Bom dia, Noite

bomdianoiteBuongiorno, Notte (2003 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O que não me sai da cabeça é o olhar distante e misterioso de Chiara (Maya Sansa). O recurso é usado inúmeras vezes durante o filme, ora soa como indeciso, em outras oportunidades inseguro, normalmente deprimido. Acima de tudo um olhar penetrante, vitrine de seus próprios sentimentos. A história baseia-se no livro escrito pela única mulher que participou desse tenebroso acontecimento histórico, tenebroso pelo crime hediondo, mas também pelas incertezas que até hoje ele sugere.

A história sob o braço feminino do seqüestro traz um olhar de humanidade ao filme, a personagem, que trabalha como bibliotecária numa repartição pública, passa por um momento conflitante. Sonha com diferentes caminhos para aquele seqüestro, discute com um amigo politizado que é contrário à violência. Em alguns momentos, parece ali só para estar próxima do namorado monossilábico, em outros, parece acreditar nos ideais do grupo, mas em instante algum aceita o desfecho trágico, lhe falta coragem.

Em meio a efervescente situação política italiana, um clã do grupo revolucionário de extrema esquerda, Brigada Vermelha, arquitetou o seqüestro do presidente do Partido Democrata Cristão, Aldo Moro (Roberto Herlitzka). A idéia seria trocá-lo por presos políticos, o ano 1978. Foram 55 dias de sequestro, o país mobilizado acompanhava as notícias do caso, o Papa Paulo VI interveio a seu modo, o primeiro-ministro Andreotti não cedeu, e Aldo Moro terminou assassinado.

Marco Bellocchio arremessa o público de pára-quedas no momento político, mesmo com o riquíssimo material televisivo, quem não viveu à época pouco sabe da importância de Moro, e das movimentações políticas que ele liderava. Bellocchio aponta a culpa do final trágico ao governo, transforma os sequestradores em intelectulóides, com um discurso panfletário em favor do proletariado, um bando de inconseqüentes. É mais fácil tratar o tema assim do que mergulhar nos meandros políticos, em todo o mistério que assombra o caso, onde muitos acusam o envolvimento de governantes interessados no sumiço de Moro.

Essa visão parcial do cineasta sugere foco essencialmente ao próprio público italiano, pouco da efervescência extrapola a tela para chegar ao espectador. Mesmo assim, a magia é forte em toda a seqüência do elevador. As pessoas correndo pela escada, cada abertura da porta do elevador assusta aos que o esperavam, e estes fogem instantaneamente. Enquanto isso, você ali sem saber realmente o que há lá dentro. E a trilha com Pink Floyd…

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