O Incidente no Nile Hilton

The Nile Hilton Incident (2017 – SUE) 

Flertando com o noir e o drama político, o diretor egípcio Tarik Saleh cria um thriller policial dias antes da revolução de 2011 em Cairo. A ligação entre a morte de uma cantora e a elite que dá sustentação ao presidente Mubarak, sob investigação da delegacia de policia de Kars el-Nil. Não foge do clichê das conexões de corrupção em todas as esferas do poder, mas tem esse elemento das manifestações populares que funciona como um contraponto interessante. Trabalho de imigrantes ilegais, a policia que sobrevive de seus esquemas, e nas ruas o fervor contra o presidente autoritário, e Saleh tentando dar esse clima de neo-noir a Noredin (Fares Fares).


Festival: Sundance

Mostra: World Cinema Dramatic

Prêmios: Melhor Filme

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Pororoca

Pororoca (2017 – ROM) 

É outro típico exemplar do cinema romeno, desde as tendências estéticas de longos e temas densos e humanos, a até a forma com que se estabelece os diálogos com agentes da polícia. No filme de Constantin Popescu, a crise familiar se estabelece com o desaparecimento inexplicado, em um parque, de um dos filhos do casal, enquanto as crianças passeavam com o pai.

Pororoca é o fenômeno do encontro violento das águas do mar e do rio. Corre a investigação enquanto os pais tentam sobreviver à realidade desesperadora da ausência. Se equilibrar entre as buscas e a dor da perda, a responsabilidade e a culpa, o casamento dilacerado e até a proximidade com a loucura. Popescu filma toda a dureza da situação com uma câmera vigilante aos pequenos detalhes que indicam o natural afastamento do casal e da realidade com que viviam até culminar no final apoteótico num longo plano-sequencia de sentimentos desaflorando versus a inércia da própria vida.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Ator

Nico, 1988

Nico, 1988 (2017 – ITA) 

A cinebiografia sobre os últimos dois anos de vida da cantora Nico trafega entre sua negação a sua fase no lendário Velvet Underground e os reflexos que a Segunda Guerra Mundial deixou em sua infância. Pelo menos, é por esses mares que a cineasta italiana Susanna Nicchiarelli tenta evoluir. O que temos é uma estrela decadente, mãe afetuosa e distante, e uma mulher que ainda vive dos resquícios de excessos, teima em almejar um tempo que já passou, numa carreira solo muito distante do sucesso de outrora.

Nada da figura mistica da juventude. Uma Nico cansada, viciada sem pudores e que ainda vive cada dia como se fosse o último, mas já com o gosto amargo na boca, nas amizades e na representatividade dentro da música. O tom desesperançoso está também na narrativa, