centraldobrasilCentral do Brasil (1998) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Lembro bem de uma das primeiras vezes em que fui à Cinemateca e fui parar numa mesa, com desconhecidos, discutindo sobre cinema. E um senhor começou a falar sobre o filme, que havia escrito um grande artigo acusando-o de deslavada propaganda em prol do governo FHC (o texto não foi publicado, por escolha do próprio autor, segundo suas palavras), que aquele conjunto habitacional do final do filme era o ápice da propaganda governista e etc. Hoje, voltando ao filme após tantos anos, considero que se fosse filmado no governo Lula, imagino que pudesse haver o mesmo tipo de observação, podem aproveitar ainda argumentos como o bolsa família.

Talvez a observação fosse correta, e eu não consiga até hoje capitar esse ar tucano que aquele socialista convicto enxergava. Sob minha ótica, o filme de Walter Salles retrata o momento do país, de maneira genuína, um momento que começou a ser desenhado pelo plano Real e que, com mutações e correções na rota, segue até hoje de forma sustentável (por mais que não haja crescimento sustentável nesse país).

O primeiro terço do filme é arrebatador, a escrevedora de cartas (Fernanda Montenegro), o desejo do garoto (Vinicius de Oliveira) de conhecer o pai, o retrato da Central do Brasil. Há tanta brasilidade ali, tanta poeira e sentido de sobrevivência que só os brasileiros conhecem. Depois começa ao road movie, propriamente dito. Surge Othon Bastos como um caminhoneiro, surgem dificuldades e percalços. Levar o menino ao pai torna-se uma aventura dramática, e Walter Salles narra toda essa estrada com trilha doce e tom de fábula nordestina, com lágrimas por cada quilômetro rodado.

Decepção, esperança, aconchego, Salles continua resumindo a pobreza do sertão nordestino, o culto à religião, tenta incorporar o máximo de elementos possíveis, e consegue de forma genuína. Tantos quilômetros distantes da Central do Brasil, e a realidade é a mesma, uma banquinha na rua escrevendo cartas para analfabetos, que em poucas palavras poderiam ser tão fundamentais a tanta gente. A saga da busca por um pai, que não deve ser nenhum exemplo de vida (e a presença de Caio Junqueira e Matheus Nachtergaele comprovam isso), ainda assim um pai, pessoa fundamental navida de qualquer um.

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