Machuca

 Machuca (2004 – CHL/ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Como todos sabem, muitos países da América Latina sofreram, durante as décadas de 60-70, com golpes militares que destituíam governos populares, e na base da opressão, administravam verdadeiras chacinas. O mundo ocidental vivia o pavor da disseminação do Comunismo Soviético, e os EUA corriam, por debaixo dos panos, a evitar a proliferação do sistema inimigo seu quintal. O Chile também não escapou dessa triste realidade. O presidente socialista Salvador Allende foi derrubado do poder em 1973, num golpe militar administrado pelo Gal Augusto Pinochet. Era o fim da liberdade e o início do caos. Um governo voltado, exclusivamente, a uma minoria, com a principal preocupação de silenciar dissidentes.

O diretor Andrés Wood era criança à época, e aproveitou essas lembranças para retratar, aquele momento, sob os olhares infantis do personagem Gonzalo Infante (Matias Quer). Um garoto ruivinho, e com ar ingênuo, serve de ligação entre as lentes de Wood e os acontecimentos políticos chilenos que marcaram a transição do governo. Tudo começa quando a escola em que estudava Gonzalo aceita alguns alunos carentes para uma espécie de intercambio social. Dos novos alunos, Pedro Machuca (Ariel Mateluna) torna-se, rapidamente, o melhor amigo de Gonzalo, e é nesse convívio, que o garoto de família rica, passa a enxergar outro mundo. Crianças que não tinham tênis de marca ou bicicletas, onde suas casas não possuíam divisão entre os cômodos exprimidos, e as ruas de terra batida se encontravam às margens do rio.

Para situar a visão infanto-juvenil, o roteiro recheia-se de bobagens desnecessárias, perde-se tempo com brigas e perseguições entre amigos da escola, e outras situações corriqueiras. O tom autobiográfico é claro, e transpor na tela lembranças marcantes em cenas importantes é de uma complexidade que muitas vezes resulta em transposição eficiente. Já o lado desbravador do mundo, que foi incorporado a Gonzalo, é fascinante (mesmo não sendo ele um ator mirim pouco destacado), por exemplo a linda cena das descobertas românticas, com aqueles beijos lambuzados de leite condensado. A participação em passeatas para vender bandeirinhas, a festa em sua casa, tudo não passa de uma grande diversão, que pouco a pouco, acrescenta um mínimo de maturidade ao garoto.

E depois das claras distinções entre as classes sociais chega o golpe militar e com ele as evidências, ainda maiores, dessa distancia social. A violência passa perto do garoto, e na cena crucial (e de forte impacto), o público termina completamente atônito. Brutal e seca, é o momento em que Wood melhor consegue transmitir o clima vivido na época. As movimentações políticas que iniciaram brandas pela narrativa insossa, vão ganhando volúpia, e fulminam na própria brutalidade do sistema, mais uma ferida que não consegue cicatrizar.

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