Cinema: O Segredo do Grão

Publicado: julho 17, 2008 em Uncategorized

(La Graine et Le Mulet, 2007 – FRA)
Ainda estou digerindo todo o esplendor humilde desse painel rico e inegavelmente significativo que nos oferece o novo filme de Abdellatif Kechiche. Porque não é fácil encontrar num único filme a quantidade de temas, e principalmente a perspectiva leve e profunda de encará-los, cuja urgência atual estejam tão vigentes. Slimane Beiji (Habib Boufares) nos serve de vértice, dele Kechiche instigará a investigação da situação dos assalariados aposentados na França, a imigração, a comunidade árabe e sua representatividade. Isso sem falar na maneira de abordar uma família, não aquelas gélidas, mas um estilo que estamos habituados a encontrar por aqui também, onde todos se intrometem na vida dos outros, onde os problemas explodem, onde o paternalismo sente vergonha por depender dos outros.
Só que o cineasta não reverte tudo isso num drama acachapante, e sim num tom leve de comédia, um sonho de um senhor que perdeu o emprego e resolve abrir um restaurante (abrindo espaço para a discussão da burocracia, da inveja). Só que o prato principal será feito pela ex-esposa (cuscuz com peixe), causando ciúmes na sua atual mulher (assim como a família têm ciúmes do novo relacionamento do pai). Como foi possível perceber, trata-se de um filme de redes complexas, desfile de personagens e dramas, momentos que vão nos relembrar nossas próprias famílias, em outros vão nos incomodar como se sentíssemos na pele as dificuldades (exemplo da nora verborrágica desabafando ao sogro reclamações do marido, o roubo da mobilete) de cada um daqueles personagens que formam esse painel social de uma comunidade que cultiva seus costumes nessa heterogênea nação que se tornou a França.
Os minutos finais são desesperadores, aos poucos pequenos detalhes se mostram bem maiores, o roteiro nos guardava uma tensão inesperada, o sonho que se torna pesadelo, e entre a pasmaceira da indecisão, Rym (Hafsia Herzi) confirma o que já vinha acontecendo ao logo do filme e rouba com propriedade a cena. Abdellatif Kechiche construiu um filme que é a negação da esperança, de uma realidade tão crua que choca, uma proximidade das relações familiares, sociais, do cotidiano de uma comunidade, mas esse sentimento só vem depois, quando começamos a depurá-lo em nosso íntimo.

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