Cinema: Linha de Passe

Publicado: setembro 10, 2008 em Uncategorized

(2008)
linha-de-passe02.jpg
O foco está nas mãos que tremulam a enorme bandeira da Fiel durante um clássico contra o arquirrival São Paulo, corte para as mãos que pedem benção num inflamado culto religioso, o novo filme da parceria Walter Salles e Daniela Thomas começa sob os efeitos do fanatismo, num tom extremamente documental e numa beleza emocionante algumas cenas entre torcida e o clássico chegam no cinema num bom gosto jamais visto. Extremo da zona leste paulistana, uma empregada doméstica (Sandra Corveloni) vive sozinha com seus quatro filhos e grávida novamente. No pequeno universo familiar os diretores traçam um perfil preciso, humano e profundamente honesto de tantas vidas que se repetem ao esmo pela capital paulistana. O garoto que sonha ser jogador de futebol, o motoboy sempre na pendura, o jovem que virou pai antes da hora, o garoto em busca da ausente figura paterna, o delinqüente que se converteu em alguma religião evangélica, o jovem discriminado pelo patrão (tudo bem, alguns destes casos estão nos mesmos personagens).
Nesse microcosmo proposto por Salles e Thomas, o incomodo no estômago vem oriundo de retrato tão fiel de uma sociedade que vive sob o estigma dos sonhos irrealizáveis, de um destino limitado, e a sensação de proximidade íntima surge tanto da abordagem das histórias quanto dos enquadramentos que com planos sempre fechados dá ênfase aos rostos marcados pelas dificuldades incessantes.
Onde os diretores não se saem bem é exatamente no ponto onde deveriam obter a consagração. As histórias se intensificam, e a simplicidade dos cineastas inibe que o clímax alcance o sufocante, o emocionante. As coisas atingem o exasperante e a imagem continua contida, como se Salles e Thomas permanecessem complacentes, incapazes de mergulhar nas profundezas em que seus próprios personagens foram assolados. O que evidentemente não diminui a capacidade dos dois de buscar no cotidiano, personagens (ou pessoas), tão capazes de oferecer conflitos, dores e uma poesia rebuscada. A pia da cozinha entupida é metáfora para aquela família, e torna-se apenas a primeira a ter nova guinada. Um filme de profunda delicadeza.

comentários
  1. gustavo disse:

    extremamente delicado !
    e que belas interpretações, não?

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