38ª Mostra SP

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Amanhã começa mais uma edição. A melhor programação da Mostra SP, desde o início do ineditismo. Ainda não se compara aos anos anteriores, mas já é um grande avanço. O cinema pop ainda segue de lado (dessa vez há um breve flerte com Foxcatcher e Livre, além de Almodóvar, claro), e a volta das sessões da meia-noite, aos sábados. A Mostra SP está mais robusta, não sabemos se por seus méritos ou pela crise financeira que vive o Grupo Estação (que pode ter resultado num Festival do Rio com menor poder financeiro).

Nem RJ e nem SP trouxeram alguns filmes importantes, Adeus à Linguagem (Jean-Luc Godard) foi a mais sentida. Mas, há outros grandes destaques que não estarão em nenhum dos festivais, entre eles; The Look of Silence (Joshua Oppenheimer), Saint Laurent (Bertrand Bonello), White Dog (Kornél Mundruczó), Pasolini (Ferrara), Fidelio L’Odyssee D’Alice (Lucie Borleteau), Phoenix (Christian Petzold), Eden (Mia Hansen-Love), o vencedor de San Sebastian Magical Girl (Carlos Vermut), além de Vício Inerente (Paul Thomas Anderson)

A Abertura será realizada hoje com o argentino Relatos Selvagens, de Damian Szifrón. Pedro Almodóvar é o grande homenageado, além de assinar o cartaz, uma retrospectiva, incompleta, deverá atrair parte do público. Mas, o Foco Espanha e a retrospectiva MK2 são ainda mais interessentes e oferecem um leque vasto de opções de grandes clássicos. Entre o cinema recente, a Mostra SP segue buscando novos diretores, filmografias obscuras, além de parte dos principais destaques dos festivais do ano (entre eles o vencedor de Cannes, Locarno e Veneza).

Como fiz no Festival do Rio, fiz abaixo um pequeno Guia, entre os filmes que serão exibidos na Mostra SP, com os filmes que estiveram nos grandes Festivais: Cannes, Veneza, Berlim, Sundance, San Sebastian e Locarno.

Post ficará fixo até o final da Mostra SP,  e os links serão atualizados quando filmes forem publicados aqui no blog. Entre os filmes dos principais festivais, maiúsculas para os filmes que destaco (os sem link ainda não foram vistos).

 

Sundance

  • Jamie Marks está Morto [Carter Smith] – Competição

 

Berlim

  • JACK [Edward Berger] – Competição
  • O Cidadão do Ano [Hans Petter Moland] – Competição
  • TERRA DE NINGUÉM [By Hao Ning] – Competição
  • Macondo [Sudabeh Mortezai] – Competição
  • Beloved Sisters [Dominik Graf] – Competição
  • A Pequena Casa [Yoji Yamada] – Melhor Atriz
  • Entre Mundos [Feo Aladag] – Competição
  • Eu Não Estou com Raiva! [Reza Dormishian] – Panorama
  • O Retorno de Antígona [Yorgos Servetas] – Panorama
  • Pare ou Eu Sigo em Frente [Sophie Fillières] – Panorama

 

 Cannes

  • WINTER SLEEP [Nuri Bilge Ceylan] – Palma de Ouro
  • AS MARAVILHAS [Alice Rohrwacher] – vencedor do Grande Prêmio
  • DOIS DIAS, UMA NOITE [Jean-Pierre e Luc Dardenne] – destaque na competição
  • FOXCATCHER [Bennet Miller] – Melhor Diretor
  • LEVIATÃ [Andrey Zvyaginstev] –  prêmio de roteiro em Cannes
  • JAUJA [Lisandro Alonso] – grande destaque da Un Certain Regard
  • FORÇA MAIOR [Ruben Ostlund] – prêmio do juri em Un Certain Regards, e um dos filmes mais comentandos do ano
  • O Segredo das Águas [Naomi Kawase] – Competição
  • RELATOS SELVAGENS [Damian Szifrón] – Competição
  • ACIMA DAS NUVENS [Olivier Assayas] – Competição
  • A GANGUE [Myroslav Slaboshpytskiy] – Melhor Filme na Semana da Crítica
  • O Homem que Elas Amavam Demais [André Téchiné]
  • Hermosa Juventud [Jaime Rosales] – Un Certain Regard
  • Amor à Primeira Briga [Thomas Cailley] – Quinzena dos Realizadores
  • As Horas Finais [Zach Hilditch] – Quinzena dos Realizadores
  • O Pequeno Quinquin [Bruno Dumont] – Quinzena dos Realizadores
  • Queen and Country [John Boorman] – Quinzena dos Realizadores
  • A Professora do Jardim da infância [Nadav Lapid]
  • Quando os Animais Sonham [Jonas Alexander Arnby] – Semana da Crítica
  • Snow in Paradise [Andrew Hulme] – Un Certain Regard
  • À Procura [Atom Egoyan] – Competição
  • Os Proprietários [Adilkhan Yerzhanov]
  • As Pontes de Saravejo [Aida Begic, Leonardo Di Costanzo, Jean-Luc Godard, Kamen Kalev, isild Le Besco, Sergei Loznitsa, Vincenzo Marra, Ursula Meier, Vladimir Perisic, Cristi Puiu, Marc Recha, Angela Schanelec, Teresa Villaverde]

