Bingo – O Rei da Manhãs

Bingo – O Rei da Manhãs (2017) 

A figura do Bozo, seu cabelo super comprido com pontas espetadas, seu sorriso imenso e exagerado, e seu ritmo frenético, combinam bem com características que marcaram os anos oitenta. É forte na memória a lembrança de torcer pelo cavalo malhado, ou de querer telefonar e conversar ao vivo. Ao pegar emprestada a figura do palhaço, que animou a infância de tante gente, Daniel Rezende é certeiro na ideia de brincar com essa relação de personagem e o tempo em que vivia. O retrato da vida de Arlindo Barreto (mesmo que alterando vários fatos reais para caber num único personagem) oferece essa mistura de safadeza e inocência da época (Xuxa, Mara Maravilha, Angélica, sempre com roupas curtas e insinuantes, e o ar inocente).

O montador de Cidade de Deus estreia na direção, com estilo que falta no cinema nacional: o autoral aliado ao popular. O humor escrachado, a preocupação em traduzir os excessos do personagem (de invenção, de consumo de drogas e álcool, do sexo, e da fama velada), sempre aproveitando elementos cinematográficos para compor esse retrato (cores, montagem, trilha sonora). O resultado é um filme divertido, relativamente diferente do que estamos acostumados, e bem rico em construir as nuances do personagem (relação com o filho, com a mãe, com o dinheiro e com as extravagâncias).

Pena que, talvez por imposição do próprio retratado, o filme teime em construir uma relação pai-filho com apelo fraternal exacerbado, que varia entre o piegas e o clichê, e principalmente seu final sofra para resolver essa parte da trama, de uma forma que não combina com tudo que Rezende construíra até então. Vladimir Brichta também não é o protagonista que se precisava, quando tira o nariz de palhaço e maquiagem, e encara as cenas mais dramáticas, fica devendo. O saldo final é bem positivo, talvez o melhor filme nacional de 2017, até aqui, repleto de lembranças memoráveis da década, e desse toque de cinema nas construções humorísticas ou dramáticas, como nos sonhos eróticos com sua diretora de programa ou a belíssima cena em que as luzes se apagam pelo corredor em que o ex-Bingo cruza pelos estúdios da tv.

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