Diários da Mostra #10

Publicado: novembro 15, 2009 em Uncategorized

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Ninguém Sabe dos Gatos Persas (Kasi az Gorbehaye Irani Khabar Nadareh / No One Knows about Persian Cats, 2009 – IRA)
Por meio dessa ficção com grande cara de documentário encenado, Bahman Gobhadi nos oferece um pouco da cena indie rock no Irã, ou o mundo underground onde obrigatoriamente é inserida devido a proibição do governo para músicas desse tipo. Tudo deve ser aprovado pela censura, sempre dificultado e impedido. Acompanhamos a romaria de um casal de jovens que almeja montar uma banda e tocar na Europa, não é fácil encontrar integrantes, mas o problema principal não é esse: passaporte e vistos são quase impossíveis e por meios escusos são caros e arriscados (ladainha que já conhecemos na zona abaixo da linha do Equador). O cineasta oferece um filme vibrante com personagens pacatos, determinados e amplamente tranqüilos. Uma saga ingrata, e altamente realista que nos faz mergulhar desde os pequenos problemas como onde ensaiar sem reclamações dos vizinhos, até os ricos da clandestinidade e da perseguição policial.
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Heiran (Heiran, 2009 – IRA)
Shalizeh Arefpour fala da condição dos imigrantes fugidos do Afeganistão sob domínio do Talibã para regiões no Irã. Com objetivo de trabalhar e estudar Heiran é um destes imigrantes, tem início um novelão trágico quando uma adolescente apaixona-se perdidamente pelo imigrante e decide enfrentar os obstáculos e proibições impostas por sua família. Vida de sofrimento, dificuldade de emprego, perseguição e discriminação, mazelas e mais mazelas já imagináveis, tudo narrado de maneira clássica, retilínea, sem grandes invenções e com algumas doses de melodramático (sem exagero). Uma história de amor e persistência, nada que acrescentará e nem que te fará odiar, apenas mais uma história desse tipo.
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Carmel (Carmel, 2009 – ISR)
Parece surgir uma espécie de novo gênero, uma seleta mistura entre ficção e documentário trazendo novos horizontes e rompendo de vez com as barreiras impostas até pouco tempo. Sinais de que num futuro próximo não mais poderemos separar em duas grandes divisões os longa-metragens. Sob narração de Jeanne Moreau seguimos relatos sobre a invasão romana em Jerusalém, dalí em diante Amos Gitai aparecerá diversas vezes em cena com suas memórias de guerra e suas percepções de uma “guerra sem fim”. Sempre pacato, com discurso pacifista, o ritmo lento do filme pode não ajudar, porém as sequencias são de beleza ímpares com sobreposições da imagem do próprio cineasta ou diálogos com o filho que agora faz parte do exército israelense e como todo pai Gitai mostra-se preocupado com a segurança do filho. Carmel é referência ao local onde caiu o helicóptero ao qual Gitai tripulava durante a Guerra de Yom Kippur, enquanto isso a narração segue um segundo tempo na leitura de cartas da mãe de Gitai (que morou em Londres). Um filme irregular e extremamente pessoal, composta de momentos isolados lindos, como na enigmática cena em que um casal pede abrigo na casa de uma senhora durante bombardeios.
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A Guerra dos Filhos da Luz Contra os Filhos das Trevas (La Guerre des Fils de la Lumière Contre les Fils des Ténèbres, 2009 – FRA)
Um dos maiores testes de paciência que o cinema já promoveu, seus 102 min apresentam-se como uma eternidade, realmente intermináveis, a maior dificuldade é manter o foco, caso consiga terá muito de lírico a extrair dessa filmagem de uma peça dirigida por Amos Gitai numa pedreira narrando a derrota dos Hebreus em Jerusalém numa guerra contra os Romanos. Ao centro Jeanne Moreau faz o papel de narradora, no palco de terra batida e andaimes os atores recitam monólogos remontando detalhes históricos de toda a disputa entre os dois povos até a queda dos fortes de Masada. Trata-se genuinamente do registro da encenação, com discursos chamuscados de uma beleza exaustiva.
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Travessura (Tréfa, 2009 – HUN)
Não fosse toda a seqüência final capaz remeter ao espírito moleque de travessuras que ultrapassam limites e chegam à fronteira do perigoso dentro da inocência pueril o filme de Péter Gárdos seria uma tolice desnecessária. Não o é por muito pouco, daria um curta muito mais interessante porque perdem tempo entre a disputa de dois padres (um exigindo uma postura mais rígida na educação dos alunos internados, enquanto outro com uma visão mais liberal permitindo travessuras e brincadeiras levemente ofensivas aos colegas) não é lá argumento que sustente um longa-metragem. Estica-se o tempo com cenas em que os garotos jogam baralho às escondidas enquanto deveriam dormir e alguns até conseguir fugir para a cidade durante a noite (melhores momentos para o flerte adolescente entre um dos internos e a bilheteira do cinema).
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Nova York, Eu Te Amo (New York, I Love You, 2009 – EUA)
De longe a maior das decepções e são n os motivos, primeiro o orçamento e a pompa após o sucesso do antecessor Paris, Eu te Amo, não mereciam histórias tão fracas, mal ajambradas, e que beiram (quando não se afundam) num mal gosto retumbante. Depois ao lembrar que não há cidade no mundo mais filmada do que Nova York, e são tantos filmes que tratam de amor na cidade, que chega a soar patética essa desonrosa homenagem à cidade (literalmente uma vergonha). Outra prova da furada que se tornou a empreitada são os nomes dos diretores que encabeçaram o projeto, sem grandes expressões, alguns talentos emergindo, iniciantes ou desconhecidos. Nem a preocupação (desnecessária) em dar maior unidade ao filme, integrando na mesa de edição as histórias para se parecerem como uma única rodada a sei-lá-quantas-mãos prova necessária (era divertido tentar descobrir o toque de cada cineasta, aqui fica tudo nebuloso, se é que eles têm marcas autorais). E o abuso do sexo, são pelo menos três curtas que o utilizam de forma deliberada, um deles no Central Perk de extremo mal-gosto, prova de que não havia capacidade para apresentar romance e a única maneira de colocar amor na tela era com pessoas transando. Isso sem falar em duas cópia/adaptações de histórias do Paris, resumindo quase nada que preste a não ser micro-isolados momentos como o flerte na calçada envolvendo um falante Ethan Hawke.

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