Diários da Mostra #2

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Distante Nós Vamos (Away We Go, 2009 – EUA)
Casal na faixa dos trinta anos demonstra fortes inseguranças quando da gravidez do primeiro filho, o temor é agravado quando os pais dele informar que estão de partida para a Bélgica (um mês antes do nascimento). O que os prende naquela cidade? Nada, os empregos dos dois são flexivos, e mesmo no 6º mês de gravidez eles iniciam um Road movie em busca de um porto seguro, do lugar dos sonhos onde eles (donos de tantos sonhos que uma trilogia não seria capaz de contar) possam ver a criança crescer, chamar de lar. Em cada um dos destinos um laço de amizade ou familiar, praticamente um cursinho de vestibular para Burt (John Krasinski) e Verona (maya Rudolph) que não são um casal normal (uns perdidos como ela se refere e atinge em cheio parte do público) apenas querem acertar e só de dividiram esse desejo é prova não só de amor, mas de uma sintonia que faz deles realmente um casal. Sam Mendes segue dissecando seu tema favorito, a família americana (ou aqui o sentido universal), ele já desenvolveu o tema em diversas épocas e classes sociais, aqui com mais leveza que o usual e principalmente com muito mais carinho Mendes vem provar que não se trata de uma instituição falida, que há sim gente com sintonia para buscar a felicidade conectada por laços afetivos. Por mais que a cada novo destino abra-se a porta de mais uma família e com eles todos os problemas, esquisitices e costumes, nada parece contaminar o casal que apenas compara e extrai dos encontros mais uma lição, e segue adiante a busca pelo lugar para chamar de lar. Em Montreal encontro um casal de amigos, a casa repleta de crianças adotadas, o clima de felicidade no ar é contagiante, você quer estar ali naquela casa o resto da sua vida. Num restaurante eles contam o segredo de cada ingrediente para o bolo família, se de perto ninguém é normal aparentemente ninguém é totalmente feliz também. Num dos momentos mais lindos e tristes dos últimos anos ao som de Oh Sweet Nuthin? uma dança triste e sensual e a revelação da tristeza profunda que vive silenciosa naquele casal. Aliás, dessa vez Mendes demonstra capacidade nata em oferecer cenas inesquecíveis e marcantes, seja na banheira com as irmãs chorando as dores da morte dos pais, ou nas promessas do casal na cama elástica (são por esses momentos que a vida vale a pena). Burt e Verona são tudo aquilo o que você quis na vida, mas eles são do jeito deles, você tem que continuar procurando o seu.

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Czar (Tzar, 2009 RUS)
O exército polonês perigosamente invade o império russo lá pelos anos de 1565, o czar Ivan (Piotr Mamonov), o Terrível, beira a loucura em sua desenfreada busca por traidores e pelo delirante nepotismo aterrorizando a população. Caçando aqueles que parecem contrários ao seu governo, vivendo uma relação conturbada com a igreja ortodoxa (a vontade do czar é a vontade de Deus). Ao depor o líder da igreja russa e em seu lugar assumir como patriarca Philip (um grande amigo e conselheiro) o czar não contava com a integridade moral e senso de humanidade do novo líder. Em momentos de crise (e Philip vivia as turras com a polícia secreta instaurava o terror saqueando e atacando ao bel-prazer) e a do império russo era iminente, o confronto crítico não aceito pelo czar leva à caça às bruxas dos religiosos mal-vistos pelo poder corrompido e cego do líder causador do caos, enquanto constrói um parque de diversões para entreter a população. Pavel Lounguine transmite todo esse terror dentro de um épico clássico e quadrado (apenas abusando de cenas sanguinárias), um novelão de tom cinza e negro, enebriado pelas sandices do czar bêbado pelo descontrole de seus acessos de poder.
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O Solista (The Soloist, 2009 – EUA)
A historia do jornalista do L.A. Times que encontrou na rua um mendigo tocando violino (com apenas duas cordas) e dali tirou uma série de reportagens levando-o a sucesso profissional, mas acima disso uma relação fraternal com o esquizofrênico músico promissor a ponto de acreditar que realmente poderia mudar a vida e os destinos daquele homem que em algum momento perdeu o prumo é, sem dúvida, fabulosa. Nas mãos de Joe Wright surge novamente um filme quadradão, um novelão dramático que precisa repetir à exaustão os encontros num túnel entre Steve Lopez (Robert Downey Jr) e Nathaniel Ayers (Jamie Foxx) para alcançar um pouco do efeito dramático almejado, com confrontos repetitivos e cenas em que Ayers entrega-se à música com emoção apaixonada rendem momentos dramáticos tendenciosos e atuações esperadamente ótimas. O filme pega-se em emoções baratas enquanto recupera flaskback resgatando a vida de Ayers até seu ponto de desequilíbrio, e ainda tenta tratar de alguma forma a vida bagunçada do jornalista em fase de separação.
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500 Dias com Ela (500 Days of Summer, 2009 – EUA)
Relacionamentos frustrados têm uma lei básica, um dos dois roeu a corda, cancelou o contrato. O diretor estreante Marc Webb cercou-se de elementos pop (música principalmente, e a trilha é um capítulo à parte) para contar de forma divertida e bonitinha uma história que já no começo o filme intitula como não sendo uma história feliz. Para ficar mais suave e engraçadinha embaralhou a linearidade, brincou com depoimentos frente à câmera, com amigos engraçados e momentos alcoólicos constrangedores. Quem nunca se sentiu como Tom (Joseph Gordon-Lewitt)? Impossível, ele se apaixonou pela minha encantadora sob seus olhos, Summer Finn (Zooey Deschanel) não queria relacionamento sério (trauma do divórcio dos pais). Regras do jogo à mesa (ao público), Webb divide tela, vai e volta no tempo, e conta o começo e o fim desse “namoro”. São várias as cenas apaixonantes, os momentos inesquecíveis (quando o amor está implícito, claro, pulsando sob os olhos desses jovens), Webb mostra-se com grande capacidade de fazer o coração do público bater acelerado como o dos personagens. Só que o roteiro exagera um pouquinho em tudo, no amadurecimento de Tom cheio de cenas que só acontecem no cinema, ou de uma madura conselheira sentimental de 10 anos de idade (mesmo que seja metafórico, não desce). Quem não queria ter um momento como aquele na loja de decoração, ou no carro ao som de Carla Bruni? Isso é amor, isso é o coração batendo descompassado, isso é Tom e os sentimentos que lhe afloram a pele, lhe perturbam a mente. Mas relacionamentos são assim, sem regras, sem velocímetro, de repente temos o clique e é hora de se entregar, ou de desistir, como acontece ninguém explica, mas Marc Webb conta muito bem.

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