Pai e Filho

Publicado: agosto 4, 2006 em Cinema
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Não sou de ressuscitar posts, ainda mais que tenho vários filmes para publicar ainda, mas com esse quase milagre que é a estréia de mais um filme de Sokurov nos cinemas (já tinha desistido desse estreiar), me senti obrigado a trazer o texto que escrevi na Mostra SP de 2003. 

paiefilhoOtets i Syn/Father and Son (2003 – RUS)

A primeira cena já desperta polêmicas e atenções; o som de uma respiração ofegante, dois corpos masculinos emaranhados em movimentos de muito carinho. O que pode parecer uma forte cena homossexual não passa de um momento em que um pai assiste ao pesadelo de seu filho. Com um forte apelo poético o cineasta russo Alexandr Sokurov (Arca Russa/Moloch) apresenta a relação pai e filho alcançando os limites do amor.

Um ex-militar ferido em combate reservou toda sua vida para criar seu filho sem a mãe (que morreu quando o garoto era muito pequeno). Essa relação tornou-se muito mais íntima do que o normal, o pai abdicou parcialmente de sua vida, não tem grandes amigos ou buscou novos amores. A relação é tão próxima que a namorada do filho preferiu deixá-lo de tanto ciúmes, mesmo gostando muito do rapaz. O filho segue os passos do pai e estuda para fazer carreira militar, o amadurecimento normal de sua idade começa a afastá-lo do pai, essa nova fase do relacionamento causa muito sofrimento aos dois, como se fossem obrigados a desprender-se de algo contra sua vontade, a demonstração de afeto explícito absorve a solidão sentida. “O amor do pai crucifica e o filho amoroso se deixa ser crucificado” repete o filho em vários momentos.

O diretor busca demonstrar a pureza do amor destes dois homens, mas é impossível não se deixar levar pela malícia que certas cenas possuem, hipocrisia demais acreditar que apenas a conotação poética será assimilada pelas cenas ou então tornam-se elas inverossímeis. Toda a estrutura narrativa foca-se no poder das imagens, abraços apertados e olhares compõem todo o roteiro, que é simplório e poético. Aliados ao uso preciso de uma trilha sonora magistral, baseada em Tchaikovsky e a plasticidade das cenas que borbulham de afeto trazendo sensações riquíssimas ao público. Quer maior demonstração de solidão do que aquela neve cobrindo o telhado?

Sokurov cria com primor uma cena de troca de olhares e uma branda discussão quando o casal de namorados termina a relação, tudo acontece numa janela entreaberta da escola militar que ele freqüenta. Com habilidade impar, os olhos ao mesmo tempo que procuram tentam esconder-se do outro. O poeta Sokurov dominou o cineasta e sua obra tornou-se um pouco abstrata demais. Se a sensibilidade e os aspectos humanos são desbravados com inspiração, a transposição destes elementos para a tela grande apresenta lacunas. Não se pode negar que é uma outra forma de cinema, um outro tipo de narrativa que foge aos padrões, um poema que invadiu as telas.

Pai (Andrei Shchetinin) Filho (Aleksei Nejmyshev)

COTAÇÃO: estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

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