Quase Dois Irmãos

quasedoisirmaosQuase Dois Irmãos (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Acusar o filme de preconceituoso, não é uma afirmação descabida. A exposição do negro como marginal, enquanto o branco no papel de almofadinha intelectual, salta aos olhos de maneira veemente. Mas vamos resgatar a história, primeiramente. Dois amigos de infância se reencontram num presídio na Ilha Grande, o Brasil vive a ditadura militar. Miguel (Caco Ciocler) é preso político, enquanto Jorginho (Flávio Bauraqui) cumpre pena por assalto a banco. A narrativa divide-se entre cruzar esse momento, a um segundo, em que os dois amigos reencontram-se novamente. Dessa vez, Miguel (Werner Shünemann) é deputado, visitando o líder do tráfico de uma favela, Jorginho (Antônio Pompeo).

Cada qual a seu caminho, ambos estão muito bem financeiramente. Miguel foi visitar Jorginho em sua cela, com mordomias e telefone celular, para lhe propor apoio em um projeto social, que o deputado planeja instaurar na favela, exatamente onde o amigo exerce influência. Mais adiante teremos dados mais explícitos sobre as reais intenções de Miguel, talvez esse ponto passe despercebido como mais um momento realista e corriqueiro da história. Pode até ser, mas pode levantar outras interpretações, essa escolha parece chave para desmistificar segregacionismos. Um filme sobre escolhas? De maneira superficial, num pensamento pequeno-burguês, até que essa pergunta mereceria um sim como resposta. Afinal, os dois tiveram chances parecidas, e tomaram caminhos opostos em razão de suas escolhas. Essas chances parecidas talvez sejam a incógnita que altera toda a equação resultante da vida de cada um desses quase dois irmãos.

Lúcia Murat foi buscar a formação histórica das duas vertentes que comandam o país atualmente. De um lado os presos políticos, que há alguns anos despontam governando o país, e ocupando seus principais cargos (não importa a esfera). De outro, os chefes do tráfico que comandam os morros e fazem suas próprias leis. Vivem quase imunes a lei. A tênue linha que separou Miguel e Jorginho no presídio é a linha da escolha pessoal, o momento em que cada um optou por seu futuro. Mas qual razão levou cada um a fazer sua escolha, ou mais precisamente a escolha de Jorginho pelo crime organizado? A capacidade de liderança seria o segredo, naturalmente cada um optou pelo grupo onde poder se destacar, ter maior visibilidade. Onde suas habilidades poderiam resultar em liderança. No fundo, não passamos de animais querendo comandar o bando, perdemos os escrúpulos.

Quase Dois Irmãos trata de uma visão mais ampla do que a simples formação do Comando Vermelho, a qual faz referência. O final é claustrofóbico, Murat chega a nos meter medo de andar pelas ruas de uma metrópole. Ao som do samba que carrega o ritmo do filme a violência é exposta em pelo. Não posso terminar antes de elogiar Flávio Bauraqui e Antônio Pompeo, cada um em seu momento interpreta Jorginho, dois gigantes em sincronia.

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