As Virgens Suicidas

The Virgin Suicides (1999 – EUA) 

Tom de tragédia anunciado, dessa vez sob atmosfera doce, regados a ternura. Os fatos são narrados por um dos garotos vizinhos da família, um dos obcecados pelas tais virgens suicidas (Giovanni Ribisi assume a narração em off dosando com muita propriedade as nuances de voz). Entre os trágicos fim e início, o filme molda-se sob a forma de uma comédia juvenil sutil e afetuosa. De cara, já sabemos do mal que assolará a família Lisbon. O chefe da família é professor de matemática (James Woods) e sua esposa dona de casa (Kathleen Turner). Situando a narrativa na década de setenta, o filme agride aos pais ultra-conservadores e seu estilo de educação repressivo. Religiosos devotos (a esposa principalmente), os dois mantém suas filhas adolescentes sob regras rígidas e conservadoras (privados do convívio social, apenas freqüentam a escola onde trabalha o pai), sempre no intuito de mantê-las distantes de qualquer contato com rapazes da mesma idade. As cinco irmãs (com idade entre treze e dezessete anos) enfrentando a fase de descobertas, em meio a época da libertação sexual, e toda a rigidez familiar produzindo efeitos devastadoras nas jovens. O drama familiar é iniciado pelo suicídio da caçula durante uma pequena festa no porão de casa, com medo os pais aprisionam cada vez mais suas filhas criando um efeito de enclausuramento irremediável.

Depois de uma estréia no mínimo infeliz como atriz, Sofia Coppola voltava ao cinema, agora por de trás das câmeras, dirigindo este filme baseado no livro de Jeffrey Eugenides. A decisão por esta adaptação aponta para uma escolha pessoal e provavelmente muito próximo de sua alçada, a alma feminina e a sensibilidade que a envolve. Num trabalho moderno e extremamente sutil surgem detalhes inovadores, resultado de uma direção ágil e desprendida. Infelizmente muitos personagens terminam mal desenvolvidos, algumas das garotas são meras loiras coadjuvantes de sorriso desolado, apenas Dux (Kirsten Dunst) mereceu um aprofundamento da história (Dunst é a alma do filme, seu sorriso combina perfeitamente com a atmosfera, soube ela captar a essência de sua personagem, suga toda a sensualidade de uma linda jovem que começa a mostrar os sinais de sua libido, era o início da parceria da atriz com a diretora). Se bem que há espaço para o trabalho enxuto e competente de Kathleen Turner e James Woods.

A profunda crítica com intensidade avassaladora a uma sociedade tão moralista e ultrapassada rivaliza com outras cenas, muitas vezes deliciosas e joviais, momentos como o furo da greve dos coveiros são de uma tristeza de doer. Por outro lado há verdadeiras pérolas jovens como os telefonemas ao som de LP’s (deliciosamente românticos), a maneira como os “prováveis” namorados relacionavam-se com as famílias das jovens, o roçar dos braços no cinema (Josh Hartnett vive um personagem marcante), o pé delicado sob a mesa tentando flertar às escondidas da mãe, o beijo surpresa no carro, tantas conotações que remetem a uma época anos-luz da praticidade atual. E a trilha sonora com canções pop da década embalando cada momento com uma afável sonoridade é só outro ponto da ternura e do olhar imprimido por Sofia Coppola, nascia uma promissora diretora.

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