Mostra SP – Dia 5

Publicado: outubro 29, 2005 em Uncategorized

O dia começou cedo com a sessão de Inquietude, até aqui a mais vazia que peguei, o cara do meu lado cochilou uns 3 minutos, nada de espantoso num filme de Manoel de Oliveira. Já Dumplings tinha casa cheia e presença de Marilia Gabriela com o filho. Já no fim da noite um diluvio caindo em SP até que eu chegasse para a sessão de Caché, filme mais aguardado por mim durante o ano, e confirmou as expectativas, disparado o melhor da Mostra. Do meu lado um casal assistia, ele compenetrado e ela desanimada, no mesmo instante que os créditos finais subiram a garota exclamou irritada: “Que merda de filme!”.

Caché (Caché, 2005 – AUT/FRA/ALE/ITA)

Instigante e intrigante. O leve incomodo na barriga persiste desde a cena inicial quando os intermináveis créditos iniciais aparecem enquanto a câmera focaliza ao fundo a porta de uma casa, ao fim dos créditos descobrimos que já estamos no filme e nem percebemos, aquela imagem se tratava de uma fita gravando a casa dos protagonistas. Fita essa misteriosa que foi entregue junto a um desenho de um garoto cuspindo sangue.
Georges é apresentador de um programa de TV e sua esposa Anne trabalha numa editora, como mesmo Georges diz a sua mãe, ele está bem, sua esposa está bem, o filho está bem, portanto levam uma vida sossegada, classe média alta e todo o requinte que essa situação lhes proporciona. A fita traz o sentimento de estarem sendo vigiados, princípio de desestabilização pessoal, e é só o começo já que outras fitas virão, com mais pistas e uma história que remete a um passado que Georges teima em esquecer.
Michael Haneke (A Profesora de Piano/Código Desconhecido) é meticuloso, cada tomada é pensada no intuito de instigar, em momento algum o diretor permite um refresco ao público. A fotografia de Christian Berger auxilia muito, um trabalho primoroso entre luz, sombra, ambientes claros e escuros. A engenhosidade do filme de Haneke é extraordinária, só ao final você é capaz de encaixar as peças e compreender que o filme é todo centrado no preconceito, mais precisamente na relação entre franceses e argelinos. Haneke deixa uma crítica ácida à sociedade francesa, culpa-a de até hoje não se arrepender de atrocidades cometidas, mas Haneke faz isso de maneira tão sutil, mas tão sutil que quase passa desapercebido.
Há momentos gloriosos, algumas cenas inesquecíveis, um Daniel Auteuil esplendidamente comedido nos agracia com cenas como na cozinha enquanto pega os frios para um lanche, ou a mais que instigante cena do elevador onde pelo espelho observamos as reações pulsantes dos personagens. Mas há também Juliette Binoche, e com ela outro banho de interpretação, algumas discussões entre o casal possuem verdades tão profundas e tão bem interpretadas que se estivesse em casa repetiria algumas vezes cada cena.
Haneke faz de Caché um filme impressionante, negamos tudo aquilo que nossos olhos estão vendo até o ultimo momento, assim como negamos tudo que pesa sobre nossos ombros mas não nos incomoda no dia-a-dia. Há três ou quatro passagens, pequenas frases que fazem toda a diferença no filme. Caché é um filme onde não se pode piscar um segundo.

Georges Laurent (Daniel Auteuil) Anne Laurent (Juliette Binoche) Pierrot (Lester Makedonsky) Majid (Maurice Bénichou)

