Cabra-Cega

cabracegaCabra-Cega (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Muito mais que um filme de efeito, Cabra-Cega é um filme de espírito. O espírito revolucionário, as animosidades obsessivo-ideológicas que um isolamento resulta em um idealista. Os anos de chumbo, após confronto com a polícia, Tiago (Leonardo Medeiros) é baleado, e ainda assim consegue ser resgatado por seus companheiros do aparelho. Ferido, fica escondido na casa de um arquiteto simpatizante do movimento.

Rosa (Débora Duboc) faz a ponte com a organização, além de lhe trazer informações é uma espécie de enfermeira. São semanas de enclausuramento, dias fustigantes para alguém ávido em dar sua vida pela causa. É o corpo que não cura, já sua vontade de voltar às ruas não cessa. Sua foto espalhada em cartazes pela cidade, e ele ávido em retornar à luta armada. A mente efervescente se torna sufocante, o consciente de Tiago pira, quase sai órbita. Paranóia, desconfiança, falta de equilíbrio, sua percepção é de que todos o observam, qualquer um pode delatá-lo.

A brisa oferece sensação de liberdade, em momentos como esses, uma pequena abertura na janela, e o toque do vento, no rosto, trazem o revigoramento de libertação, um momento de paz. A subida ao terraço é ainda mais poética, as mãos flutuam pelo ar, o corpo desfruta de cada instante de liberdade. Em momentos de enclausuramento é que se reconhece a importância de poder usufruir dela.

Cabra-Cega não se prende a movimentos políticos, ou discussões filosóficas, nem mesmo a denuncismo. Não que fuja desses temas, mas o filme de Toni Venturi discute o ser humano de maneira mais ampla, o espírito recluso e as explosões que dessa reclusão eclodem. Leonardo Medeiros é de uma lisura extravagante, seu revolucionário tem todas as características básicas, e ao mesmo tempo, em momento algum parece caricato. É como se sintetizasse a figura ideal do oposicionista armado contra a ditadura.

Fernanda Porto é um capítulo à parte, toda a trilha musical é empregada com precisão cirúrgica, e o desfecho apocalíptico, ao som da irresistível versão de Roda Viva da cantora, é tão importante quanto a seqüência quase literal onde Construção é executada. Sim, as músicas de Chico Buarque são personagem importante da trama. Aliás, Construção é uma música altamente cinematográfica, visual que se encaixa perfeitamente ao clima de urgência da ultra-esquerda à época. Um filme de espírito, um filme de explosões, ideológicas, sentimentais, ocasionais.

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