Dois Disparos

doisdisparosDos Dispáros (2014 – ARG) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Mariano (Rafael Federman), um jovem com seus 16 anos, encontra uma arma em casa. Sem pensar, sumariamente, dispara dois tiros contra si. O suicídio não foi bem sucedido. É intrigante como o cineasta Martín Rejtman dá ênfase total, em sua primeira metade, a Mariano, a relação com a família, ou com o grupo musical, a qual ele toca flauta doce, para, na segunda metade, optar por tornar um verão argentino o protagonista de seu filme.

O roteiro segue como um barco à deriva, por mares calmos. Personagens surgem numa transição suave, em dado momento, Mariano inexiste naquela história, dando lugar ao foco na mãe, no irmão e os flertes a uma garota, num casal que vai passar férias na praia, etc. Se Rejtman já não tentava assumir nenhum tema central para seu filme, nenhum drama em particular, essa guinada abre um leque quase irresponsável de possibilidades, que jamais se fecharão (não que isso seja problema).

A questão é que a maneira como ele lida com as tramas jovens funciona melhor que no caso dos personagens adultos. O humor é incipiente. Rejtman insinua pretender apenas filmar situações, e elas estão interligadas apenas por personagens que, em algum momento, tiveram algo em comum. Não é nem um filme coral, ou até é, mas eles nunca estão ligados propriamente, são vidas que seguem e se encontram. Se intriga pelas opções, não prima por nada além desse conjunto de cenas, que falsamente confundem e pouco dizem.

 

Boyhood: Da Infância à Juventude

boyhoodBoyhood (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um trabalho audacioso de Richard Linklater, na execução. Foram dozes anos de filmagens, com sua filha (Lorelei Linklater), Ethan Hawke, Patricia Arquette, e o garoto, e protagonista (Ellar Coltrane). As crianças foram crescendo com o passar dos anos, os adultos envelhecendo, as passagens de tempo são discretas, acompanham as transformações físicas dos personagens.

O filme é simples, é tão vida. Segue a história de Mason, desde sua infância até o início da faculdade. A vida de pais separados, as dificuldades de rearranjo familiar. O dia-a-dia de escola, professores, colegas de classe, bullying. E os personagens falam, muito, tal como Linklater gosta de seus trabalhos.

boyhood2A trilha sonora indie rock é farta, ajuda a trazer esse clima charmoso, a sensação de assistirmos a um primo, ou vizinho, crescer, com influências que são as mesmas que as minhas, A tradução de boyhood seria algo como “meninices”, e é bem isso mesmo, um filme sobre um garoto, coisas de um garoto, transformações de um.

Da inocência doce de bem jovem, à rebeldia adolescente, os primeiros amores. Linklater troca explosões dramáticas por pequenos momentos que marcam a vida de qualquer um, seu carinho e dedicação são inspiradores, 12 anos para representar as meninices que provavelmente digam muito sobre si. Fica a dúvida sobre quais caminhos o cinema de Linklater deve tomar, Boyhood tem o sabor de resumo de sua carreira, de final de página para uma nova fase. Tomara, ele é, de longe, um dos mais interessantes cineastas americanos da atualidade.

Mesmo Se Nada Der Certo

mesmosenadadercertoBegin Again (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O diretor John Carney ataca novamente, poderia ter descambado para a comédia romântica, seria mais prático/honesto. Após seu sucesso indie com Apenas uma Vez, ele erra feio ao tentar mesclar o pop, com a cena indie (cinema e música) que tomou conta da internet. Filma com aspecto caseiro, personagens cheios de seus probleminhas pessoais, novamente pessoas ligadas à música. O título brasileiro dialoga com o próprio Carney, porque nada sai certo, mas como tem cenas “fofas”, parte do pública compra, e fica tudo certo.

Começando pela enormidade de canções, nenhuma delas que seja, no mínimo, marcantes. Elas preenchem emoções, causam desavenças, tentam preencher o que o roteiro não consegue desenvolver bem. O produto musical Dan (Mark Ruffalo) e seu caos psicológico esbarram o antagônico entre o doce e o alcoólatra, e esse encontro não funciona. Os demais personagens são clichês, a garota romântica, doce e bonita (Keira Knightely), o namorado calhorda arrependido (Adam Levine, que só consegue mesmo emprestar seu nome), e assim sucessivamente. O tempo todo Carney fica tentando encontrar o tom certo entre o pop e seu espírito indie, essa gangorra pende sempre a falta de necessidade de mais um filme como esse, que serve para ser esquecido no minuto seguinte ao término.

 

 

A Sapiência

asapienciaLa Sapienza (2014 – FRA/ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Colocar em palavras um filme de Eugène Green é, cada vez mais, uma forma diminuta de expressar sua incapacidade de traduzir tudo aquilo que o cineasta exibe em seus filmes. Não são sinopses e temas que possam oferecer interesse a um leitor. Seu cinema é outro, complexo e simples. Segue firme com a câmera fixa no rosto dos personagens, em falas nada naturais, sempre encontrando no barroco um porto seguro de onde possa conduzir sua frota de insinuações.

Um casal de irmãos, jovens, e um casal (maduro) que vive crise matrimonial. Eles se encontram, as mulheres decidem ficar juntas, a mais velha abre mão da viagem para cuidar da mais jovem, Partem os homens, um estudante de arquitetura, o outro com sua carreira estabelecida. Viajam pela Itália, a posição de aluno e mestre, primeiramente estabelecidade, segue num ziguezague, porque a troca de experiências está sempre nos ensinando.