 

Locarno

  • DO QUE VEM ANTES [Lav Diaz] – Leopardo de Ouro
  • O IDIOTA [Yury Bykov] – melhor ator
  • A Fuga [Syllas Tzoumerkas] – competição
  • Ventos de Agosto [Gabriel Mascaro] – menção honrosa na competição
  • Noites Brancas no Píer [Paul Vecchiali] – Competição
  • El Mudo [Daniel Vega, Diego Vega] – Competição
  • Mary, A Rainha da Escócia [Thomas Imbach] – Competição 2013

 

Veneza

  • UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA [Roy Andersso] – Leão de Ouro
  • AS NOITES BRANCAS DO CARTEIRO [Andrei Konchalovsky] – Melhor Diretor
  • Almas Negras [Francesco Munzi] – Competição
  • Tsili [Amos Gitai] – Competição
  • Nabat [Elchin Musaoglu] – Mostra Horizonte
  • Desvio [Duane Hopkins] – Mostra Horizonte
  • O Velho do Restelo [Manoel de Oliveira] – curta-metragem
  • Falando com Deuses [Guillermo Arriaga, Hector Babenco, Álex de la Iglesia, Bahman Ghobadi, Amos Gitai, Emir Kusturica, Mira Nair, Hideo Nakata, Warwick Thornton]

San Sebastian

Retrospectiva Pedro Almodóvar

Retrospectiva MK2

 

Foco Espanha

  • O Espírito da Colmeia [Victor Erice]
  • O Sol de Marmelo [Victor Erice]
  • O Sul [Victor Erice]
  • Um Cão Andaluz [Luis Buñuel]
  • A Idade do Ouro [Luis Buñuel]

 

Brasileiros e Outros Destaques

  • Branco Sai, Preto Fica [Adirley Queirós] – melhor filme no Festival de Brasília
  • Sinfonia da Necrópole [Juliana Rojas]
  • Jia Zhang-Ke, um Homem de Fenyang [Walter Salles]
  • A MOÇA E OS MÉDICOS [Axelle Ropert]
  • Lamento [Jöns Jönsson]
  • EM TERRA ESTRANHA[Icíar Bollaín]
  • Dancing Arabs [Eran Riklis]
  • Livre [Jean-Marc Vallée]
  • O Grande Momento [Roberto Santos]
  • Ninfomaníaca: Volume 1 [Lars Von Trier] – versão do diretor
  • Ninfomaníaca: Volume 2 [Lars Von Trier] – versão do diretor
  • Riocorrente [Paulo Sacramento] – presente no Festival de Rotterdan
  • Casa Grande [Fellipe Barbosa] – presente no Festival de Rotterdan
  • Filho de Trauco [Alan Fischer]
  • Paixão Mórbida [Noboru Nakamura]
  • Lar Doce Lar [Noboru Nakamura]
  • Falstaff – O Toque da Meia-Noite [Orson Welles]
  • Los Angeles por Ela Mesma [Thom Andersen]
  • O Circo [Charles Chaplin] – apresntação especial no Parque do Ibirapuera

Filho de Trauco

filhodetraucoHijo de Trauco (2014 –CHL) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Bem desastrado é o primeiro filme do diretor Alan Fischer. Tenta trazer a inocência do olhar, de um jovem de 14 anos, para mistérios do passado que envolvem a morte de seu pai. Passado num pequeno vilarejo de uma das ilhas do sul chileno, a trama flerta com a poesia, com os sonhos de Jaime (Xabier Usabiaga), mas encontra abrigo mesmo nos elementos folclóricos e na estrutura social antiquada. Trauco é uma figura mitológica da região, similar a um duende, e que abusaria sexualmente das mulheres (uma maneira de explicar gravidez indesejada).

