Sem Palavras

Publicado: março 24, 2009 em Uncategorized

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Sou fã do Los Hermanos e infelizmente cheguei um pouquinho atrasado no show de ontem que pareceu uma reunião por um bom cachê. Dessa forma entregaram um show leve, descompromissado, pouco inspirado e com um gostinho de que o tempo deles juntos já passou. Valeu pela eterna diversão, pela galera que se agitou em Cara Estranho e principalmente O Vencedor. A música eletrônica do Kraftwerk até levantou uns gatos pingados perdidos na multidão, e ofereceu alguma dor nas pernas pelo pouco espaço disponível e pelas horas de espera que se acumulavam pela espera do que realmente interessava. E quando nas exatas 22 horas surgem as primeiras batidas de 15 Step. Pronto, começava o show da minha vida, já podia riscar um dos top 5 da minha lista de mil-coisas-para-se-fazer-antes-de-morrer. A excitação por estar ali fez com que as duas primeiras músicas passassem voando enquanto me dividia entre êxtase e transe. A voz de Thom Yorke alcança tons e nuances impressionantes, havia muitos que não caíam em si, desacreditando o que se passava diante dos olhos. Só a introdução de The National Anthem foi bastante para enlouquecer, cabeças chacoalhando, gritos de interjeição e uma massa de trinta mil pessoas balançando ao som da bateria. O som perfeito parecia um oásis aos ouvidos, “everyone, everyone around here”. Aperitivo degustado, era hora da primeira derrubada no público, e os primeiros acordes de All I Need foram suficientes para uma comoção grupal, o coro de “You’re all I need, you’re all I need” arrepiavam a alma, seu ritmo compassado e sua letra perfeita hipnotizavam.
Voltando no passado Pyramid Song causou delírio com aquela estranha mistura de sons e o vocal inspirado ate a ultima gota de tristeza, Yorke começava seu show particular. A Chácara do Joquey veio abaixo, Karma Police pegou fundo, o coro entoado sílaba por sílaba nessa musica que guarda uma mistura perfeita e milimétrica de letra e melodia. Já não eram arrepios, e sim calafrios, o corpo tremia. A música causou um impacto mais potente do que imaginava, e quando se cantou “I lost myself, I lost myself” não se ouvia nada além de uma multidão excitada, corpo em levitação. Nude ofereceu um segundo para se respirar, Yorke dilacerando-se ao microfone enquanto a gente ali admirando o céu que começava a ficar estrelado (após a leve garoa no meio do show dos barbudos). In Rainbows continuava sendo tocada faixa-a-faixa- e alucinando o público, o palco com poderosos feches de luz alternava-se entre as cores do arco-íris, o telão dividindo-se em efeitos luminosos e close-ups dos músicos parecia perfeito para completar a espetacular Weird Fishes que voltava a emocionar em seu ritmo que empolga por estágios. Vontade de dançar ao ritmo da batida, deixar os braços voarem acompanhando o vocal, permitir o corpo flutuar até o refrão lento, precedido do uhuuuu característico. Na sequencia sem tirar The Gloaming e Talk Show Host e uma paradinha par a um copinho de água por módicos cinco reais. Em Optimisc já tinha certeza de que aquilo era mais um divisor de águas, a vida nunca mais será a mesma depois do Radiohead ao vivo, com fúria gritava “if you try the Best you can, if you try the best you can, the best you can is good enough”. Violão para Faust Arp, sorriso no rosto, certeza dos R$ 240,00 mais bem investidos na minha biografia e a pergunta martelando na cabeça “nossa, o que é isso?”. Quando começou Jingsaw Falling Into Place nessa fase mini-acústico eu queria dançar, arrumar espaço, esquecer que havia tantos desconhecidos ao lado, e só entregar meu corpo ao mantra de batida irresistível. Ao meu lado um cara de cabelo encaracolado, sozinho, perdido, dançava e cantava cada letra, cabeça abaixada, cada nota tocava sua mente, para ele o Radiohead tocava só para si. Idioteque flerta com o show de abertura, só que com uma diferença, ninguém canta como Yorke, “here I’m alive, everything all of the time”. Climbing Up the Walls e platéia calada, Exit Music só intensifica a angustia, ninguém consegue acompanhar, a essa hora já estavam todos babando, admirados, embasbacados, dá para ouvir o cansaço dos músculos, o coração do vizinho batendo sem jeito. Bodysnatchers colocou a galera novamente para cima no final da primeira parte, dança e voz frenéticos.
