Cinema Aspirinas e Urubus – Pavão

Publicado: novembro 11, 2005 em Uncategorized

Cinema Aspirinas e Urubus (2005)

Dois homens, duas fugas dos temores que os amedrontam, uma amizade. O ano é 1942, um alemão fugindo da Segunda Guerra Mundial ganha a vida dirigindo um caminhão e vendendo em pleno sertão nordestino um medicamento novíssimo e revolucionário. Leva para aquela gente humilde duas coisas que não conheciam: cinema e aspirina, essa capaz de curar todos os males.
Pelas estradas da vida conhece Ranulpho, um amargo sertanejo, que assim como tantos outros, sonha em ganhar a vida nos grandes centros. A carona vira um pequeno vínculo empregatício para mais adiante se tornar uma tenra amizade com enormes doses de gratidão e muita troca de experiências e conhecimentos de vida. Uma relação que surge robusta, recheada de respeito, mas acima de tudo de cumplicidade.
É um filme vigoroso, narrado o tempo todo sob uma mesma batida uniforme, misturando certa inocência a uma saraivada de simplicidade e delicadeza. Estreante na direção Marcelo Gomes diz ter ouvido essa história há muitos anos, e é tão recheada de tipos tão comuns ao nordeste sem nenhum estereotipo que fica difícil não se encantar a cada situação, a cada personagem, a cada quilometro de estrada que eles cruzam. Realmente é um filme encantador, que conquista o público já em sua primeira tomada flagrando pelo retrovisor a faceta desse alemão perdido naquele mundão de seca do nordeste brasileiro.
Falar de tudo sobre o filme e não falar dos atores é um sacrilégio, João Miguel está sendo elogiadíssimo pelos quatro ventos, mas se esquecem também de Peter Ketnath. Os dois atores encontraram o tom, claro que João Miguel ganha mais destaque pela avareza e humor simples que seu personagem lhe oferece, mas é uma relação tocante, cada um deles não esconde seus temores, seus desejos e sonhos. Está tudo estampado em seus rostos, realçado pelo caminhão verde, pela poeira que se levanta das estradas de terra batida, do calor que quase sentimos de tão bem fotografado que é o filme. Cinema Aspirinas e Urubus é dos melhores exemplos do que podemos produzir, um filme forte e belíssimo e de um humor tipicamente nosso.

Johann (Peter Ketnath) Ranulpho (João Miguel)

Pavão (Kong Que / Peacock, 2005 – CHI/TAI)

De pouco importância tem o contexto histórico nesse drama familiar, está muito mais para a falência da instituição família do que qualquer outra coisa. Mas o filme não degrada a instituição, apenas demonstra que no fundo, no fundo, ela é a base de todos nós e por mais rebeldes e contrários, em algum momento da vida iremos perceber sua importância e voltar a ela com o rabo entre as pernas dando-lhe seu verdadeiro valor.
São três irmãos, um deles muito gordo e com um tipo de deficiência mental. Os dois mais jovens tem vergonha do mais velho, rejeitam-no na frente dos outros, fariam o que fosse preciso para se livrar dele. Já ele é sem perspectivas de vida, mimado pelos pais que não acreditam que possa ter alguma vida independente. Há quase uma divisão, com o filme concentrando-se totalmente na história de cada um deles, demonstrando o jeito de ser, os sonhos, e as perspectivas (ou a falta delas).
O mais velho pretende provar ao mundo que pode, dentro de suas limitações, levar uma vida própria, casar, trabalhar. A garota é uma sonhadora, deseja liberdade. O mais novo é quem mais demonstra a rejeição ao irmão, é mais rebelde, está entre o bucólico e o maquiavélico. Há no filme dois momentos marcantes, os dois envolvendo aves. Um é trágico, relacionado a um ganso durante um jantar. O outro é um desfecho bonito, quando finalmente o pavão aparece na história.
Muito se fala das qualidades técnicas, principalmente pelo reconhecidos trabalhos de fotografia do diretor-estreante Gu Changwei. Sua mão é delicada na condução da trama, as vezes até delicada demais, faltando assim condizer com o que a imagem nos apresenta. Com essas seu filme torna-se melodramático, leve, pouco contundente, por vezes divertido, mas não deixa de ser um trabalho satisfatório. A gente nada, nada, mas sempre acaba morrendo na nossa praia, na nossa família.

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