Fischer mistura a isso outros elementos, tudo fruto da imaginação do jovem rebelde, descontente com sua família, o lado gráfico traz cães tendo relações com mulheres, no meio da mata, mas são apenas fragmentos, o filme está mesmo preocupado em trazer diversas versões da morte do pai de Jaime, em tratar a inocência sexual do garoto, e permitir que personagens se encontrem numa espécie de catarse, uma panela de pressão. Acaba desastrado, quase traindo o encanto que jamais obteve.

Em Terra Estranha

emterraestranhaEn Tíerra Extraña (2014 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O documentário da cineasta Icíar Bollaín pode cair como uma bomba nas sociedades europeias tradicionais, o tema, para os brasileiros, é como carne de vaca. Não deixa de ser chocante as mudanças necessárias na sociedade a crise econômica espanhola vitimando uma geração de profissionais pelo desemprego. São diversos os depoimentos de espanhóis que migraram para Edimburgo (estatísticas extra-oficiais falam em 700 mil espanhóis que saíram de sua terra natal para outros países, 20.000 na capital escocesa). O resumo desses depoimentos, em sua imensa maioria pessoas entre 30-35 anos, fala em uma geração frustrada. Engenheiros, economistas, e as mais diversas áreas, profissionais altamente gabaritados, e que trabalham em lanchonetes, como faxineiros ou baby-sitters. Há até o curioso caso de um biólogo, especialista em aves, que trabalha no FKC.

É uma fotografia deprimente de uma geração que foi obrigada a se reinventar, todo um país perdendo uma geração ao exterior, vivendo de empregos que seus diplomas não condizem. Porém, não há outra saída, eles lamentam a situação, mas agradecem a oportunidade que a cidade lhes ofereceu, por mais que carreguem o mesmo discurso de que não se sentem em casa. A estrutura do documentário é simples, Bollaín tenta oferecer liberdade a seus personagens expressarem suas histórias íntimas, mas é o todo que causa esse efeito avassalador da preocupação com o que será da Espanha com a ausência dessa geração. Como o país irá se renovar? Se bem que, a preocupação lá apenas de recuperação, do como fazer para que a próxima geração não passe pelo mesmo problema de, pro exemplo, não ter dois amigos morando num mesmo país de tanta capilaridade que essa juventude teve que enfrentar.

Relatos Selvagens

relatosselvagensRelatos Salvajes (2014 – ARG) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Imensa maioria do público brasileiro quer mesmo saber do novo filme com Ricardo Darín, mas, além dele há muito mais na volta do diretor Damián Szifron. Uma comédia debochada, por oras tola (Tempo de Valentes e El Fondo Del Mar, suas comédias anteriores já pecavam pelo ingênuo), regada a sangue e violência. O tema é vingança, seis pequenas histórias que dialogam pelo tema, além carregado tom humorístico. Szifron busca situações do cotidiano, exemplo disso é a história em que Darín é o protagonista, e enlouquece pela burocracia e os desmandos do serviço de multas de trânsito de Buenos Aires.

Brigas de trânsito, provocações, ressentimentos do passado que explodem como um barril de pólvora. Szifron eleva as situações à máxima potência, extrai do público gargalhadas ao expor nossos comportamentos caricatos. É a nossa selvageria levada à última consequência, apenas com uma roupagem agradável para uma sessão de cinema (em grupo melhor ainda, as risadas contagiam), e nem nos damos conta do quanto de nós está representado naqueles personagens. A hilária festa de casamento que se torna um pesadelo, Szifrón extravasa pelo sádico, pelo humor negro, um diálogo fácil com o público, personagens vivem seus “dias de fúrias”. O diretor argentino joga fácil para a torcida.

Sinfonia da Necrópole

sinfoniadanecropoleSinfonia da Necrópole (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um musical no cemitério. A diretora Juliana Rojas assina sozinha o roteiro, mas a parceria com Marco Dutra está por todos os cantos, desde a manutenção do estilo do coletivo Filmes do Caixote, até a participação em roteiro e nas letras das canções. O filme carrega um misto de humor mórbido com o pueril, enraizado no aprendiz de coveiro Deodato (Eduardo Gomes), porém transporta para o, inimaginável universo de um cemitério, a crítica do capitalismo desenfreado e o respeito pela diginidade humana.

Enquanto cavam covas e cuidam de túmulos, os coveiros cantam, dialogam, resumem suas vidas nas paqueras com a dona da floricultura, ou no funcionalismo público típico. Rojas flerta com o sobrenatural, mas parece mesmo interessada em contornos mais simpáticos que os trabalhos anteriores do coletivo (e nisso o humor é peça-chave, até para causar maior empatia). A paz do cemitério em meio à imensidão da metrópole, carrega em seu universo simplório a mesma fúria financeira compulsiva, enquanto a sensibilidade de Deodato não lhe permite aceitar o sistema, até se tornar um coveiro de ofício.

