Perfil: Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval

Klotz_Perceval2469webHá poucos dias foi publicado um pequeno post, intenção era apenas de resgatar os filmes vistos e dar luz à retrospectiva. Este post é mais completo, ainda resgatando aqueles textos, mas dando possibilidade de dividir outros trabalhos desse casal cuja obra é fascinante e plural.

Ao se debruçar, um pouco, na vida de Nicolas Klotz e Elisabeth Percival, é fácil notar que a obra criada pelo casal se mistura integralmente com a vida deles, com seus ideaism, aflições, preferências culturais. Enfim, a visão de mundo deles está impressa em seus filmes. Da relação com o teatro ao jazz, da literatura ao prazer em discutir política, e, sobretudo, na ingenuidade do amor como real esperança de dias melhores.

Foi no teatro que se conheceram, na década de 70. Construindo juntos a carreira e a família (dois filhos, também ligados a cinema e música). Ela assinando os roteiros, e ele assumindo a direção (agora, ambos dividem os créditos de direção). A retrospectiva que passou pelo Rio de Janeiro em 2014, e essa semana foi exibida no Cinesesc, é quase completa, certeza que não por implicância dos próprios autores. Os dois primeiros longas, As Noites Bengali e La Nuit Sacrée não agradam a Klotz, perdemos a chance de conhecê-los.

Nesses filmes já havia algumas das questões fundamentais que formatam a carreira do casal: imigração, amor ingênuo, discriminação, relações humanas. Entre os quatro longas de ficção principais (Paria, A Ferida, A Questão Humana e Low Life), o casal se debruça em filmar ensaios e documentários, filmes experimentais que surgem como ideias a serem incorporadas em próximos longas, ou que ajudam a complementar essa dicotomia entre obra e via pessoal. A imensa vontade de discutir com o público, sempre com simpatia, mas, acima de tudo, com essa proposição de dálogo aberto quase os coloca sob o rótulo que temos dos franceses de: cultos, eruditos, que devem viver de vinho e reflexões intelectuais.

Segue abaixo texto para alguns (infelizmente) dos filmes que foram apresentados nessa retrospectiva, incluindo o lançamento mundial de Zombies, e já sabendo que eles andaram filmando por São Paulo, para o próximo trabalho do casal. Fica a expectativa pela possibilidade de conhecer toda a obra do casal.

brad_meldhauBrad Mehldau (Brad Mehldau, 1999 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Parte da série Jazz Collection, do canal ARTE, o documentário acompanha o jovem jazzista por uma turnê na Europa e EUA. Quase um ensaio, com muita câmera na mão e super-close-up’s, Klotz consegue captar além do músico, seja nas conversas de bastidores (entre cigarros e copo na mão), seja nas gravações de grandes trechos de show. É a possibilidade de imersão na música, na inspiração, e nas inúmeras possibilidades de improvisação. Um jazz filmado entre o caótico e o belíssimo.

 

 

lesamantscinemaLes Amants Cinéma (Les Amants Cinéma, 2008 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O documentário dirigido pela filha do casal, Héléna Klotz, trata dos bastidores da filmagem de A Questão Humana (o filme mais conhecido do casal). A intimidade bruta, desde momentos de se ouvir jazz em casa, na sala de móveis antigos, a toda problemática construtiva do filme, o documentário faz essa criação imperfeita do período de criação. Inseguranças, brigas de casal na sala de montagem, as fragilidades e incertezas do trabalho em grupo, e da própria obra em si.

É intrigante a possibilidade aberta de conhecer ainda mais a intimidade (profissional e pessoal) de Klotz e Perceval, as personalidades individuais e acongruencia no rtimo de trabalho. Ensaios, ideias, bastidores de filmagens, mas, acima de tudo, um documentário sobre dois amantes do cinema, cujos filmes transcendem na própria energia do casal.

 

 

 

3447082_3_7d52_le-vent-souffle-dans-la-cour-d-honneur-ou-les_d3725e05281f13bf9e1c1dbe956c76bbLe Vent Souffle dans la Cour D´Honneur (Le Vent Souffle dans la Cour D´Honneur, 2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Outro telefilme para o canal ARTE, dessa vez a abordagem dos bastidores e os fantasmas do Festival de Teatro de Avignon, porém sob o estilo mais intuitivo e ensaísta, e menos informativo. Klotz e Perceval registram depoimentos de alguns dos principais autores do festival, que atualmente recuperou sua importância no cenário europeu. Cenas de arquivo dos anos 60 (carregadas de teor político, pré movimento estudantil de 68) contrapõem-se ao cenário fantástico, e aos depoimentos da nova geração de autores consagrados.

É um documentário sobre teatro, sobre movimento, sobre espaços, e também sobre política e cultura. Mas, principalmente, sob o teatro em si. O tipo de abordagem permite a fluidez da própria arte, e as possibilidades de absorção de seus aspectos, mitos e fantasmas, numa homenagem reflexiva sobre o próprio teatro e suas vertentes.

 

 

ceremonybrazzaCeremony Brazza (Ceremony Brazza, 2014 – AFS/FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O próximo longa-metragem do casal deve se chamar Ceremony. Este aqui é um daqueles trabalhos que devem estar presentes, foi filmado na África do Sul, parte integrante do projeto Diálogos Clandestinos. Surgiu após o convite para ministrar aulas de cinema no país. Um ensaio bastante abstrato de dança, cultura e encenação. Abre e fecha com um dançarino energético, inquieto, que dança freneticamente contra sua sombra. É uma interessante visita do casal que tanto filmou a imigração africana na Europa, agora ele resgata a cultura local num mergulho da câmera por corpos, formas e sons, como se fosse um daqueles filmes de museu cujas pessoas entram e saem rapidamente.

 

 

Zombies (Zombies, 2008-2015 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os zombies, mas não aqueles que o cinema americano propagou. Enquanto Godard tem se enveredado por ensaios que questionam a forma, e atacam a cultura americana (entre outras coisas), o casal Klotz e Perceval resgata a arte sob a metafórica personificação dos mortos-vivos, que vagam sem rumo pela vida, vão muito além dos vampiros de Jarmusch (Amantes Eternos).

Foram 4-5 noites de filmagem com atores de workshop de teatro ministrado pelo casal. A trilha sonora é composta de uma única musical instruimental (de Ulysse Klotz, outro filho do casal), e acompanha poemas e textos de autores como Allen Ginsberg, John Giorno e Robert Walser. Luzes, cores, e zombies trazendo à tona temas como a violência, ou melhor atrocidades (como na cena alegórica da encenação de um revolucionário morto por um soldado arrependido), ou a sintuosa dança da mulher com um machado na mão (todo sob um vermelho penetrante).

A abstração, o lúdico, a junção de textos, som e imagens nos torna um submarino submergindo sob a rígide dos autores que contemplam a figura dos zombies como a perfeita tradução da atual bárbarie que se tornou a relação humana entre povos nesse mundo caótico de indiferença e desumanidade.

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