Mondovino

mondovinoMondovino (2004 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Todos na sessão aguardando o início de um documentário sobre vinhos. De repente, o que aparece em cena são nordestinos, catadores de coco, com aquele jeito genuinamente brasileiro. O entrevistador, com um português gringo, pergunta a um desses catadores se era possível fazer vinho de coco. “Vinho não, só suco”, responde o rapaz em sua tola sabedoria. Mais no final do filme, as atenções voltarão a essa região brasileira, o casal Isanette Bianchetti e Inaldo Tedesco representa, em sua simplicidade, a novíssima produção de vinhos na região do vale do São Francisco, que começa a garimpar respeito internacional, ganhar volume e se destacar. Principalmente pelas numerosas colheitas durante o ano, e claro pela qualidade de sua uva e de seu vinho.

Ao invés de comprar requeijão no mercado, hoje você encontra “especialidade láctea”. Margarina tornou-se “creme vegetal”, esses são apenas alguns exemplos, é só verificar os rótulos e recordar-se do sabor desses produtos antigamente. Efeitos da globalização? Sem dúvidas, alta tecnologia e redução de custos estão trazendo resultados como esses. A indústria vinícola sofre desse mesmo mau, pelo menos essa é a luta encampada por pequenos produtores de vinho de terroir, franceses e italianos.

Com todas as letras, alguns desses tradicionais produtores acusam a família Mondavi (produtores da Califórnia), e o consultor Michel Rolland, de produzirem vinhos descaracterizados. Espalharam-se por mais de duzentas vinícolas ao redor do mundo, obtendo sucesso comercial e produzindo vinhos praticamente idênticos. Essa teoria ainda contaria com a participação do mais renomado crítico da área, o norte-americano Robert Parker que daria notas altas (propositadamente) aos vinhos produzidos pela dupla Mondavi-Rolland.

Entre a simplicidade, bom-humor e um amor incondicional pela artesanal produção desses vinicultores, e a arrogância e presunção burguesa das entrevistas de Michel Rolland, fica difícil não tomar partido dessa teoria da conspiração. Ainda mais, se levarmos em conta, essa tendência de empurrar ao consumidor produtos modificados que começam a perder sua identidade. Provar essa teoria é improvável, ainda mais que quem assiste não está bebendo os vinhos, para poder comparar marcas. O fato é: há uma guerra político-comercial nesse milionário mercado, onde os pequenos apelam a suas raízes para não perderem espaço.

O documentário de Jonathan Nossiter surgiu como surpresa de última hora na competição principal de Cannes, e mostrou porque a seleção o encaixou rapidamente. Rico por não se prender exclusivamente a essa discussão política, Nossiter divide o tema com pequenos detalhes desse mundo vinicultor, como os cães presentes em todas as fazendas. O próprio crítico Robert Parker demonstra sua paixão por eles em cada canto da casa. Nossiter também viaja até a Argentina, e flagra a petulância de alguns contra os paupérrimos e simplórios indígenas, que mal conseguem comer com os ganhos de sua produção, e ainda são acusados por concorrentes locais de povo sem ambição.

Mas é a cultura familiar, a fazenda que passa de pai para filhos, e essa relação de choque entre o tradicional e o novo que resgata a globalização que não perdoa nem os lares. “Um bom vinho é noventa por cento transpiração e dez por cento inspiração”, diz o filho; “Ah isso é clichê para os jornalistas”, retruca o pai. A filha que trabalha na concorrência acusa os patrões de venderem duas marcas diferentes e apenas trocarem os rótulos, e o consumidor bobo deve estar tomando uma taça e discutindo qual deles é o melhor, o mais frutado, com notas de carvalho…

 

Curiosidade: Por motivos profissionais, no início da semana, mantive contato telefônico com a produtora de vinhos D. Isanette que aparece no documentário, de uma simpatia e atenção tal qual a visto nos cinemas.

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