O Sol

Publicado: agosto 17, 2007 em Cinema
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Solnze / The Sun (2005 – RUS/FRA/ITA/SUI)

O Japão vive os momentos finais da Segunda Guerra Mundial, o Imperador Hiroito é tido como um mito pela população, um semi-Deus. Atônitos ouvem pela primeira vez sua voz, quando o mesmo discursa no rádio solicitando que o país cesse com os combates. Aleksandr Sokurov nos oferece novamente um filme poderosíssimo, metafórico, contundente. A desconstrução da figura de mais um ditador, de mais um mito. Alguns dizem que essa tetralogia busca humanizar essas figuras tão enigmáticas e endeusadas, quando o cineasta apenas desmistifica, retira-os do pedestal para colocá-los no mesmo nível de seus pares (o que não deixa de ser uma forma de humanizá-los).

Hiroito não é tratado como um ser perverso, megalomaníaco, ao contrário, está muito mais para o indiferente, ao fútil. Enquanto entrega o poder às mãos dos norte-americanos, o Imperador demonstra preocupação com a biologia (sua verdadeira paixão), o país sangrando pela derrota e seu líder buscando consolo em suas plantas, seu casulo para enfrentar situação tão vexaminosa.

Um homem culto e inegavelmente aristocrata, o Imperador encanta-se com as descobertas das novidades vindas do Ocidente, a conversa com o general McArthur (Robert Dawson) é prova cabal de toda sua excelência de etiqueta e verdadeiro desapego aos assuntos de guerra. Fraco, visivelmente derrotado, Hiroito sabe muito bem o que significa aquela derrota, a invasão dos costumes ocidentais numa nação tradicionalista, enclausurada em sua ilha. Hiroito ainda assim não perde a pose, a cena em que empregados fecham as dezenas de botões da roupa do Imperador demonstra a manutenção dos costumes, um mar de futilidades e serenidade num momento de perda, de grande humilhação nacional.

As cenas são curtidas a seu tempo, é um típico filme de Sokurov, a fotografia bela, amarelada, quase sem tom, como se um espelho demonstra-se a alma de Hiroito e do próprio Japão. Issey Ogata é um caso a parte dentro do filme, um ator em momento de esplendor, um fenômeno de recriação, a cada segundo podemos notar a aristocracia, o momento sem-jeito, a alma partida pela derrota, porém a verdadeira personalidade do Imperador exposta com seus anseios e costumes. Hiroito sem máscaras, descolando aquela figura forte e nacionalista que criamos para todos os líderes vencidos, quem disse que todos agem (agiram) assim?

COTAÇÃO: estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

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