Paul Thomas Anderson

Paul Thomas Anderson and Dainel Day-Lewis

Quando assisti Magnólia, pela primeira vez, fiquei completamente estarrecido, boquiaberto. Buscando compreender detalhes, e pequenas informações complementares, que estão espalhadas pelo filme que nos fazem buscar o algo além da projeção, a conexão com a chuva de sapos, alguma luz para montar o quebra-cabeças. Desvendando, ou não, o enigma, de maneira isolada o filme já é tão estarrecedor, que cada história em si é um pequeno filme, uma pequena jóia da natureza humana, das mazelas que percorrem nossas vidas. Culminando com o “coisas estranhas acontecem” e por não podermos controlar tudo, o inesperado é o que faz da vida a surpresa diária que ela é. Voltando a Magnólia, já fiz revisões, já assisti apenas algumas cenas em particular, não importa, o filme continua poderoso, continuo delirando com o travelling dentro do bar, ao som de Supertramp. Ainda me emociono, e me arrepio, com duas cenas explosivas de Julianne Moore. E tantas outras situações que despertam uma montanha-russa de sentimentos.

O nome ficou marcado na mente, o californiano Paul Thomas Anderson era um cineasta para se olhar atentamente. E hoje, impressiona a solidez de uma carreira com apenas cinco longa-metragens e um cinema autoral, com ecos de Robert Altman, com a altivez dos planos-sequecia de Martin Scorsese, mas com sua visão california da natureza humana, religião, do amor e do sexo. Ora num conjunto de planos e movimentos de câmera que passaram de marca registrada a obsessão cinéfila, ora na repetição de atores talentosos que hoje são grandes nomes do cinema (melhor exemplo é Phillip Seymour Hoffman), o cineasta chegou à envergadura de ter seu filme cogitado ao Oscar, antes mesmo de ser lançado.

jogadaderiscojpgSua estréia promissora foi com Jogada de Risco (saindo de uma espécie de workshop no Festival de Sundance), uma trama policial envolvendo cassinos e esse submundo do jogo, só que de uma maneira paternalista, Anderson esconde a beleza da reparação de um erro do passado, nessa trama que fede a dinheiro de uma forma muito elegante. Ali estava Philip Baker Hall num personagem distinto que com a elegância das tomadas tornava-se simultaneamente glamoroso e humilde, sobrando pouco espaço a um explosivo Samuel L. Jackson, e um pacato John C. Reilly, além da dúbia Gwyneth Paltrow.

boogienightsDali partia para o seu primeiro filme-painel, Boogie Nights o mundo do cinema pornô, entre festas e gravações conhecemos a vida, os problemas, a fama e a desgraça de atores, cineastas, técnicos e demais envolvidos nesse lucrativo nicho cinematográfico. Envolto em um clima positivo de festas à beira da piscina, o que temos são personagens flagelados, tristes, ou que não conseguem lidar com a fama que surge repentinamente. Mark Wahlberg é um astro, bem-dotado, em franca ascensão. Um mundo marcado por solidão, vício de drogas, sonhos, e uma carência familiar. E P.T. Anderson acompanha o desenrolar de tantos personagens prevalecendo a depressão que pontua suas vidas.

magnolia2Depois veio sua obra-prima, novo filme-mosaico, Magnólia é formado por várias histórias que se entrecruzam pela rua que dá nome ao título. Além da proximidade geográfica, há também a proximidade dramática de vidas no limite. Pais e filhos, solidão, sucesso e fracasso, amor, dinheiro, erros e mais erros, que cometemos, e nos arrependemos, e nos culpamos, e esperamos, até o limite para serem reparados. Mas a vida esconde surpresas, o inesperado acontece, e no filme de P.T. Anderson, no momento de maior clímax, quando tudo parece fadado ao fracasso total, surge uma intervenção, um acontecimento, e cada pessoa encontra seu destino, seu fim, um refúgio para sua estrada.

embriagadodeamorQuando aportou pelo gênero comédia romântica, o cineasta quis algo diferente. Encontra em Adam Sandler o protagonista desse romance que foge do gênero. Ele descobre um erro numa promoção de iogurtes, e encontra o amor nos contornos da doce e delicada Emily Watson. E P.T. Anderson nos embriaga pelo êxtase do sentimento que toma conta do personagem central, e ficamos ali anestesiados pela presença constante do azul e vermelho, pela sutileza com que se desenlaça o romance, pela guerra verbal de Sandler e Philip Seymour Hoffman. Pela genuinidade de amor que transcende a solidão, e a timidez de uma forma a quebrar comportamentos pré-definidos e nos refazer como pessoas.

sanguenegroE finalmente a consagração do grande público veio com as inúmeras indicações ao Oscar de Sangue Negro, um filme ambicioso, megalomaníaco, tal qual Daniel Plainview e sua feroz busca por perfurações de petróleo em cada canto dos EUA. Um homem solitário, desprendido de sentimentos a qualquer pessoa, focado em sua meta ambição. Trata-se de um filme de sangue, de crenças, de religião, e do sentimento que no fundo rege a sociedade: ganância. P.T. Anderson quer provar que no fundo, os outros sentimentos só valem quando não estão ferindo a ganância. E dentro de um apuro técnico invejável, o cineasta traz uma narrativa surpreendente, um épico moderno.

Além da beleza de seus planos, de cenas memoráveis e da busca por sufocar seus personagens rumo ao limite, há em P.T. Anderson a exploração da solidão como constante humana, em todos os seus filmes há pessoas solitárias em suas vidas, incapazes de se desprenderem dessa tristeza. O tema pai e filho também se repete, e de formas e visões diferentes, desde o desprezo do pai, ao desprezo do filho, e até mesmo a ressurreição dessa relação. E a obsessão por dinheiro/sucesso/fama também é figura presente, e aqui o diretor não se cansa de alternar situações para comprovar que a humanidade está fadada a viver sob a constante busca por mais, uma forma incessante de manter-se em eterna depreciação. Resta aguardar o que mais P. T. Anderson terá a nos oferecer no futuro.

Filmografia Comentada: 1996 Jogada de Risco | 1997 Boogie Nights | 1999 Magnólia | 2002 Embriagado de Amor | 2007 Sangue Negro

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2 comentários sobre “Paul Thomas Anderson

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