Green relaciona dois famosos arquitetos italianos, a seus personagens, precisamos de especialização na área para compreender os meandros. Mas, o filme fica além da relação com a arquitetura, busca nas palavras e no amor, sua beleza abstrata de resgatar sentimentos, confiança, relações. A beleza das edificações não oferece cenas tão singelas como a dos cantores de Fado (em Religiosa Portuguesa), mas a sapiência de cada um deles pode nos tocar hoje, amanha, num revisão futura. Não é filme para acabar ao final da projeção, é para trazermos conosco sempre.

Morrer de Amor

morrerdeamorL’amour à mort (1984 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um emaranhado entre amor, morte e religião. Talvez um dos mais pragmáticos filmes de Alain Resnais, carregado do amor romântico. Por outro lado, outra exposição corajosa de sua visão, ou apenas meros questionamentos de quem também procura respostas, mesmo que saiba que elas não existem. Resnais faz seu protagonista (Pierre Arditi) morrer, e ressuscitar. Decide aproveitar a oportunidade e mudar os rumos de sua vida, as pessoas com quem se relacionar, dar ainda mais foco em a sua namorada (Sabine Azéma).

Estão jogadas as cartas à mesa que permitem a Resnais discutir o amor romântico, o morrer de amor. Com o casal de amigos religiosos (Fanny Ardant e André Dussollier) vem a oportunidade de envolver a religião, as crenças. Por exemplo, Resnais resgata uma questão interessante, a tradução incompleta de “amor”, para o latim, dos termos do grego antigo Eros (amor possessivo) e Ágape (amor desinteressado).

Os nomes com conotação religiosa não está ali por acaso. Um personagem, apenas citado, comete suicídio, outra oportunidade de trazer o assunto à tona, e o discutir sob os aspectos da morte e religião. É Resnais talhando seu filme para abordar seus questionamentos, e, com interpretações bastante densas, e clima por vezes carregados, ainda assim imprimir seu estilo de promover a reflexão, dessa vez com um conjunto de observações antagônicas.

Bem Perto de Buenos Aires / História do Medo

bempertodebuenosaires

Historia del Miedo (2014 – ARG) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O grupo de personagens orbita num condomínio de casas, ao redor de Buenos Aires, cercado por grandes áreas verdes. Isolam-se para se proteger. O jovem diretor Benjamín Naishtat, primeiro longa após alguns curtas premiados em Cannes e Roterdã, trata do medo. Ele é o personagem central, o conjunto de personagens que se interrelacionam são apenas joguetes capazes de criar as mais diversas formas de medo.

Dedsde os moradores burgueses do condomínio, até as empregadas domésticas e seguranças, todos protagonizam pequenos (e sinistros) momentos capazes de causar pânico. O homem nu (na foto) que aparece no pedágio, os apagões de energia elétrica, o medo de perder um ente querido. Naishtat filma com traços de uma atmosfera de terror, lembra a narrativa de Juliana Rojas e Marco Dutra, onde a sensação é de um mal maior prestes a acontecer.

Enquanto a crítica a burguesia é clara, o medo gerando medo, suas “esquetes” vivem mais do argumento que da realização em si. Naishtat tenta filmar o sentimento, consegue oferecer apenas parte das vibrações almejadas.

Indie 2014

INDIE14.bannerJá passou por BH, e chega hoje a SP, o Indie Festival 2014. Que a cada ano se fortalece como um dos mais importantes festivais de cinema do país. Focado em produções “mais alternativas”, o festival tem intensificado a presença de filmes que estiveram presentes no Festival de Locarno, além de outros destaques de Roterdã, por exemplo. Além de se mostrar altamente conectado com os novos expoentes do cinema autoral, em suas retrospectivas.

Este ano não é diferente, o espanhol Albert Serra (que venceu Locarno em 2013 com História da Minha Morte) e o franco-americano Eugène Green são os homenageados, a obra completa de ambos marca presença, e são o grande destaque da programação (incluindo A Sapência, o novíssimo filmes de Green que passou em Locarno).

Entre os demais principais destaques estão os 3 filmes  argentinos, 2 que integram a Mostra Competitiva de Locarno (A Princesa da França e Dois Disparos) e História do Medo (que esteve na competição de Berlim), o russo Ida (que fez sucesso em Sundance e bem crescendo em repercussão mundial), o japonês Anatomia de um Clipe de Papel (que ganhou a última edição em Roterdã) e o americano Listen Up Phillip (outro de Locarno). Isso, sem falar em Tsai Ming-Liang e o seu curioso Jornada ao Oeste, e o britânico Exibição, outro de Locarno, só que de 2013. Enfim, ainda há outros que merecem atenção, a programação está recheada de filmes interessantes.

Abaixo link para os filmes já comentados aqui na Toca. Os filmes serão exibidos no Cinesesc, gratuitamente, basta chegar 1 hora antes das sessões para garantir seu ingresso.

- Ida, de Pawel Pawlikowski

- O sétimo código, de Kiyoshi Kurosawa

- Jornada ao Oeste, de Tsai Ming-Liang

- História da minha morte, de Albert Serra

- Honra dos cavaleiros, de Albert Serra

- O canto dos pássaros, de Albert Serra

- A Religiosa Portuguesa, de Eugène Green

- A Ponte das Artes,  de Eugène Green

- O mundo dos vivos, de Eugène Green

- Todas as noites, de Eugène Green