Oscar e as Premiações de Cinema

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Continuo vendo pessoas revoltadas com os vencedores do Oscar, como se o prêmio fosse a interpretação máxima do que melhor o cinema do mundo produziu no ano. Discordo. Com o passar dos anos acabei desenvolvendo uma relação diferente, se tornou mais uma grande reunião social, com amigos falando de cinema, criticando roupas, elogiando filmes, falando a madrugada toda sobre suas impressões, opiniões, e piadinhas noite adentro, enquanto a festa tenta nos divertir e representar esse prêmio máximo do cinema. Dessa forma, eu fico com a festa (que é chata, cafona, longa e cansativa), e não com as escolhas.

Como premiação, o Oscar não me diz nada além de entender as preferências do público americano, resumindo, pouco importa. Ganhou Birdman, que eu considero o pior filme do ano, histérico, irritante e pedante, eu preferiria Sniper Americano e seu american way of life atualizado, ou Boyhood e a consagração do cinema inventivo de Richard Linklater. Mas, não foi assim, os votantes tem suas preferências e a agitação amalucada de Iñarritu saiu vencedor.

Entendendo hoje a dinâmica, quem são os votantes, e todo o processo do Oscar. Alguns podem me xingar, mas fica claro que é um prêmio da indústria, porque os votantes são parte integrante da indústria (atores, produtores, fotógrafos, diretores, editores, e outros técnicos), portanto o Oscar reflete a visão desse grupo de votantes. Claro que por serem os membros da indústria de cinema mais influente do mundo, a premiação tem relevância maior do que qualquer outro prêmio (numa distância sideral), e consequentemente atrai a atenção do mundo. E, é natural que tente refletir-se como o prêmio máximo do cinema, afinal, nós mesmos o colocamos no pedestal. No fundo funciona como o Goya (Espanha), Donatelo (Itália), Bafta (Inglaterra), Cesar (França) e tantos outros. Porém, tomou tamanha proporção que os holofotes do Oscar geram milhares e milhares de dólares a mais de bilheteria, e com os interesses econômicos surgem as campanhas de marketing, por mais indicações e, portanto maiores bilheterias. Os outros prêmios não tem um centésimo dessa força, até porque, a produção desses países é bem menor, a França é um dos poucos países que tem bilheteria de filmes nacionais forte (Coréia do Sul é outro destaque).

Com toda a magnitude do Oscar, a imprensa quer se mostrar ligada, outros prêmios menores querem antecipar o Oscar e assim se apresentarem antenados, ser a prévia do Oscar. Qual o resultado disso? Nos últimos anos o Oscar não tem mais surpresas, porque todos os segredos foram decifrados, os Sindicatos entregam seus prêmios antes,  e chegamos na festa apenas para confirmar a consagração dos que já sabemos serão os vencedores. Não consigo imaginar uma solução para devolver a surpresa que não seja mudar a premiação dos sindicatos, que são fortes, e portanto impossível. Das litas de final de ano, passando por Globo de Ouro, Bafta, Spirit e etc, até finalizar com os Sindicatos, a corrida do Oscar se tornou uma forma de telegrafar o resultado Oscar. Nisso, os Sindicatos são o ponto-chave, seus premiados entregam a preferencia de grande parte dos votantes, portanto, se um filme ganha os prêmios dos Sindicatos, também ganhará o Oscar (elementar, meu caro Watson). Enquanto isso, jornalistas tentam se mostrar influentes e lançam listas de melhores totalmente baseadas nos filmes cujas distribuidoras estão torrando rios de dinheiro em marketing para o Oscar. São 2 meses de prêmios e mais prêmios para os mesmos filmes, as premiações dos EUA entraram num círculo vicioso que parecem vendidas ao sistema, sem qualquer possibilidade de personalidade. Por mais que Sundance, Rotterdã e Berlim ocorram antes do Oscar, ele  marca definitivamente o fim do ano anterior, e o início do próximo quando falamos em exibição no cinema.

Por isso que, muito mais interessantes, são as listas individuais de críticos fora dos EUA, como Cahiers du Cinema, Sight & Sound e tantos outros órgãos especializados (basta encontrar os que mais se identificam com você que pretende ir além do escolher um filme na fila da bilheteria). Estes tem olhares para o circuito de seus países, e os grandes festivais, conseguem assim enxergar o novo, buscar novas experiências e tendências, dar fluência ao hoje e ao amanha do cinema. Obviamente que são listas pessoais, ou de um seleto grupo de pessoas, e representam também influencias culturais, além de preferencias pessoais. Porém, não estão enraizadas nessa necessidade de colar suas opiniões com o Oscar, prever, para assim serem respeitadas. O Oscar representa seus votantes, é um indicador interessante das preferencias dos que fazem acontecer na grande indústria de cinema, mas estão há anos-luz do que de melhor está acontecendo no cinema, além de representarem a vanguarda da vanguarda, completamente alheios à novidade.

Por fim, não pelas escolhas, talvez mais por uma proximidade particular com a cultura francesa, tenho acompanhado mais de perto a premiação do César, que também representa as preferência da indústria francesa, porém numa dinâmica diferente. Distante das campanha inflamada de marketing, o César alia cinema autoral e grandes sucessos populares de bilheteria, e tem seu pilar no Festival de Cannes. Os filmes franceses que são destaque, ou que compõe a Mostra Competitiva, estão sempre entre os indicados. É uma forma de prestigiar o Festival ou provar que a seleção do Festival opta pelo melhor dos filmes nacionais mesmo. Criando assim interesse ainda maior, dos cineastas franceses, de fazerem parte de Cannes, e assim manter a parcela importante do Festival para a indústria local. Este ano estavam lá Saint Laurent, Acima das Nuvens, Timbuktu (coprodução com a Mauritânia que ganhou quase tudo no César), além de destaques como Amor à Primeira Briga (ganhou 3 César). Além da festa ser mais descontraída (do pouco que entendo das minhas aulas de francês abandonadas anos atrás). O César parece representar mais o cinema francês, e menos a influência das campanhas de marketing das distribuidoras nos membros da indústria.

Portanto, assistam aos filmes do Oscar, eles são importantes, vão agradar a muitos, mas encontrem os atalhos para o tipo de cinema que atendam suas vontades. Sejam eles longe dessas premiações, ou dentro dos festivais de filmes mais obscuros e improváveis. Divirtam-se mais, e lembre-se que o Oscar representa muito… para quem quer vender bilhetes de cinema, e nada para quem está à procura do cinema que vá além do apenas contar histórias.

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2 comentários sobre “Oscar e as Premiações de Cinema

  1. Pingback: Oscar 2015 – bora que meu ano não começa só depois do carnaval | :Denichan

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