Diários da Mostra # 5

A maioria pode achar que como alguém em sã consciência tira férias para gastar a tarde assistindo filmes japoneses da década de sessenta em cópias bem chiadas e deterioradas? Pois bem, gostando ou não do filme, este alguém sou eu. É verdade que durante as projeções até eu vi que exagerei e já estava querendo assistir um Duro de Matar para animar e sentir a adrenalina correr. Nisso já era hora de sair do Cinesesc, cheiro de chuva no ar e não deu tempo, quando vi já estava correndo pela Augusta debaixo de água, só deu para acelerar e chegar ao anexo do Unibanco e agradecer pela chuva porque pude ver a cinco centímetros a linda e simpática Malu Mader que na TV parecia tão alta e imponente e aqui de tênis não era nada maior que eu. O telefone toca, Stela e Andy também se refugiando da chuva do outro lado da rua, toca atravessar o rio Augusta que se formava em duas etapas e todo encharcado falar do assunto da semana: cinema. Depois hora de encontrarmos com a Alê para mais uma sessão, ainda deu tempo de um oi para a Gé. Filme duro, saindo meio traumatizado do cine e correndo para a concorrida e super-bem cotada sessão do português. Ali conheço finalmente o Tiago (o melhor texto da blogosfera), e sentados na poltrona rolou uma pequena mesa-redonda sobre a Mostra que o pessoal da fila da frente ouvia atentamente e um quarto elemento do nosso lado não resistiu e entrou no papo. Na saída conhecer o Filipe Furtado e reencontrar o Bruno, um dia de encontros e reencontros e especialmente de bons filmes, o meu melhor dia da Mostra, parece que ela começou finalmente para mim.
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Fim de Verão (Kohayagawa-ke no Aki) – o retrato do cotidiano da família Kohayagawa marca o penúltimo filme do cineasta Yasujiro Ozu. Cenas basicamente focadas no banal, no rotineiro, diálogos tolos, uso constante do plano contra-plano, Ozu escancara a classe média japonesa das décadas de 50 e 60. Enquanto o patriarca some constantemente para visitar sua amante e a filha bastarda, planeja casar sua filha e sua nora, e administra com o filho a pequena destilaria. São personagens ingênuos, planos ingênuos, e a morte como tema que cresce no decorrer da história. A vontade dos filhos em mudar a empresa, as mulheres que buscam muito mais o amor do que simplesmente os casamentos arranjados, Ozu tem paciência em lentamente construir personagens de características fortes, imersos em cenas singelas e tolinhas.
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A Rotina Tem Seu Encanto (Samma no Aji) – neste que seria o último filme de Yasujiro Ozu a força do cotidiano e da repetição de rotinas é ainda mais flagrante. Um grupo de amigos reúne-se freqüentemente para conversar e beber, planejam casar seus filhos, resgatam amizade com um antigo professor do colégio, uma geração que lutou na 2ª Guerra Mundial e até comemora essa derrota (numa passagem um deles diz que foi bom perderem a guerra e assim é a cultura ocidental a invadi-los e não o contrário). Há uma grande questão fundamental, qual o momento em que os pais devem casar as moças e assim não depender mais delas. O peso da culpa por uma infelicidade, o egoísmo em desejar que elas os servissem e perceber que o tempo delas passou. O tempo é mortal e as decepções amorosas permanecem veladas, tristezas e frustrações. Uma sociedade completamente diferente da atual, uma vida sem conflitos, de desejos reprimidos, de um machismo intrínseco, e continuam os diálogos tolos, o plano contra-plano e uma ingenuidade infantil (prova disso é a relação de disputa entre marido e mulher pela decisão de comprar ou não alguns tacos de golfe).

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3 comentários sobre “Diários da Mostra # 5

  1. hehe deu a impressão que não gostou do genial Ozu ao usar “planos ingênuos”, “diálogos tolos”, etcs
    a complexidade da simplicidade dele é impressionante

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