Terra em Transe

Terra_em_transeTerra em Transe (1967) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Acreditar que Eldorado é uma metáfora para o nosso país é injustiça com nossos vizinhos latino-americanos. Por isso, alguns nomes de personagens, e empresas, estão em espanhol. Esse é um filme sobre a América, de modo geral, todos os países do continente podem se sentir “homenageados” nesse contexto político-poético, cuja ferina câmera de Glauber Rocha teima em dilacerar, como uma metralhadora incisiva, de críticas diretas, objetivas e subjetivas. Sem meias palavras, ou mecanismo carregados de pomposo eufemismo.

Os personagens desdobram-se em monólogos teatrais. Mesmo em diálogos, olham diretamente para a câmera como se discursassem suas verdades. O poeta Paulo Martins (Jardel Filho), dentro de sua ilusória capacidade de fazer política, agoniza enquanto relembra sua trajetória na política, que está intimamente ligada a alguns figurões do governo. De um lado o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran), melindroso político, usa Deus como arma para angariar votos, quando apenas idolatra seus escusos objetivos, normalmente ligados aos de uma poderosa empresa.

De outro lado Filipe Vieira (José Lewgoy), o governador populista, que prometeu mundos e fundos, ao povo, e depois os despreza como nos desfazemos das migalhas. Os líderes populares e suas retrógradas ideologias, teóricas e démodé. Há ainda a figura do multi-empresário Julio Fuentes (Paulo Gracindo), o próprio retrato da burguesia, dono de quase toda Eldorado, e incansável por mais dividendos. Conchavos são expedientes necessários quando se sente acuado.

É a luta do rico contra o mais rico. O poeta quer aliar suas palavras com a política, mas naufraga porque elas caminham em direções opostas. Assim como o povo que agoniza em suas pobres terras, e que sofre barbáries constantes. É desse transe que fala Glauber Rocha, seu filme pulsa urgente, línguas afiadas declamam textos ricos, sob tantos aspectos, que o mais difícil seria descrevê-los. É um cinema verborrágico como nunca se viu, delirantemente perturbador em sua essência, tal qual a realidade que aborda. Entusiasmado, em sua paixão, pela relação público/filme, e em tudo o que ela pode despertar. Glauber não via o futuro, apenas compreendia por demais o presente, pena que nada mudou nesse tempo todo, com ou sem ditadura.

 

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