Ensaio sobre a Cegueira

Publicado: setembro 13, 2008 em Uncategorized
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Blindness (2008 – CAN/BRA/JAP)

Fernando Meirelles não cansa de ressaltar, com orgulho, o ótimo trabalho técnico da equipe, a fotografia esbranquiçada que traz sensação ao público da cegueira branca do best-seller de José Saramago, e o som extremamente presente que é parte dos olhos dos cegos. De uma fidelidade ferrenha ao texto de Saramago, o filme torna-se morno e peca exatamente nesse ponto. Não seria possível retratar todos os personagens e acontecimentos num filme comercial, porém o descompasso dos dois está na questão moral, o filme não passa de um acumulo de imagens (muito bem filmadas) que contam uma história de uma epidemia inexplicável que assola uma grande metrópole devastando sua população, e trazendo o caótico à sociedade.

Aquele ritmo de parábola narrada por um ancião (como se ouvíssemos o autor recitar sílaba por sílaba) chega ao filme como uma seqüência de ação, que não nos oferece tempo para pensar, para digerir, aquele amontoado de cenas pouco-a-pouco cria uma historia muito bem contada, impecavelmente reconstituída, e morna, porque a mensagem de uma sociedade que libera seus desejos oprimidos, sua ganância ressentida e o egocentrismo primitivo, fica implícita no desejo e não na realização. Mais importante do que colocar na boca da mulher do médico (Julianne Moore) que as roupas estão sujas, apresentar as mulheres no banho da varanda, ou recriar a cena de sexo do médico (Mark Ruffalo) com a garota de óculos escuros (Alice Braga), seria trazer personagens que na dubiedade de suas ações demonstram toda a complexidade que o livro projeta quando tirado elemento tão vital da vida humana.

Quase tudo do livro está lá, mas falta o essencial, e fica claro que Meirelles queria mesmo expor essa urgência da obra, essa crítica social marcante e arrebatadora e por mais que tenha elementos comerciais, fez um filme forte (especialmente na fantástica cena dos cães e a da saída do supermercado), transformou São Paulo (divertido reconhecer tantos pontos da cidade) num local realmente caótico, sujo, feio, desesperador, porém faltou um ritmo compassado em alguns momentos, e que a aflição dos personagens não estivesse só no ritmo do filme, como também em suas emoções.

comentários
  1. Chico disse:

    Acho que é preciso se desvencilhar do livro para ver o filme com os olhos mais livres.

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  2. Michel disse:

    Chico, em toda adaptação de uma obra literária né? E mesmo fazendo isso, continua um filme exageradamente rápido e q não foi capaz de dar voz a seus personagens (exceto o médico e sua mulher).

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