Diários da Mostra #8

Tentando recuperar o tempo perdido, porque pela primeira vez foi realmente impossível atualizar o blog pelo excesso de filmes, por hospedar a mãe em casa e pelo tsunami que o trabalho anda provocando. Vamos aos filmes, já que fui obrigado a desistir de 2 dias da repescagem.
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Eu Matei Minha Mãe (J’ai tué ma mère, 2009 – CAN)
Que não venham me dizer que Xavier Dolan aos dezessete anos escreveu este roteiro (e mais tarde ele assumiria a direção, o papel de protagonista e mais algumas atividades) e que não seria este extremamente autobiográfico. Assumindo isso como premissa é irritante a relação mãe-filho com confrontos agressivos, crises histéricas e atitudes de repúdio. Educar filhos é uma arte, e como toda arte é para poucos, pais que perdem o controle, incapazes de impor limites, estão aos montes pelas ruas. Na pele de Hubert Minel o diretor esforça-se em apresentar um jovem seguro de si, dono da razão, e completamente dissimulado no âmbito familiar. A mãe é praticamente um ser desprezível (dentro da sua função materna), como se tivesse desistido e passa os dias esforçando-se minimamente como líder da casa. Entre as aulas e os momentos na casa do seu namorado, Hubert não passa de um jovem descontrolado incapaz de perceber o quanto sua imaturidade o prejudica. E haja histeria, e gritinhos e a vontade do cineasta em causar furor com todo esse impacto irritante (e parece que enganou muitos com esse discurso de jovem rebelde sem causa).

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O Que Resta do Tempo (The Time that Remains, 2009 – PAL)
Novamente no formato de esketches, o cineasta Elia Suleiman resgata valores e memórias do povo palestino, além de demonstrações críticas contra os judeus nessa intensa e incorrigível batalha que parece não ter fim. A história começa logo após a criação do Estado de Israel e dos primeiros confrontos entre islâmicos e judeus na década de 40. Depois o filme pula em dois tempos distintos na década de 70 e aterriza nos tempos atuais. Enigmaticamente não se percebe claramente se uma biografia ou não, os eventos envolvendo uma família (e os planos fixos e repetidos dos cômodos da casa dão dimensão das mudanças através do tempo, além dos eventos tratarem de intolerância e outras questões), que como todas as outras sofre com os acontecimentos políticos, os eventos violentos e a bizarrice em momentos isolados (principalmente militares). O problema é que por mais que as situações e teses de Suleiman (foco total no cotidiano familiar) sejam fortes e sustentadas pelas imagens, o filme desgasta-se pelo cansaço da própria fórmula (além de sutileza imperceptíveis para leigos na questão judeu-muçulmano, como no meu caso) sem falar na presença do diretor que novamente não pronuncia uma palavra e mantém a mesma expressão (falta dela) parva. Como naquela piada, faça cara de feliz, agora faça cara de mágoa, agora de tristeza, e Suleiman apresenta-se sempre com uma ausência de expressão que faz qualquer um subir nas tamancas de raiva. Por isso o filme esvai-se com o tempo, a beleza de suas metáforas (algumas bem diretas) perde-se dentro da arapuca que o próprio Suleiman armou.
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Ela, Uma Chinesa (She, a Chinese, 2009 – CHI)
Mais um desses exemplares de filmes mortos pós-intenção. Se bem que aqui a palidez e estado de “deixa a vida me levar” (por mais que haja coragem nos momentos cruciais) da protagonista, e conjuntamente da proposta do diretor Guo Xiaolu, harmonizam de tal forma que méritos devem ser levantados. Mei (Lu Hang) é mais uma dessas jovens cansadas da monotonia da vida pronvinciana, larga sua cidade aventurando-se na metrópole. Empregos pouco animadores, paixões perigosas, e o destino a leva a Londres onde apanha para se comunicar e conhece dois homens que mudam sua vida. A desesperança está pregada nos olhos de Mei, assim como em cada plano seja na calçada da porta do salão de cabeleireiros onde trabalha, ou nas ruas de Londres naquela sensação de imensidão como se fosse um grão de areia na praia. Só nos momentos de amor que Mei encontra espírito que energize seu ser, fora isso tanto ela como o filme passam por um nada afável e interminável.
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O Dia da Transa (Humpday, 2009 – EUA)
Quase um vídeo caseiro, filmado em digital com a câmera na mão e planos fechados causando sensação de total aproximação com os atores durante os diálogos, o filme de Lynn Shelton primeiramente parece um soft gay. Também pudera, dois amigos heteros resolvem filmar um pornô gay (com eles como protagonistas), o que poderia se esperar? Pois, o filme não é sobre filmar o pornô mas sim sobre a amizade, sobre o contexto em que estava envolvida a idéia maluca, e principalmente as discussões (tipicamente caseiras) com prós e contras, e as conseqüências que tal ato poderia causar. Resumidamente um filme divertido e falado, são diálogos e mais diálogos, propondo o possível espírito aventureiro escondido dentro do amigo casado (Ben, Mark Duplass) e o aparente desapego do viajante sem rumo e sem responsabilidades (Andrew, Joshua Leonard). Entre partidas de basquete, revelações na mesa da cozinha e o orgulho hétero colocado à prova, fica uma questão: promessas em momentos de alto teor alcoólico valem?

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