Homem Irracional

homemirracionalIrrational Man (2015 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A concepção da trama do professor de filosofia (Joaquin Phoenix) angustiado e alcoolatra, que causa fascínio imenso em sua aluna (Emma Stone) durante conversas pelo campus ensolarado ou à beira do mar, traz repetição da filmografia de Woody Allen, mas não é problema algum. A causa se complica quando, efetivamente, entra em operação a terceira adaptação de Allen de Crime e Castigo.

O didatismo dominante está presente em todas as falas, na narrativa em off, por todos os lados. Allen não deixa uma sombra sem explicação, de forma além de explícita. Chega ao irritante, algumas cenas até mesmo patéticas. Que há tempos que a vida não é um filme de Woody Allen, nós sabemos, mas tratar o público com tamanha incapacidade de compreender o que está acontecendo, sem se repetir, explicar tudo, já vai se tornando um desserviço ao cinema.

E não adianta florear com bonitos planos de por do sol, caminhadas por belor parques arborizados, e o jazz característico, a racionalidade humana e a discussão da moralidade requer argumentos mais elaborados do que simplificar, de maneira tão ingênua, a obra de Dostoiévsky.

O Último Cine Drive-In

oultimocinedriveinO Último Cine Drive-In (2014) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Parece inconcebível que ainda esteja em funcionamento um cinema drive-in, símbolo de uma resistência teimosa, mas também de um charme setentista. O pitoresco local, em Brasília, mantém-se vivo com suas sessões diárias do circuito comercial. O cineasta brasiliense Iberê Carvalho presta homenagem ao espaço, e o transforma em palco de seu primeiro longa-metragem.

A história trata da relação pai-filho, afastados há anos, que se reencontram quando a mãe (Rita Assemany) é internada às pressas. O filho, Marlombrando (Breno Nina) parece ainda mais turrão que o pai, Almeida (Othon Bastos). Enquanto pouco se entendem, o filme apresenta a decadência do lugar, deterioração física, desinteresse do público, os tempos áureos já passaram.

Se os planos de Iberê Carvalho flertam com o artístico, filmando muitas vezes as costas dos atores na imensidão do estacionamento frente à enorme tela, o tom é cada vez mais de comédia popular. Nem personagens tão genuínos, mas a esperança poética de uma ideia que deveria reviver o brilho e o charme do local. O resultado geral é de um filme meramente simpático permeado por essas pequenas homenagens ao cinema pelos posters e supercloses no projetor em funcionamento.

Obra

obraObra (2014) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O passado, que carrega a trama, vem desde a arquitetura do centro de São Paulo até as nebulosas relações familiares que o filme nega desenvolvimento. O preto e branco da fotografia capta o cimento e as luzes, enquanto dá nova vida às edificações paulistanas. Nesse tom sólido, de planos bonitos, mas que pecam pela falta de humildades, o diretor Gregório Graziosi desenvolve a história da crise de vida do arquiteto (Irandhir Santos), entre a gravidez da esposa e a obra no terreno da família.

As falam são quase vestígios, normalmente transformadas em monólogos sem resposta, o tom solene prefere esquivar-se do mais óbvio, o desenvolvimento das relações humanas, do passado estampado na ossada encontrada em meio aos alicerces da obra. Enquanto o filme bebe dessa eloquência por planos “perfeitos”, que algumas vezes pouco acrescentam ao todo, padece da baixa naturalidade e de trazer símbolos que não se materializam como fio condutor que se almejava (a hérnia hereditária, por exemplo).

Mala Noche

malanoche

Mala Noche (1986 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Interessante descobrir na estreia de Gus Van Sant elementos que continuam tão presentes na sua filmografia, menos comercial (afinal, ele se divide com filmes extremamente voltados ao público médio num zigue-zague obtuso). Filmado em 16 mm, preto e branco, o filme trata de um jovem gay interessado num latino ilegal, que vive em condições financeiras precárias e não lhe dá muitas chances.

