Irmãos

Publicado: junho 1, 2005 em Uncategorized
(Son Frère, 2003 – FRA)

No breve relacionamento que se sucede entre estes dois irmãos, em momento tão dramático na vida de um deles, tem-se uma perspectiva diferente (e profundamente realista) do convívio familiar. A famigerada harmonia é quase uma lenda cultivada por raros lares, o que se tem em grande parte das famílias são fissuras, mágoas profundas e um isolamento apaziguado apenas em encontros rotineiros e forçosos.

Numa discussão Luc deixa bem claro o porquê de estar assistindo ao irmão enfermo, diz-lhe sem meias palavras que o ajuda por ter sido procurado e que qualquer um teria feito o mesmo. Vai além, deixando a entender que aquele gesto não significa perdão por mágoas passadas, Luc oferece ajuda mas pretende manter distanciamento de um maior apego fraternal. Thomas (o mais velho) sofre de uma raríssima doença no sangue que diminui sensivelmente sua contagem de plaquetas e qualquer momento pode sofrer uma hemorragia fulminante.

Luc é homossexual, seu irmão não. Fica bem claro que parte do problema, que os deixou completamente afastado durante anos, está relacionado a sexualidade. Mas reitero, é apenas um dos fatores, uma desunião familiar é construída de diversas mágoas. Luc é observador, abdica de coisas importantes da vida para amparar o irmão, como se aquela fosse uma fase importante de amadurecimento desse jovem de pouco mais de trinta anos.

Patrice Chéreau (A Rainha Margot/Intimidade) filma o incomodo, sua câmera tremula busca ângulos não-convencionais, esparsos diálogos enquanto a nuca é focada, ao fundo o céu, o mar. Muito presente é o silêncio, contemplativo, oferecendo sensação de amplitude. Chéreau coloca o público dentro da doença, estamos alocados naquele quarto de hospital, ouvindo os murmúrios de dor do convalescente. Acompanhamos a depilação preparatória para uma cirurgia, um desmaio repentino. Tudo muito lento, sofrido, extremamente incomodo, indigesto.

É esse efeito que Chéreau almejava, seu filme não discute nada, não guarda segredos mirabolantes ou reviravoltas triunfais. O cineasta se reserva ao humanismo, apenas filmando o sofrimento humano, a dificuldade em compreender e tampouco perdoar. A fragilidade do corpo está ali presente, em certo momento você deixa de ser senhor de seu próprio corpo para tornar-se mero passageiro. Uma única canção quebra o silêncio, Chéreau usa tanto este artifício como a fotografia a seu favor, sequer permite sombra de pieguismo, quem procura arroubos de emoção escolheu o filme errado. Lento, indigesto, digno.

Thomas (Bruno Todeschini) Luc (Eric Caravaca)

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