Um Filme Falado – 27ª Mostra SP

umfilmefaladoUm Filme Falado (2003 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A cortês Rosa Maria (Leonor Silveira), professora de português da Universidade de Lisboa, parte num cruzeiro com sua filha Maria Joana (Filipa de Almeida) pelas águas do Mar Mediterrâneo e Vermelho. O destino final é Bombaim, onde se encontrarão com o pai da menina, para partirem em férias. Rosa Maria aproveita a oportunidade para conhecer, de perto, todos os lugares fascinantes que ela ensina a seus alunos, e só os conhecia pelos livros. A viagem também se torna enriquecedora aa o público, que pode ouvir os ensinamentos que Rosa Maria transmite à filha, em tom meigo e pueril.

Propositalmente, os pontos turísticos representam parte da história das civilizações, assim passeamos pelo Vesúvio, pela Esfinge, pela Acrópole, o Canal de Suez e sucessivamente. Em cada parada, um pouco da história desses locais é colocada em perspectiva. Depois entramos na segunda fase do filme, o comandante do navio (americano, John Malkovich) convida para jantar três figuras ilustres que embarcaram durante a viagem, são elas: a mega-executiva Delfina (francesa, Catherine Deneuve), a ex-modelo Francesca (italiana, Stefania Sandrelli) e a cantora e atriz Helena (grega, Irene Papas).

Inicia-se um diálogo, extremamente educado, entre quatro pessoas de nacionalidades distintas, e o tema ronda aspectos das civilizações. Cada um deles fala sua própria língua e estranhamente todos se entendem bem (crítica clara a União Européia). A escolha de cada um das nacionalidades prova ser meticulosamente planejada, cada um dos personagens funciona como espelho de seu país, e juntos representam os principais povos que dominaram as civilizações ao longo da história: a Grécia antiga, o Império Romano, a Revolução Francesa e o atual império dos EUA. Com diálogos afiados e humor leve, ficam nítidas as posições e divergências entre eles. Num segundo jantar, Rosa Maria e sua filha juntam-se a essa mesa, completando esse quadro histórico com a época das Grandes Navegações Portuguesas do século XV.

O diretor Manoel de Oliveira nos reserva, no último ato, sua visão sob a atual situação da civilização, a famigerada globalização, entre outros ponto foca em quando a violência já perdeu o controle, e nem o mais inocente e puro ser está livre de suas garras. O diretor não manda recado, deixa claro sua insatisfação com o mundo, e com seu próprio país (não poderia ser mais atual), afinal por que todos entendem as outras línguas menos o português? Irene Papas se sobressair sob o elenco de peso, além de dar o tom de humor na mesa, com suas reclamações sobre a incapacidade dos gregos de colonizarem outros países, ainda canta divinamente em grego. Poético, delicado, magistral, Manoel de Oliveira realiza uma obra sublime e atemporal, sua genialidade é tão delicada e discreta quanto precisa. E ainda guarda um desfecho tanto questionador, quanto perturbador.

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Um comentário sobre “Um Filme Falado – 27ª Mostra SP

  1. Depois de anos após ler sua crítica, finalmente vi o filme, e realmente não seria nada justo menos do que as 5 estrelas dadas. O desfecho holywoodiano – especialmente com John Malcovich – guarnece o filme soberbamente. Obra cinematográfica simplesmente maravilhosa!

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