Um Só Pecado

 

umsopecadoLa Peau Douce (1964 – FRA/POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O único pecado a que se refere o título teria sido o primeiro impulso da infidelidade. O descuido comprometedor na inexperiência para encobri-lo. Mas não, este pecado não se iguala ao verdadeiro, ao desejo, essa incontrolável vontade de possuir aquilo que os olhos enxergaram. O desejo de Pierre (Jean Desailly) é despertado no elevador do hotel, o olhar penetrante sobre sua presa, a dócil aeromoça carregada de pacotes, que ele já observara no avião. No ápice dessa cobiça, Pierre delicadamente acaricia as pernas de Nicole (Françoise Dorléac) que exausta dorme na cama. Eles já se tornaram amantes. Ele retira a cinta-liga do corpo dela, o desejo já extrapola o tato, a visão, todos os sentidos.

Eles se conheceram numa viagem de negócios dele. Pierre, encantando por Nicole, inventa um pretexto para tomarem um drinque. A vida em casa, com a mulher (Nelly Benedetti) e a filha, andava bem, nada de se queixar. Mas o impulso foi mais forte, e logo Pierre está apaixonado. Talvez François Truffaut tenha sido o mais autobiográfico dos diretores, são inúmeros os filmes baseados em fases de sua vida, expõe-se de maneira vívida. Fico imaginando a sensação das mulheres ao se verem retratadas no cinema, o que essas emoções desencadearam nas vidas a sua volta.

A bandeira brasileira pintada no lado de fora do avião nos interessa, o romance é iniciado em Lisboa, e as pequenas frases em português de funcionários do hotel, ou de um restaurante nos soam muito familiares. Os personagens de Truffaut gostam de discutir a relação, mas não como os de Rohmer, eles categorizam comportamentos masculinos e femininos, lhes interessa o passado amoroso dos parceiros, estão sujeitos a formalidades mesmo a contragosto.

Como trama, o filme não traz invencionismos. É o drama de um triângulo amoroso, e o choque da desestabilização matrimonial. Então Truffaut usa de clichês para formalizar sua obra? Não, esse é o diferencial, seu roteiro é tão crível que parece estarmos ouvindo uma fofoca do vizinho. Truffaut transporta para tela sua vida, e conseqüentemente expõe as relações humanas tal como são, sem maneirismos e mutações. E como na vida, poucas vezes as coisas acabam bem para todos os envolvidos.

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