Jia Zhang-Ke, Um Homem de Fenyang

jiazhangkeumhomemdefenyangJia Zhang-Ke, Um Homem de Fenyang (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Ao mergulhar em Jia Zhang-ke, na obra e na vida do cineasta chinês, Walter Salles prefere um anonimato criativo. Talvez por respeito, ou a opção de deixar o retrato intacto, sem interferências, deixando assim que Jia seja o fio-condutor da imagem que ele prefere passar de si. É sempre curioso a maneira como cineastas retratam outros cineastas, a mão de Waltinho pouco aparece frente à câmera, como se a viagem à China não oferece transformação ao criador, sendo apenas um retorno do personagem às origens.

E esse retorno mostra o que já se sabia, o quanto dos filmes de Jia tem de sua visão da China, de suas experiências, e do olhar crítico que muitas vezes o afasta das salas de cinema (com tantos filmes proibidos pela censura chinesa). Waltinho segue Jia em longos planos-sequencias por ruas onde foram feitas filmagens, na confusa casa (que já foi uma prisão) onde cresceu. Jia Zhang-ke voltando a ser Jia Lalai (significa moleque no dialeto da região onde cresceu). Os relatos e encontros com amigos e familiares contribuem muito na formação do quebra-cabeças das referências de Jia.

O título não poderia ser mais correto, Jia é um homem de Fenyang, mesmo rodando o mundo, e tendo acesso a outras culturas e influências, está nele enraizada toda a formação do chinês médio, que vive longe dos grandes centros. Ele apenas expõe, de maneira sagaz, um olhar sob seu próprio eu (ou das comunidades que ele conhece bem), e o documentário prova essa ligação umbilical a cada conexão da filmografia e a bagagem de experiências que Jia carrega. Um homem de Fenyang, mas que sabe enxergar os problemas à sua volta, questionar comportamentos, enquanto respeita sua cultura como um todo.

Se o documentário é contido, Jia proporciona alguns inesperados momentos dramáticos, quando fala do pai, ou quando Um Toque de Pecado é reprovado pela censura. Mas, até lá, já corremos tanto aquela região, revivendo as ruas onde Plataforma forma filmadas, a maneira como as histórias chegaram a seu conhecimento antes de se tornarem filmes, e os detalhes que tanto preocupavam a família por suas contestações políticas. Engraçado olhar para uma cultura tão diferente, e perceber a preocupação do pai, em olhar para Plataforma, e enxergar no filho um homem de “direita”, afinal tudo que é oposto ao comunismo de “esquerda” só pode ser de direita. Já, no lado ocidental, suas críticas seriam facilmente vistas como de “esquerda”, são mundos tão díspares que absorvem é a única opção. Jia não nos deixa esquecer da história que ele mesmo viveu.

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