Mostra SP – dia 7

Publicado: novembro 1, 2005 em Uncategorized

Corri para não perder a sessão no domingo de Non ou a Vã Glória de Mandar, consegui chegar dois minutos antes mas o filme fora cancelado. Em seu lugar colocaram Nus, como esse filme já estava na minha programação não pensei duas vezes. Eis que aparece a primeira cena e era identica ao final anterior do mesmo diretor que vi na Mostra do ano passado, a sengunda cena também, opa e mais uma. E não era o mesmo filme, mudaram o título original e o em portugues, ano passado estava como A Ferida, fazer o que já que não dava tempo de pegar outra sessão. Detalhe, o filme é muito, muito bom.
Sessão das 16:00, Palma de Ouro, A Criança. Casa cheia, 20 minutos de atraso, adivinha se o Leon (olha a intimidade, hehe) não estava porali, mas tudo bem. E como a sessão foi concorrida, fila quilométrica, cadeiras colocadas a mais ao fundo da sala e muitos jornalistas como o Luiz Zanin Oricchio, além do cineasta Ugo Giorgeti. E para fechar a noite ainda encarei o gostoso Tickets.

Tickets (Tickets, 2005 – IRA/ING/ITA)

Do singelo ao engraçado, uma simples viagem de trem do Leste Europeu a Roma, tres pequenas histórias pelas mãos de três diretores consagrados. Os personagens não são os mesmos, mas acabem se cruzando pela viagem. Além de uma breve escurecida na imagem, o peso da mão de cada cineasta é altamente perceptivo, tanto no estilo de filmar como no peso dos temas.
Um velho cientista enamora-se por uma atenciosa secretária, passa a viagem hesitando em escrever-lhe uma carta, uma declaração, enquanto acompanha soldados falando inglês e distribuindo patadas, desprovidos de qualquer senso de humanidade. Depois começa o humor e vem impagável nas futricas de uma senhora viajando com um jovem que a acompanha para o funeral do marido e ela deseja a todo custo instalar-se na primeira classe.
Por fim três amigos, fervorosos torcedores do Celtic, viajam para assistir ao jogo de seu time contra o Roma na Liga dos Campeões. Muito amistosos e divertidos conhecem uma família de refugiados albaneses, e um deles ainda acaba perdendo sua passagem, ou foi roubado?
A primeira história é conduzida por Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos/A Lenda do Santo Beberrão) e passa tão singela que fica difícil não simpatizar com aquele velhinho que sente seu coração batendo mais forte. Abbas Kiarostami (O Gosto de Cereja/Dez) oferece humor, não mais que isso. Já Ken Loach (Meu Nome é Joe/Chuva de Pedras) alia uma narrativa altamente bem-humorada com aqueles torcedores excitados com a viagem, com seu time, com a sensação de liberdade; com o drama da imigração e as mazelas de guerras que afligem tantos ovos. A briga pelo ticket, o peso na consciência, o senso de humanidade (que ao contrário dos soldados, sobra aqui), Loach faz de sua história a melhor e encerra muito bem um filme prazeroso.

A Criança (L’Enfant, 2005 – BEL/FRA)

Tem o cheiro e o frescor da Nouvelle Vaugue, o tema lembra bastante alguns filmes de François Truffaut. Só que estamos em outra época, esse tempo já passou. Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (Rosetta/O Filho) filmam como se estivessem na década de sessenta, resgatam aquele movimento cinematográfico maravilhoso, mas o filme nunca chega a engrenar.
Uma mãe muito jovem bate à porta de casa com o seu recém-nascido no colo. A criança do título não é exatamente esta, mas o pai dela, um golpista. Bruno vive de praticar pequenos delitos, furtos auxiliados por crianças. Leva Bruno uma vida sem compromissos, nem a paternidade o assusta, é irrelevante, rouba hoje para comer hoje.
A relação com a namorada azeda quando ele vende o filho para adoção, “não tem problema, fazemos outro”, o filme traça o princípio de um amadurecimento para esse delinqüente incorrigível. Acabou a irresponsabilidade, sua idade não lhe permite agir sem conseqüências.
Engraçado como um recém-nascido passa três horas andando para cima e para baixo, pegando ônibus, tudo deitado num carrinho, longe da mãe (e portanto sem comer) e sem chorar. Ninguém avisou aos cineastas desse absurdo? É fácil planejar um filme com frescor, e esquecer de detalhes tão óbvios e perceptíveis, mas não é só isso que falta ao filme dos Dardenne. Falta-lhe um pouco de inspiração, de vida, um prumo para onde seguir e não pegar apenas uma história ínfima e alongá-la com perspicácia e refinamento.

Bruno (Jérémie Renier) Sonia (Déborah François) Stevie (Jérémie Segard)

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