Arca Russa

arcarussaRússki Kovtcheg/Russian Ark (2002 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

O Hermitage, em São Petersburgo, imponente palácio que abrigava os Czares é hoje um dos maiores museus do mundo. Entre seus longos corredores e câmaras estão expostos toda a sofisticação de uma época monárquica onde a burguesia desfrutou de todos os prazeres enquanto o povo vivia à margem. São três séculos de história, escondidos entre obras de arte e delicados objetos resgatados do czarismo.

Dessa vez o diretor Aleksandr Sokurov ousou em toda a forma estética, seu filme foi constituído sob uma única tomada, não havendo nenhum corte, noventa e tantos minutos de um único plano-seqüência. Os atores entram e saem de cena, e a câmera continua ligada, flagrando esculturas e pinturas, viajando dentro do museu enquanto aguarda até que se abra a próxima porta. Um trabalho meticuloso, perfeccionista, presunçoso também, é verdade, mas acima de tudo cirurgico.

Os figurinos são extasiantes, a fotografia permite que todas as obras sejam apreciadas com total lisura, tamanho grau de beleza e qualidade, o ouro dos talheres, as pinturas renascentistas, as esculturas majestosas e os trajes aristocráticos. Como mestre de cerimônias dessa viagem pelo tempo temos um fantasma diplomata-europeu (Sergei Dresden, em momento de profunda inspiração). Apreciador das artes e profundo instigador do público do museu, o personagem flutua pelos corredores questionando a alma desse país continental e discutindo, com o narrador, representado por câmera e voz (o próprio diretor), além de funcionar como conexão e ajudar no ritmo narrativo.

A cega que aprecia esculturas pelo tato, a senhora que interage dançando com os quadros, jovens que analisam pinturas de maneira superficial, a cena reconstituindo um formal pedido de desculpas do Rei da Pérsia, trajes militares e saraus aristocráticos. O requinte do Hermitage fica impresso pela vagarosa e detalhista lente de Sokurov. A influência européia sob a cultura russa está por todos os lados e apontada com maior veemência quando o fantasma do diplomata destaca os russos como ótimos copiadores. Um berço de história nessa arca que se transformou o Hermitage, desfilamos por diversos momentos históricos e diferentes governantes, aprofundamos os conhecimentos de um país tão intrínseco e de individualismo tão prosaico.

No fim a burguesia despede-se triste, parte do museu sem o brilho ofuscante que a caracterizou, e sem notar as profundas mudanças que viriam pela frente com o fim da Primeira Guerra e a reviravolta da Revolução Russa. O saudosismo poético de Sokurov dá vida a um tempo artisticamente perfeito e socialmente egocêntrico.

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Um comentário sobre “Arca Russa

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