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O bis foi simplesmente matador, Videotape novamente deixou todo mundo sem voz, ao piano Yorke fazia seu espetáculo, sentimentos em cada palavra pronunciada, público empalhado. De repente delírio, gritos ensandecidos, a música já rolava e gente ainda gritando Paranoooooooooid. Alguns dos minutos mais inesquecíveis, só de lembrar já me emociono, pela fibra do vocal, pela empolgação à volta. E o final então? Todo mundo ensaiou no estacionamento e não me avisou? O coro deixou sem jeito até a banda e fez Yorke voltar às estrofes num dueto com a platéia que não parava de repetir “come on rain down on me”, só quem estava lá para sentir e entender o que foi aquilo, o nirvana da noite. E vocês acharam pouco? Eu não estava nem aí para Fake Plastic Trees, pelo visto era o único porque quando começou me senti num terremoto, eram minhas pernas tremendo, dava gosto olhar nos rostos à volta a emoção solta, foi difícil permanecer de pé, conter o choro (engoli umas três vezes), a emoção queria sair do corpo, extravasar, talvez tenha sido a primeira vez na vida em que minha mente não tenha lido imagens e sim emoções e isso foi algo indescritível, que palavras não conseguem expressar. Pouco importava se alguém ouvia meus gritos de gralha rachada, calafrios novamente, coração dois degraus acima do palpitando, vontade de deitar na grama molhada, braços abertos e berrar a plenos pulmões “It wears me out”. Depois daquilo já poderia acabar (não só o show, poderia acabar o mundo), nem importava mais ouvir High and Dry (que foi pedida várias vezes, ou No Surprises, Nice Dream, Just, Street Spirit). Só que tinha mais, sem nos dar chance a dupla Lucky e Reckoner, principalmente a última estraçalhou com o que restava de corpo e mente, a banda já nos havia catequizado, estávamos sob comando daquele pandeiro, dentro de mim honestamente pedia para aquele momento não terminar nunca, que Reckoner fosse a eternidade. Sons, grunidos, música, me elevavam ao céu.
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Fim do bis, ninguém queria ir embora, a histeria era por Creep, eu já nem me importava, no ouvido da Dri arrisquei que voltariam para mais três, o mega-sucesso, No Surprises (que se tivesse tocado eu morria) e mais alguma. E eles voltaram me surpreendendo com uma baladinha que me desconcertou. Gostava, porém não tinha notado House of Cards como deveria, dentro de mim a sensação de paraíso, onde fica o botão de looping eterno? Que música, que momento, “denial, denial”, puta que pariu mil vezes. Consegui lembrar da Mi que ama essa música, vontade de um abraço com meus melhores amigos que estavam por ali também, mas eles vão me desculpar não dava para deixar aquele lugar tão perto do palco. Depois de alguns minutos de You and Whose Army me deu um gostinho amargo de que tinha errado e não ouviria “no alarms and no surprises”, tudo bem ainda escutava o barulho das nuvens da música anterior. Mas foram alguns segundos porque Yorke novamente no piano, sua cara esbugalhada no telão e um quê de anos trinta (que somente eu devo ter sentido) fizeram a galera sorrir com aquela imagem tão tão weird. Na introdução de Everything in Its Right Place vários gritos de “everything, everything”. Devia ter gente puta porque Creep estava rodando, já pouco importava, eu queria cantar everything, ter uma idéia brilhante que mantivesse aqueles britânicos no palco até os dedos sangrarem e a voz sumir (como a minha que já tinha ido pras cucuias mesmo). Acabou, aplausos, gente indo embora, alguma decepção, cadê? Não me movi, aquilo não ia acabar daquele jeito, não mesmo, um show perfeito, inesquecível, exasperante, não deixa ninguém com um gosto de que faltara a cereja. E não é que eles voltaram para o terceiro bis, e todo mundo sabia o que eles cantariam, só havia uma música no mundo para aquele momento. Depois que as luzes ascenderam e a bateria entrou, eu não sabia mais onde estava, eu não sabia quem eu era, só queria gritar, o mais alto que pudesse, ensurdecer quem estivesse em volta, nada mais importava, “so fucking special, but I’m a creep”. Lembrando agora só chegam alguns flashes, lembro da luz amarela, lembro de berrar como quem pede socorro. São Paulo deve ter acordado em “she run, run, run…”, a essa altura já tinha perdido o senso do ridículo, o mundo não estava acabando? Não (exagero pouco é bobagem), era só a versão mais perfeita da melhor música do mundo, ao vivo, com a melhor banda do mundo, no show da minha vida “I don’t belong here”. A lama, a saída bagunçada, os demais problemas? Que se foda! Quem não se sentiu assim alguma vez?

comentários
  1. Dri disse:

    Fico feliz por ter ficado ao seu lado o show inteiro. Não sei se vc percebeu q estava lá tb!rs

    Curtir

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