Alexandra

Publicado: setembro 29, 2008 em Cinema
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alexandraAleksandra (2007 – RUS)

Pode-se olhar aos noventa minutos de duração e com incomodo afirmar: Nossa não acontece nada! Não deixaria de ser uma interpretação, já que a octogenária avó que cruza a Rússia até alojar-se numa base militar na Chechênia só para matar um pouco da saudade do neto, não poderia oferecer seqüências ágeis, por exemplo, ou numerosos conflitos.

Aleksandr Sokurov praticamente nos coloca na pele daquela senhora (Galina Vishnevskaya), de andar vagaroso, de necessidade de sentar-se e descansar a todo o momento porque as pernas doem, de sabedoria adquirida pelas experiências de vida. Nunca se esteve tão próximo do exército, de suas rotinas (dormir mal naquele calor, limpar as armas), do dia-a-dia pacato, com sua câmera complacente enxergamos desde as lindas seqüências em que a senhora caminha pela base militar naquele terreno árido de chão de terra batida, até a descoberta de cada alojamento (a sensação de documentário é forte), onde se come, onde se dorme, onde se lavam as roupas.

Trata-se de um filme de laços familiares fortes, avó e neto discutem a família, como toda senhora ela cobra que o rapaz se case, ele escancara que a mãe sempre teve necessidade de um afeto materno. Ela afirma que ele tem o cheiro bom de homem, que todos os homens são maravilhosos.

O maior vôo do filme é o passeio de Alexandra pela pequena comunidade da região, e de forma discreta Sokurov escancara a realidade e traz a tona outro lado do conflito (o que resta depois da guerra, construções e pessoas). Os prédios parcialmente destruídos, em ruínas, a população local vive da venda de artigos para o exército (cigarros, biscoitos, botas) em pequenas barracas pela rua, o que se vê não é ódio, mas uma espécie de consentimento pela realidade. Um garoto afirma que só queria que os russos fossem embora e os deixassem em paz, Alexandra no alto de sua sabedoria diz que as coisas são mais complicadas que isso.

O que o cineasta quer não é criticar esse ou aquele, identificar culpados, seu filme seguindo essa senhora é um documento sobre as relações pessoais, sobre a exposição dessa realidade que se vive todos os dias, sobre os efeitos de uma guerra combatida por jovens imaturos e despreparados em entender a inutilidade daquilo tudo.

comentários
  1. Concordo plenamente com o comentário de Mishel Simões em relação ao filme; e só tenho a acrescentar que outro ponto alto – este inserido no “passeio” de Alexandra pelo que restou da cidade, aos redores da base militar – é, a meu ver, o encontro mais que físico dela com a vendedora, que a acolhe de todas as maneiras possíveis, naquelas condições.
    Naquele vínculo que se forma, tão insolitamente, é possivel contemplar o que de mais sensível pode haver no homem : a generosidade em estado puro. O diretor, com muita habilidade, traça uma relação quase que simbiótica entre a sabedoria, o sofrimento e o alcance da realidade. Aquelas senhoras, de sua simplicidade, alcançaram um nível elevado de compreensão e discernimento entre guerra e povo.É tocante a abordagem.
    O filme é um tanto entediante – e a proposta não foge a isso – mas muito, muito recompensador.

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