Elogio ao Amor

Éloge de L’Amour (2001 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Nunca vou esquecer, acabei de assistir ao filme de Jean-Luc Godard com a sensação de irritação. Um pouco depois sentia desgosto. Era noite, fui me deitar e achava o filme razoável. Deitando a cabeça no travesseiro e com as lembranças do que havia visto, comecei a gostar do filme, adormeci. Pela manha estava adorando, o filme foi se incorporando, foi sendo digerido, algumas obras carecem uma depuração, um tempo para maturação.

Testemunhos à parte, talvez seja esse o grande filme do Godard em sua fase mais “autoral” e não-linear. Uma mesma música corta o filme, a repetição dos sons delicados causa aumento na intensidade emocional, mexe com o espectador, contagia. Godard cria e recria um quebra-cabeças, solta suas convicções em frases de feito que repetidas ganham ênfase entre sequências separadas por um fundo negro e as palavras “do amor” ou “de qualquer coisa”. Aglutina alguns de seus pensamentos e opiniões, até que se encaixem num “roteiro”.

O diretor Edgar (Bruno Putzulu) deseja realizar uma obra, mas não sabe ao certo se será um filme, uma ópera, uma peça de teatro, nem sequer o roteiro foi concluído. Enquanto tenta encontrar direções discute arte, testa atores. Na procura da atriz ideal, convida uma faxineira que não aceita o papel. Aqui Jean-Luc Godard é ousado, seu cinema autoral cheio de referências artísticas parece efervescer a cada momento. Bresson, Matisse, Delacroix, Max Ophuls, são gênios das artes, influenciando esse jovem diretor à procura de um rumo, de uma atriz, de um amor perdido.

Para Edgar, jovens e velhos são óbvios, é nos adultos que ronda o mistério da vida. São pequenos detalhes que nos oferecem temporalidade, como um carro ou um pôster de Matrix nos cinemas. Dois anos antes encontramos esse mesmo diretor, dessa vez colhendo informações para uma cantata sobre a Resistência na Segunda Guerra. Ele entrevista um senhor idoso, na mesma casa agentes norte-americanos tentam selar um acordo para transformar em filme a passagem de um casal pela mesma guerra. A neta discorda, esbraveja, não quer ver a memória de seus avós em mais uma papagaiada melancólica, os mais velhos pensam no dinheiro.

Essa primeira parte do filme é não-linear, cheia de pensamentos vagos e conversas misturadas, um vai e vem de informações de deixar o espectador perdido entre imagens confusas, bem trabalhadas, filmadas em preto e branco e 35mm. Na segunda parte, agora em cores, filmado em digital, Godard põe para fora sua ira a Hollywood. Seu repúdio ao cinema comercial, transforma os agentes em seres arrogantes, discute a nacionalidade autointitulada “americana” (americanos de onde, do México, do Brasil?). Acusa Steven Spielberg de ter deixado a viúva de Schindler passando dificuldades na Argentina, agride a política bélica em momentos como o Vietnã, como Kosovo. Parece dizer o que já foi dito, mas diz com coragem, apontado o dedo a seus alvos.

Os personagens sofrem o estigma do desnecessário, a função deles não é tão clara quanto num filme “convencional”, tudo resulta num exercício imprescindível para o pensamento. Seu filme é pura arte (arte na essência da palavra), muitas vezes parece incompreensível, não é um filme para poucos é para raros.

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