Diários da Mostra #9

Lágrimas de Abril (Käsky / Tears of April, 2009 – FIN)
Socialistas vermelhos e os broncos burgueses travam a Guerra civil finlandesa em 1918. O cineasta Aku Louhimies assume sem-vergonha alguma o novelão e conseqüentemente todos os clichês que o gênero carrega, trata da história abusando (corretamente) de temas como patriotismo, lealdade, convicção, coragem e por mais surpreendente que possa ser: amor. Demonstra os eternos abusos (no mundo corporativo seria falta de ética) de esquadrões fuzilamento prisioneiros à queima-roupa e um soldado caxias, Aaro (Samuli Vauramo), não medindo esforços na ansia por sua convicção de justiça e um julgamento justo da capturada Miina Malin (Pihla Viitala). Entre excentricidades e belíssimas paisagens o filme é apenas correto dentro de um tema tratado exaustivamente, ainda mais pelo pano de fundo da paixão e dos limites pelo ser amado. Erro crucial é a incapacidade de apontar que não há bons ou maus entre vermelhos e brancos, apenas finlandeses que levaram às últimas conseqüências seus ideais políticos.

A Fita Branca (Das Weiße Band / The White Ribbon, 2009 – AUT)
Estamos na Alemanha pré-Nazismo, o ano 1913, num pequeno vilarejo guiado sob os ensinamentos do protestantismo. As crianças utilizam uma fita branca como sinal de pureza, uma forma de fazê-los recobrar a importância dela. Uma série de graves incidentes petrifica os moradores, todos de caráter aparentemente punitivo. Quem os estaria cometendo? Uma das figuras chaves como o barão, o pastor, o médico (se bem que ele é a primeira vítima quando seu cavalo tropeça num arame esticado perto de sua casa), o professor, alguns dos camponeses, talvez o reitor? A narração em off do professor do vilarejo (com voz mais velha indicando que a narrativa é bem mais tardia do que os fatos relatados) oferece mais que os simples relatos dos fatos, aprofunda-se no modus-operandis da pequena comunidade. Principalmente nas relações familiares, na forma como pais educam (e punem) seus filhos e sob quais exemplos éticos e morais que são regidos essa educação familiar. Michael Haneke consegue transformar todos em culpados, todos em possíveis vilões, dentro de cada segredo residencial há sempre a crueldade pairando sob famílias. Seu estudo do mal (e da conseqüente violência) em sociedade segue atenuante em seus filmes incômodos e altamente suscetíveis à discussão, aqui numa forçosa ligação com o Nazismo, e na gélida câmera que amedronta crianças (e busca o singelo dentro de momentos agudos como na cena do garoto que oferece o passarinho enjaulado ao pai) o diretor não ultrapassa os limites entre projeção e dissabor por parte do público. Ainda assim o silêncio ao fim da sessão, os questionamentos e diversas visões, e a certeza de que toda a manipulação do cineasta não entrega nada além de verdades nuas e cruas fazem do filme algo extraordinário e assolador.

Mau Dia para Pescar (Mal Día para Pescar, 2009 – URU/ESP)
Adaptação de um conto de Juan Carlos Onetti, um agente picareta (autointitulando-se O Príncipe) capitaneia a excursão “frustrada” pela América do Sul de um nórdico lutador de luta-livre que já foi conhecido como o homem mais forte do mundo. Eles chegam a pequenos vilarejos oferecendo 1 milhão a quem agüentar três minutos no ringue com o brutamontes (como toda luta-livre que se preze tudo deveria ser combinado anteriormente). O diretor Alvaro Breschner foge do óbvio tratando dessa relação malandro-decadente apimentada com a obsessão de uma mulher em conseguir dinheiro para bancar seu casamento. O lutador atormentado (Jouko Ahola) tem crises nervosas e somente o som de Lili Marlene consegue recobrar seus ânimos, enquanto Orsini (Gary Piquer) desdobra-se para acertar todos os detalhes do espetáculo (e a coisa se complica quando o lutador contratado desaparece e um verdureiro aceita o desafio). Dono de uma genuinidade melancólica e de doses de humor pontuadas sabiamente, a historia encanta remetendo a um The Westler no terceiro mundo.

Soul Kitchen (Soul Kitchen, 2009 – ALE)
Praticamente um óvni na filmografia de Fatih Akin, o filme trata de um bando de desajustados/fracassados acertando o caminho do sucesso num restaurante que naufragava em dívidas. O proprietário Zinos (Adam Bousdoukos) ainda deprimia-se com a partida da namorada, a trabalho para a China, quando uma série de acontecimentos sobrepujando-se a sua melancolia e problemas físicos com hérnia de disco tomam de assombro sua vida. A soma de tantos ingredientes destemperados (destaque para o cozinheiro pavio-curto) e a escolha de Akin pelo exagero caricaturado resultam num filme altamente digestivo em seu humor debochado e escancarado. Sem qualquer preocupação com pudores, o que vale mesmo é divertir a qualquer custo assim como as noitadas regadas a música e alto teor alcoólico que fazem o sucesso do lugar.

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