 

Lamento

lamentoLamento (2013 – SUE) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O peso do lamento é evidente, desde o primeiro plano, mas o estreante diretor Jöns Jönsson usa de subterfúgios para tentar esconder as razões que causam esse pesar em Magdalena (Gunilla Röör). O filme tenta dialogar com a dificuldade de lidar com a perda, Magdalena perdida tenta se desfazer, com carinho, do cão, encontra o ex-namorado da filha (quando suas artimanhas de proteção vão por água abaixo), cerca tudo que pode de quem não está na sua casa.

Jönsson não quer fazer chorar, pretende mais um estudo do desequilíbrio. Seu filme não decola, mas não faz feio. O jovem traz a seus personagens a intimidade incômoda, com planos bem fechados, e uma fluidez razoável que permite aborver as fragilidades dessa senhora angustiada, incapaz de entender o que nunca será possível lidar.

Acima das Nuvens

acimadasnuvensClouds of Sils Maria (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Irma Vep encontra ecos de Ingmar Bergman. O prolífico Olivier Assayas reencontra a metalinguagem, a mistura de vida real/ficção, o espelho entre personagem e vida profissional de uma atriz. Maria (Juliette Binoche) é uma das grandes atrizes do cinema europeu, vive um momento delicado com divórcio, a morte do grande amigo dramaturgo e a pressão por voltar à peça de teatro que a consagrou há décadas, dessa vez no papel da protagonista mais velha.

Personagem-chave é sua assistente (Kristen Stewart) pessoal, que não só vive como companhia e babá, mas também a confronta, expõe opiniões, a ajuda nos ensaios. O texto é de grande complexidade, o confronto entre as duas se dá nos ensaios, e fora deles. Nas montanhas de Sils Maria passam nuvens que se parecem com uma cobra, entre as montanhas e a cabana a intensidade do relacionamento entre essas mulheres lembra Persona, porém regido por outros temas, por outras alternâncias.

Em seu filme, Assayas provoca a exposição na mídia de astros, as diferenças entre ser ator nos EUA e Europa, a arrogância e a futilidade, o mundo dos tabloides. Porém, principalmente, o jogo entre o jovem e o velho, a dificuldade de aceitação do envelhecimento. Jo-Ann Ellis (Chöe Grace Moretz) coloca mais lenha na fogueira das vaidades, nos confrontos femininos. Ela é a atriz que assumirá o antigo papel de Maria, a atriz do momento que debocha da mídia, que perde a linha, que enlouquece os adolescentes. Ingredientes preciosos para Assayas apimentar os dramas de Maria, expor suas vaidades e imperfeições.

Os ecos de Bergman ecoam pelas montanhas de Sils Maria, a intensidade sexual é substituída por conceitos pessoais, pela vida real que se mistura com o profissional (nisso, a assistente pessoal é a mistura da mistura), por essa vaidade de quem já tem tudo na vida e ainda tão carente.

A Moça e os Médicos

amocaeosmedicosTirez La Langue, Mademoiselle (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Após sua elogiada estreia, com o inquieto A Familia Wolberg, a diretora e roteirista Axelle Ropert volta a abordar dramas familiares e personagens inconstantes. A história trata de dois irmãos médicos, reservados, mas de características comportamentais distintas. Um ultra-simpatico (Laurent Stocker), o outro mais seco (Cedric Kahn), cada qual carinhoso à sua forma. Primeiramente, Ropert mergulha na rotina e relação umbilical entre eles. O mecânico dia-a-dia da clínica, a intimidade tímida de seus apartamentos (onde eles se comunicam pela janela).

A narrativa de um agridoce singelo trata insere temas com naturalidade absurda, de maneira tão simples que chocam pelo inesperado. As revelações surgem suaves, problemas pessoais tratando com simplicidade, sem a complexidade seja eliminada. Assim também surge a mãe solteira (Louise Bourgoin) pela qual ambos se apaixonam. Tal qual na vida fora das telas os relacionamentos são tratados de forma imperfeita, beirando o irracional, atitudes destemperadas, conflitos. A beleza do filme não está na trama bem arquitetada por Ropert, mas em como ela a conduz entre essa irregularidade humana. São dramas, são vidas, sentimentos guardados, arrependimento, angústia, brigas. Ropert nunca perde o tom, se houver finais felizes, é porque a vida também os tem, mesmo que de forma temporária. Drama, romance, pequenos momentos de humor, a diretora transforma coisas simples da vida numa envolvente história sobre pessoas comuns.