Coisas Secretas

Choses Secrètes (2002 – FRA) 

Há detalhes muito interessantes no filme de Jean-Claude Brisseau, a começar pela mudança de foco que a trama toma depois de transcorrido seu primeiro terço. Aparentemente, teríamos um filme sobre duas mulheres testando seus desejos sexuais, buscando extrapolar limites sempre na ânsia pelo algo mais, pelo proibido, pelo estímulo máximo de sua libido. Brisseau faz desta fase uma breve introdução para algo que seria mais próximo a um clichê, porém nas mãos do cineasta francês, foge desse possível estigma.

Voltamos aos pontos interessantes, há o flerte com Shakespeare (e o seu Contos Proibidos do Marquês de Sade). Há também uma inegável proximidade com a pintura, aqueles quadros que remetem a corpos nus em evasivas câmaras de palácios, a beleza ofegante da mulher e do sexo, a falta de pudores. E para completar, a presença constante de música clássica empregada com muita elegância e requinte, Bach e principalmente Vivaldi.

Com esse conjunto, Brisseau desenvolve seus personagens, numa trama sobre o poder, e o autocontrole para exercer este poder. O sexo sempre está presente, como figura central na personificação do poder. Há aqueles que sabem usá-lo a seu favor, e aqueles manipuláveis. As duas jovens, Sandrine (Sabrina Seyvecou) e Nathalie (Coralie Revel), tramam descobrir a vítima ideal, o amante endinheirado que irá debruçar-se aos pés dessas mulheres. cheias de encantos, irresistíveis, insaciáveis. Encontram o executivo Delacroix (Roger Mirmont), e encontram também um rival, alguém que pode estar a altura de seus desejos e suas tentações, Christophe (Fabrice Deville). Dois homens, duas maneiras de encararem a vida e o sexo, dois comportamentos perante as mulheres.

Já na fase final, a personagem de Nathalie encontra-se perdida na trama, perdeu função, ela mais aborrece, quando surge, do que qualquer outra coisa. Brisseau que tão bem amarrou seu filme, e criou uma atmosfera envolvente e marcante, não conseguiu uma saída melhor para ela. Por outro lado, a maneira como Delacroix é subjugado funciona de maneira desconcertante, Roger Mirmont está espetacular demonstrando toda a desconstrução de um respeitável homem de família vivendo finalmente momentos de felicidade longe daquele engessado estilo de vida. Num telefonema para Sandrine, a câmera congelada em seu rost,o segurando o telefone, e a voz de Delacroix falando sobre seus sentimentos, sobre a situação. Da voz do ator surge o tom de desolação, sobriedade, sensatez, tristeza, se Sabrina Seyvecou não consegue nos emocionar ouvindo, Mirmont faz muito mais que isso só de ouvi-lo.

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