O Crocodilo

Publicado: dezembro 13, 2006 em Uncategorized

O Crocodilo (Il Caimano, 2006 – ITA)

Pelo menos intrigado Nanni Moretti conseguiu me deixar ao sair do filme. Não que a história fosse de uma complexidade incomunicável ou incompreensível, pelo contrário é complexo e direto, certeiro e ofensivo. O que mais me intrigava era a estranheza ao se olhar à obra como um todo. Como se fosse possível olhar o resultado final, como quem olha uma fotografia, e o que os olhos enxergavam era um corpo estranho, desengonçado. E o que intrigava era tentar imaginar o que se passara na cabeça de Moretti, para montar aquele esqueleto sem qualquer uniformidade.
Há uma grande homenagem ao cinema, logo de início aos filmes b, depois citando importantes cineastas e atores italianos, mais tarde com Jerzy Stuhr fazendo um produtor de cinema com primeiro nome homônimo ao seu, chegando a todas as dificuldades para se prosseguir com um filme (captação de recursos, dificuldades com cenários e profissionais, escolha de elenco, falta de verba, inexperiência).
Simultaneamente há o momento delicado na vida pessoal de Bruno Bonomo, a falência de sua produtora, e principalmente o término do seu casamento (momento delicado em que Bruno não consegue aceitar a situação, a separação da mulher e a perda do contato diário com os filhos). Nesse momento ele se aventura em levar às telas o roteiro de Il Caimano, sem saber que se trata de uma crítica direta ao todo-poderoso primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi.
Em tom de comédia rasgada acompanhamos todas essas sagas, há imagens com o próprio Berlusconi no Parlamento Europeu, em momentos hilários e ridículos de um chefe de Estado. A trajetória escusa de trinta anos desse senhor das comunicações que se tornou o maior influenciador de opinião no país, até comandá-lo oficialmente, é assim narrada de forma quebradiça, crítica e ácida. Moretti é muito competente em colocar o filme dentro do filme, voltar para a vida particular do produtor, e ainda criticar ferozmente seu alvo sem que tudo parecesse confuso.
Mas já chegando ao fim a mão do diretor perde o tom, não se consegue privilegiar a comédia rasgada, o drama familiar, o tom político. Moretti busca seus desfechos e só consegue montar um quebra-cabeça torto, desengonçado. Tenta representar sentimentos com a belíssima música The Blower’s Daughter, mas ela não combina com as imagens, com tudo que assistimos até então, seu resultado é artificial, nada envolvente. Depois o próprio Moretti entra em cena de forma feroz, cruel, chega ao ápice da estrutura crítico-política do filme, seu discurso em separado é fabuloso. Mas colocado no contexto, olhando para o filme como um todo, aquilo parece um patinho feio, o humor do filme todo deu lugar a um tom sereno, e Moretti me intrigou por não ter conseguido terminar o que vinha andando tão bem. Inesquecível a audácia de falar tão abertamente de um chefe de Estado no exercício de seu mandato, mesmo achando Berlusconi um monstro, Moretti me pareceu muito mais interessado na eleição que estava tão próximo a fazer um filme coerente e engajado. O engajamento está em seus fins, como encaixar todas as críticas de uma maneira retilínea? Isso pouco importa.

Bruno Bonomo (Silvio Orlando) Paola (Margherita Buy) Teresa (Trinca Jasmine)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s