A Noiva Estava de Preto

Publicado: julho 20, 2005 em Uncategorized

(La Mariée Était en Noir, 1968 – FRA/ITA)

Ao fim da celebração os noivos (agora casados) saem triunfantes pela igreja, seguidos por seus convidados. Ao chegarem às escadarias ouve-se um tiro, o noivo é atingido fatalmente, bem ali na frente de sua recém-esposa, familiares e amigos. A multidão em choque, estarrecida com o fato. Passado algum tempo, Julie ainda não digeriu a morte de seu amado, tenta o suicídio, mas é contida a tempo. Decide vagar pelo mundo, ou melhor, decide vingar-se daqueles que terminaram com sua vida.

François Truffaut está muito mais preocupado na caracterização dos personagens do que no suspense em si, as mortes não se tornam mistificadas por grandes cenas ou climas de tensão supremo. Ao contrário, há seqüências singelas, bem arquitetadas, mas ainda assim singelas. A noiva em questão tem cinco alvos, lentamente será explicado ao público os fatos que cercaram a morte de seu noivo. Mas em cada um dos cinco alvos Truffaut descarrega atenção para climatizar o mundo desses personagens, há o político burocrata, um estelionatário, um artista, não importa. Julie Kohler mergulha na realidade de cada um, preparando lentamente sua vingança, atingindo seus algozes nos pontos mais críticos de suas personalidades.

É essa outra maneira de focar o gênero que mais ressalta no filme de Truffaut, sua direção continua leve e flutuante, o humor característico e ainda assim encontra maneiras para desfilar um suspense. Truffaut traz o gênero para dentro de seu cinema e não o contrário, apenas um cineasta seguro de si conseguiria essa liberdade sem prejudicar o resultado. E as coincidências dentro de sua filmografia permanecem, um mesmo pôster usado num outro filme seu com uma mulher dentro de vagão de trem é utilizado. Dessa vez Truffaut foca pouco nas belas pernas femininas, mas vai buscar algo mais excêntrico, um de seus personagens apaixonados gravou o roçar das meias de seda enquanto sua amada cruzava as pernas.

Jeanne Moreau é audaz, consegue uma mistura fabulosa de mulher fatal, determinada, fria e calculista. E também de mulher delicada, frágil, inocente, doce e amável. Uma série de conflitos dentro de uma mesma personagem que jamais hesita em seus planos. Uma assassina com classe. A Noiva Estava de Preto é mais um belo exemplar de um cinema que não existe mais, onde o conteúdo é muito mais importante do que a preocupação com o espetaculoso.

Julie Kohler (Jeanne Moreau) Coral (Michel Bouquet) Corey (Jean-Claude Brialy) Fergus (Charles Denner) Bliss (Claude Rich) Morane (Michael Lonsdale) Delvaux (Daniel Boulanger)

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