Barravento

barraventoBarravento (1962) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

 

 

Se eu tivesse assistido ao filme, em seu lançamento, provavelmente teria em mente uma frase do tipo: “esse rapaz tem futuro!”. Tratava-se da estréia na direção de certo Glauber Rocha, apenas um jovem. Ainda não havia a urgência tão presente em seus filmes posteriores, mas existe ali o início de um discurso, a voz que começava a ecoar pelo ar, sem preocupação com as restrições dos que irão ouvir. É Glauber, é dinâmico, é político, é popular e erudito, como o mesmo afirmou “Um ensaio cinematográfico, uma experiência de iniciante.”.

Barravento faz referência a violência, o encontro de ar e mar em momento de transformações. Uma colônia de pescadores na Bahia segue fielmente antigos cultos míticos do candomblé, a atividade da pesca é comandada sob as mesmas rédeas da escravidão. Aruã (Aldo Teixeira) é tido como filho de Yemanjá, aquele que deverá permanecer virgem para proteger aos pescadores.

Voltando de Salvador, Firmino (Antônio Pitanga) rebela-se contra o contraste que seu novo estilo de vida apresenta-se, em comparação a vida pacata do local. Firmino é a voz que Glauber escolheu para entoar suas críticas àquela sociedade, porém o personagem não encontra naquele povo simples, analfabeto e miserável, uma platéia capaz de se envolver com suas idéias. Resolvido a dar fim àquelas crenças religiosas arcaicas (em sua visão), Firmino traça planos diabólicos para desacreditar os líderes religiosos.

Por um lado o folclore e toda a cultura africana tão enraizada naquela vila de caiçaras, de outro a visão cosmopolita de alguém que trocou a pobreza por uma vida levemente melhor na cidade. No meio disso tudo a crendice popular, a religiosidade, e todo seu poder de controle da sociedade. O Barravento está nos fenômenos naturais, mas está também nessa eterna rivalidade entre crendices, o respeito às seitas, a cegueira dos menos favorecidos, as lendas. E a paixão da única personagem branca de todo o filme por Aruã é apenas mais uma das provocações de Glauber.

Comparado a seus filmes posteriores, o discurso é menos enfático, a câmera mais centrada, e os sentimentos menos trepidantes. Parece um experimento do que mais tarde se tornaria um dos diretores com carga mais autoral e características mais próprias do cinema nacional. Glauber começava contestando, capaz de expor sua visão crítica em um assunto tão intricado (a religião e seu poder de controlar as pessoas), e ainda envenenar o próprio caminho que escolheu para desmoralizar essas próprias crendices.

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