ambos, na mesma casa.

É a transferência das discussões religiosas, políticas e nacionalistas, para cafés da manha, ou jantares à beira da fogueira. A visão de um apossibilidade pacífica pela convivência, proposta por Urushadze, pode soar bonita no cinema, mas parece tão distante da realidade quanto o que os noticiários nos sinalizam. Praticamente um delírio que só a ficção poderia propor.

Selma – Uma Luta pela Igualdade

SELMASelma (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Martin Luther King, a citação de seu nome traz à mente o ícone da luta contra segregação racial, é de se esperar um filme que faça jus à lenda criada (principalmente depois de seu fim trágico). O recorte aqui é curto, na trajetória de King (David Oyelowo), parte da entrega do prêmio Nobel da Paz, vai até os fatos decisivos para uma das mais importantes vitórias que ele, e seu grupo, obtiveram: a luta pelo direito dos negros votarem. Envolvidos estão o presidente, governantes e xerifes, e a população que, pouco-a-pouco, não pode permanecer indiferente a quase guerra civil que se instala.

Encontros com governantes, reuniões de militantes, ações ativistas, detalhes da vida particular. Mos que de  forma elegante, Ava Duvernay demonstra tamanha irregularidade nos diferentes aspectos da vida de King, que o resultado é esse libelo da luta, mas que tenta tranformá-lo numa figura tão cristalina e encorpada que o mito beira o galã. A trilha sonora no momento certo, a câmera lenta nas cenas de violência durante os protestos, as discussões com quê heroico/afetado (mocinhos e vilões bem claros) nos bastidores da política. E, obviamente, os grandes discursos de King, frente a milhares, personificando ainda mais a figura do mártir.

A direção de Ava Duvernay é acadêmica, clássica, parece realmente voltada para as premiações da corrida do Oscar, caso contrário poderia ser um telefilme (bem mais barato e com resultados semelhantes). Neste ponto, o filme carrega um pouco de azar por ser lançado exatamente um ano após a vitória de 12 Anos de Escravidão, outro filme sobre a questão racial, as injustiças e etc, porque havia os elementos básicos para o triunfo das premiações da indústria. Acabou de lado, tal qual sua própria irregularidade de não escapar da necessidade dos discursos pomposos, a cada cena, da proximidade envergonhada com a vida particular de King, com a necessidade de chocar, via violência, mas sempre via timidez. Seu melhor está nas poucas cenas de violência seca, quando a polícia ataca idosos, sem piedade, tamanha a cegueira pela segregação racial.