Violência Gratuita

Publicado: dezembro 1, 2005 em Uncategorized

(Funny Games, 1997 – AUT)

Tinha tudo para ser mais um filme de suspense, como disse tinha tudo, mas não é. Michael Haneke (Caché/Código Desconhecido) nos propõe uma discussão salutar, ou melhor, propõe nada ele acusa. E a acusação é contra o espectador, contra o próprio público. Uma crítica cáustica à cumplicidade do espectador que incentiva mais e mais o aparecimento de novos filmes que incitam a violência de maneira gratuita, sem uma única razão de ser, além de entreter (e lucrar com isso obviamente).
Se não houvesse tanto interesse, não viveríamos sob essa enxurrada de valentões preparados a disparar milhões de vezes durante seus filmes. E mais do que ir atrás desses filmes o público vibra com esse massacre descabido. E o que faz Haneke para confeccionar tamanha crítica? Pois bem, o diretor deixa clara a posição do espectador como cúmplice, dois jovens psicopatas aterrorizam uma família que estava saindo de férias, para sua casa de campo, com jogos psicóticos e violentos. Não há razão alguma para esse comportamento, além do puro prazer em humilhar, em abusar, em machucar, em aterrorizar.
E um desses psicopatas dialoga com a câmera, faz comentários, dá algumas piscadelas. É o pretexto para que tenhamos a sensação de estarmos sentados num sofá daquela sala apenas exercitando nosso voyeurismo, enquanto os dois deliciam-se em destruir aqueles pobres seres humanos. Novamente Haneke faz um filme instigante, o incômodo sai de dentro do estômago, os dois algozes são irritantes. E é exatamente isso que o cineasta pretende, nos incomodar a qualquer custo, para isso ele criou diálogos enervantes, irritantes mesmo, queremos nos livrar daquela cena, daquela situação.
As cenas de violência são cruas, diretas, cirúrgicas, os longos planos sempre aparecem após situações-limites, trazendo mais contundência, criando um espaço para reflexão, dando-nos um respiro. É Haneke destilando seu estilo, um diretor focado em seu objetivo principal, um exercício de direção, de controle não só do que estamos vendo, como do que iremos sentir. Não é filme de fácil digestão, muito menos daqueles filmes que correm tranqüilos como mero passatempo. Discutir a violência gratuita no cinema é bastante complexo, inúmeros serão os detratores, mas Haneke soube muito bem expor seu ponto de vista e desenvolvê-lo, sob uma história de ficção.

Ana (Susanne Lothar) Georg (Ulrich Mühe) Paul (Arno Frisch) Peter (Frank Giering)

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