Inquietude (Inquietude, 1998 – POR/FRA/ESP/SUI) – Nota: 6,0

Manoel de Oliveira (Um Filme Falado/ Espelho Mágico) escolheu adaptar três histórias num filme só, cada qual abordando a inquietude, temos portanto a inquietude da velhice, do ciúmes e do desejo, e a inquietude do amor. Ao mesmo tempo em que é muito fácil notar a mudança de temas, foi tudo esquematizado de maneira tão precisa e uniforme que se encaixam perfeitamente.
Como sempre a força de seu cinema está contido na palavra, e as histórias estão sempre de alguma forma ligadas à arte. Pai e filho idosos discutem se ainda há muito a viver, o valor do reconhecimento que lhes trará a imortalidade. Por mais transloucadas que sejam, as opiniões do pai tem muito mais verdades que as ilusões do filho.
Dois amigos encantam-se por duas admiráveis cocotes, falam delas como damas triunfantes, dilapidam-se em elogios copiosos pelas moças e doem-se de ciúmes ao vê-las com outros acompanhantes. No ultimo ato a jovem Fisalina deseja casar-se com seu amado que é de outra aldeia, por ser um amor impossível decide ela procurar Mãe do Rio, uma espécie de bruxa, oferendo-lhe qualquer coisa em troca da liberdade.
As obras adaptadas são respectivamente a peça teatral Os Imortais de Prista Monteiro, Suzy do livro de Antonio Patrício e A Mãe de um Rio de Agustina Bessa-Luis. A ultima história trata-se de uma fabula, a do meio corre melancólica com os dois amigos lamentando-se de ciúmes, porém com uma visão sóbria da relação entre eles e as duas “damas”.
É no diálogo travado entre pai e filho que notamos a essência da inquietude, as visões opostas, loucura e razão, experiência e sabedoria. Todo tempo o pai afirma ser apenas metade do que foi. Meta do que? Essa é uma pergunte inquietante e Manoel de Oliveira com seu cinema de instigar o pensamento, lento e contemplativo, nos questiona.

ele (Diogo Dória) amigo (David Cardoso) Suzy (Leonor Silveira) pai (José Pinto) filho (Luís Miguel Cintra) Fisalina (Leonor Baldaque) namorado (Ricardo Trepa)

Dumplings (Gaudzi, 2004 – CHI/HK) – Nota: 6,5

A leveza da câmera e o poder das imagens, imensamente distantes e tão bem agrupadas. Fruit Chan (Holywood Hong Kong/Durian Durian) teve o dom de unir esplendorosamente essas duas antíteses, a repugnância de algumas cenas está filmada com tanta delicadeza que consegue até atenuar o que de mais escabroso nossos olhos enxergam. Por vezes é difícil manter os olhos fixos, há cenas mais que fortes, são nojentas mesmo, mas apenas nossos olhos não querem saborear o que Fruit Chan cuidadosamente preparou.
Rejuvenescer, o culto à beleza, cada dia mais se procura dilacerantemente pela fonte da juventude. Dumpling é uma espécie de bolinho, com massa nada crocante por fora e recheio de carne, podendo ser servido de diversas maneiras e com um aspecto não muito agradável. Mei usa um ingrediente secreto no recheio que segundo ela rejuvenesce, enrijece a pele, e a sua é prova cabal disso.
A Sra. Li é uma ex-atriz que deseja reconquistar seu marido empresário e para isso busca nos dumplings de Mei a volta da beleza de sua juventude. O que Fruit Chan nos reserva é a descoberta pouco-a-pouco do que se trata esse ingrediente secreto e as maneiras trágicas para se consegui-lo. Os personagens perdem suas máscaras, mostrando suas facetas mais assustadoras, não há escrúpulos para recuperar a juventude.
Se como disse, a história está repleta de cenas fortes e pouco digeríveis, o diretor requinta tudo com tomadas belíssimas, usa com maestria toda a extensão da imagem. A câmera caminha pelos ambientes, filma o cozinhar da mesma maneira como filma o comer, o desejo, o sexo, o sangue. A completa falta de princípios de Mei é óbvia, surpresa está no que Sra. Li tem a revelar.

Mei (Ling Bai) Sra. Li (Maggie Cheung) Sr.Li (Tony Leung Ka Fai)

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comentários
  1. eu disse:

    exagero. caché não é tudo isso
    ainda mais depois de já ver a pianista e a fita branca.
    tem video-game q faz melhor q isso, construir um final

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  2. Denichan disse:

    Eita! Eu tava nessa sessão da Mostra, de “Dumplings”! Lembro até que quase sentei, sem querer, perto da Gabi… xP Não gostei (acho que foi pelas cenas nojentas que você mencionou). Já “Caché” eu vi num desses “noitões” de cinema e tava com muuuito sono – como tu dissestes, não dá pra ver esse filme desse jeito, né? haha vou alugar só porque você falou tudo isso! 🙂

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