Tudo Bem

TUDOBEMTudo Bem (1978) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O Brasil dentro de um apartamento. O cineasta Arnaldo Jabor apertou aqui e ali, até colocar uma série de figuras que representariam grande parte da sociedade brasileira, um micro-ecossistema social. Jabor teve a capacidade de alojar, nessas quatro paredes, essa infinidade de personagens, numa ácida crítica social. Um filme que levanta a bandeira da diferença de classes sociais e traz dentro de um lar burguês as delicadezas problemáticas do povo.

Juarez Ramos Barata (Paulo Gracindo) divide seu tempo entre escrever cartas, a um editor de jornal, criticando a situação do país, e ouvir discos com músicas indígenas e sons de pássaros da Amazônia. Por seus três alter-ego percebemos ser um sujeito nacionalista, com ares de poeta, engajado politicamente em suas idéias, e ainda assim proprietário de ideários divagantes. São seus fantasmas que o fazem refletir, relembrar momentos da juventude, trazem a tona o saudosismo que o mantém vivo. Elvira (Fernanda Montenegro), sua esposa, remoe a idéia de que seu marido anda tendo um caso, ela própria inventa os encontros e as características físicas da amante.

Os filhos são a própria classe média, José Roberto (Luiz Fernando Guimarães) é diretor de relações públicas de uma multinacional, já Vera Lúcia (Regina Casé) acaba de tornar-se noiva de um executivo dos EUA. A invasão do Brasil, nessa família, começa pelos fundos. Uma das empregadas domésticas prostitui-se, à noite, para descolar uma grana. A outra caminha para as estradas espirituais dos orixás. A realidade do país realmente invade aqeual casa burguesa quando Juarez inicia reformas no apartamento. Os pedreiros trazem as mazelas de suas vidas para o ambiente, e aquele apartamento transforma-se num caos social.

A primeira seqüência já reprenta bem as intenções do filme, a apresentação de Juarez com seu nome completo funciona com a clara demonstração que se trata de um burguês. Sob a máquina de escrever, ele e suas três visões reclamam da situação econômica da carne, do estrangeirismo, da falta de uma política que apóie a indústria brasileira. Mas é só o começo, Stênio Garcia (no papel de um dos pedreiros) sugere que ao invés de demitir um dos serventes, que seja dispensado o capataz, já que eles conhecem o serviço e não precisariam dele. Seria uma escolha justa, os mais necessitados continuariam trabalhando, mas no capitalismo essa escolha é improvável, pois sem capataz não teria contratação da obra, no Brasil quem ganha mais é sempre o intermediário.

Em dado momento, as divagações vão se repetindo, monólogos fazem idéias abstratas fluírem, e o filme ganha contornos arrastados. A panela de pressão que se tornou o apartamento funciona eficiente para a proposta de sátira. Paulo César Peréiro entra em cena nos minutos finais, numa cena tão hilariante, que não poderia deixar de ficar marcada. No papel de um executivo norte-americano, ele dá a perfeita exemplificação do que chamamos em bom português popular de “embromation”.

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