O Desprezo

odesprezoO Desprezo (Le Mépris, 1963 – FRA/ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um olhar é determinante. Brigitte Bardot, o spoder do desprezo, do título, está intimamente condensado em alguns dos olhares desferidos por aquele rosto fatal e angelical. Todo o conjunto de traços perfeitos, e estonteantes, a nos deixar embasbacados, como crianças admiradas por tamanha formosura, estão na verdade apenas nos distraindo para que a seguir sejamos estilhaçados pelo poder do desprezo contido naqueles olhos.

O primeiro plano nos insere no cinema dentro do cinema, uma câmera fixa filma um travelling de uma mulher caminhando em nossa direção, enquanto um narrador cita os créditos iniciais, e a seqüência termina com a câmera filmando a câmera. Depois, um corte. Camille (Brigitte Bardot) deitada na cama, de bruços. Completamente nua, a pouco terminara de fazer amor com o marido, e naquele instante estão os dois ali, a contemplar-se, a trocar palavras. Ele diz qualquer coisa, ela pergunta se ele gosta de seus joelhos, de suas coxas, de suas nádegas (oh, que nádegas). A imagem desliza lentamente pela pele dourada, pelo corpo perfeito, pela graça com que Camille passa os momentos pós-êxtase com o marido.

O filme mal começou e Jean-Luc Godard já nos causou paixão às duas coisas que o roteirista Paul Javal (Michel Piccoli) irá perder no decorrer do filme, o cinema e a esposa. Um arrogante produtor americano (Jack Palance) contratou Fritz Lang (o próprio em pessoa) para transpor às telas a Odisséia de Homero. Não contente com o material exibido, contrata o Paul para reescrever o roteiro, um simples trabalho e uma boa grana para quitar o apartamento, uma mudança estrutural na vida.

Não compartilho totalmente dos caminhos femininos sugeridos pela história (adaptação do romance de Alberto Moravia), uma visão um tanto mal-intencionada da mulher. A tradutora é um joguete do patrão, e ainda recebe carícias de Paul como se toda mulher fosse esse objeto libidinoso masculino. As mulheres vendem-se sem pudores, deixam de lados sentimentos por dinheiro, entregam-se ao mais repugnante dos homens e o único fascínio é o financeiro.

Mas o tom machista não diminui momentos como a longa discussão no apartamento do casal, onde em poucas horas expõem-se uma enormidade de desgastes e desprazeres pessoais. Inseguranças, desconforto, mágoa, enquanto decidem sobre o jantar, a viagem ou não a Capri, realmente aceitar o trabalho de roteirista, reformar o apartamento e quem vai ao banho primeiro. Tem-se um desfile de sentimentos trancafiados, prestes a emergir naquele matrimônio. O princípio do fim, o nascimento do desprezo. E ali descobri aquele olhar inebriante que Brigitte Bardot desferiu sem pudor e piedade, dói no peito.

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