Van Sant brinca com a tensão sexual, seja em letreiros provocativos (touros e chifres) ou metáforas entre os diálogos (como na cena do macarrão). São personagens que exploram suas armas (dinheiro, desejo, até pátria mãe), no meio de uma narrativa jovial como aqueles filmes das repúblicas universitárias americanas. Mas, é muito mais profundo que isso. Há em tantos planos o dedo de um Van Sant tremulante, capaz de trazer tanta naturalidade aos personagens em situações corriqueiras. Cortes bruscos, o posicionamento de câmeras, não é bem um trabalho experimental, mas sim um jovem cineasta experimentando.

Policeman

policemanHa-Shoter / Policeman (2011 – ISR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Foi na última Mostra SP que descobri o cineasta Nadav Lapid, com o longa A Professora do Jardim da Infância. Imediata necessidade em buscar outros trabalhos. Sua carreira guarda um média-metragem, um documentário, e este longa-metragem antecessor ao exibido no festival paulistano. Lapid chega com a força de quem resgata nova vida ao drama do povo judeu e as questões que assombram Israel. Político sim, porém de forma obtusa e urgente, sofisticada e pungente.

Da vida de um grupo de policiais de elite, a um outro grupo, de jovens, idealistas e responsáveis. Ambos israelenses, judeus. Lapid parte da gravidez da esposa de um dos policiais. A nova vida que se aproximada, a expectativa do primeiro filho. Drama antagônico que vive o pai que descobre que o filho está prestes a cometer um ataque, uma loucura, que pode lhe custar a vida.

Até que o filme junte esses dois grupos, e fica claro, desde o início, onde será o ponto de intersecção, Lapid documenta os passos cotidianos, o idealismo, as aspirações e inspirações, até mesmo os códigos de ética. A fraternidade e a revolta, sem deixar de ser político, em momento algum, Lapid oxigena os mesmos conceitos e obsessões de um cinema que sente a urgência de explorar a nítida aflição de seu povo. Com novo ânimo e virtuosidade fílmica, surge um novo cineasta capaz de sutilezas e contundência, de profundidade e inquietação através de uma assinatura autoral e particular.

Jimmy’s Hall

Jimmys-HallJimmy’s Hall (2014 – RU) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Lá vem o veterano Ken Loach com seus discursos políticos, voltados ao socialismo e à luta de classe. Seus filmes já foram melhores, a veemência de seu discurso já foi mais contundente, mas ele é um britânico incansável (e com cadeira cativa em Cannes). Seu novo trabalho resgata a história real de James Gralton (Barry Ward), que na Irlanda da década de 30 era o líder de um grupo que criou um salão onde ocorriam cursos, aulas de danças, bailes. O precursor dos centros culturais.

Obviamente é uma história de luta, protesto, e de um líder combalido pela burguesia. Loach filma a primeira meia-hora como Woody Allen, influenciado pelo jazz, pela leveza. A seguir são apenas questões políticas, discussões com a igreja, a demonstração provalvemente fiel daqueles anos em que a liberdade de expressão não era bem quista. Como cinema, é Loach chovendo no molhado, mantendo suas convicções, e jogando aquela partida ganha com seu público.

Uma Nova Amiga

umanovaamigaUne Nouvelle Amie (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A carreira de François Ozon dava sinais mais promissores do que efetivamente se estabeleceu. A sensualidade nos suspenses (À Beira da Piscina), a predominância feminina nas comédias (8 Mulheres), e o tom intimista nos dramas (O Tempo que Resta) – só para citar filmes produzidos num espaço curto de tempo – passou. Ozon carrega o eclético, como também o irregular. Os temas permanecem (sensualidade, sexualidade, prioridade pelo feminino), a pegada, e a desenvoltura, há tempos não é mais a mesma. Neste novo filme, Ozon lembra Almodovar, porém faz de seu galã (Romain Duris), e protagonista, uma caricatura de um travesti. Aprofundamento raso, a comédia quase avergonhada.

Infelizmente, o filme faz todo sentido na carreira de Ozon, principalmente dentro dessa irregularidade que parece ser a tônica da última década. O cineasta parece o típico nome que goza de prestígio, mas que teima em não acertar mais. O inusitado em ver Duris, vestido como uma diva, se sustenta por poucos minutos. A falta de profundidade só traz uma simpatia marota pelos personagens, e um desenrolar de trama profundamente desinteressante.