Pense na sua memória, na forma como ela armazena as lembranças. Elas surgem de forma contínua, ou fragmentada? Trazendo apenas trechos da sua vida essencialmente de momentos marcantes e/ou determinantes? Se nossa própria vida nos é recordada por fragmentos, nada mais natural que descubramos a vida de Nana através deste mesmo formato estilhaçado, doze fragmentos para ser exato. Também, estamos falando de Jean-Luc Godard, o mais oblíquo dos cineastas.
No primeiro ato Nana está terminando seu relacionamento num café, a câmera atem-se, num lento zigue-zague, a flagrar os dois sentados (de costas) no balcão, conversando. A primeira das pequenas reviravoltas, falta a essa vendedora de vinis dinheiro para pagar o aluguel. Seu desejo de ser atriz, acaba na prostituição, e mais adiante em conseqüências ainda mais trágicas. Pouco importa o desenrolar da vida de Nana, Godard não está preocupado em narrar uma história essencialmente com começo, meio e fim (por mais que estejam todos lá). O que Godard pretende é nos fazer encantar por aquela garota, descobri-la, fazer com que os atos sejam menores do que a personalidade.
“As pessoas têm o lado interior e o exterior, retirando o exterior fica o interior, retirando o interior resta a alma”. É da alma de Nana que Godard trata e deixa isso claro já no primeiro ato, quer dizer, claro a seu modo porque nada é claro num filme de Godard. São três momentos principais em que Nana permite que sua personalidade sobreponha-se aos atos, na carta que parece pueril de tão simples e direta, e na dança ao som da jukebox. O terceiro é o choro ao assistir Joana D’arc de Dreyer no cinema. Nessas situações sua alma toma as rédeas do corpo, seu eu explicita-se de forma mais libertina. Não está ali buscando interesses diferentes dos explícitos, Nana apresenta a limpidez de sua alma.
A sensual malícia e graça que Anna Karina desfila em cada fotograma possui um efeito hipnotizador, homem algum pode negar encantar-se com seu modo de olhar e sorrir. Anna Karina permite que sua Nana seja completamente desnudada pela câmera de Raoul Coutard e os leves deslizes de imagem, Godard não nos dá nada mastigada, em contrapartida absorvemos Nana e suas facetas. Viver a vida foi a forma que Nana encontrou para sobreviver, estamos falando no preocupar-se com o hoje, na hibernação de sonhos, na desistência do amor, e até mesmo na conseqüência de querer tudo isso novamente a seu dispor. E eu poderia passar o resto da vida olhando para aquele rosto perfeito.

