A Ferida – 28ª Mostra SP

De calça jeans e camiseta básica preta, o diretor Nicolas Klotz apareceu antes da sessão, desculpando-se por ter compromisso e não poder discutir com a plateia, ao fim da sessão. Faz o ar engajado e totalmente aberto à conversar, além de muito feliz com o trabalho realizado. Uma senhora, que talvez quisesse treinar seu francês, perguntou ao diretor se o filme era baseado em fatos reais ou era ficção. Ele foi bem honesto, não é uma história real, são histórias que acontecem todos os dias. Para encerrar ele disse algo totalmente pessoal e importante, algo sobre discutir cinema é mais importante do que fazer cinema, se nós não discutirmos cinema, ele perde a razão de existir.

aferidaLa Blessure (2004 – FRA/BEL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A imigração parece um problema insolúvel, agravado de maneira exponencial nesses dias de globalização. Cada dia, mais e mais pessoas fogem de suas terras-natais em busca de uma vida melhor em países “desenvolvidos”. Na África, a situação é ainda mais caótica, com governos ditatoriais e intermináveis confrontos entre militares e rebeldes, fugir aparece como única solução. A miséria é apenas um dos problemas. O diretor Nicolas Klotz mira suas lentes num contundente filme-protesto sobre a imigração que se tornou a praga do continente europeu, carregado pela herança da culpa.

Um grupo de congolenses desembarca num aeroporto francês, solicitando asilo político. As cenas são chocantes, trancafiados num cubículo, sem janelas, os imigrantes são tratados como animais. Horas de tratamento desumano, passam por inúmeros procedimentos e revistas, até serem deportados a seu país. Desesperados, se agarram em qualquer coisa, enquanto policiais os colocam à força em ônibus. Sequencias lamentáveis de um horror aterrorizador.

Novamente outra luta para embarcá-los no avião, a aflição e luta para não voltarem é tamanha que o ônibus, trazendo os passageiros comerciais, chega, e alguns congolenses, mais arredios, terminam por não embarcar. É a luta pela sobrevivência. Cansados, feridos, ultrajados, por ironia do destino, conseguem entrar na França. Venceram essa batalha?

Tem início uma nova fase de luta, talvez ainda pior, o sonho transforma-se em pesadelo. Não há lugar para dormir, nem emprego, também nada para comer. Invadem prédios abandonados, ajudam-se mutuamente, com o nada que conseguem. Culpam-se por familiares que deixaram, mesmo sabendo que talvez estejam em situação ainda pior. A ferida do título refere-se a (Noella Mobassa), não só a evidente, em sua perna, fruto da violência policial, e da porta do ônibus que a prendeu. A ferida mais profunda fica no âmago, pelo descaso, a humilhação, o flagelo da alma. É a ferida que não quer curar sua tristeza, que não a deixa sair da cama.

Klotz depura suas cenas, sem a menor pressa em cortá-las. Seu ritmo dá o tom exaustivo e desesperançoso, é um trabalho estilístico, elaborado. Pautado em fortes argumentos, com atores amadores que viveram situações semelhantes. Em alguns momentos os personagens comentam, em tom interrogativo, sobre sua situação. Nem me faria necessário, o poder do silêncio é autoexplicativo. No fim, a câmera num caminhão, apontando para o chão de terra, é testemunha dos relatos de um sobrevivente que cruzou diversos países africanos, fugindo e escondendo-se em qualquer buraco para chegar ali. Não se trata de uma história verídica, mas de histórias a repetirem-se diariamente.

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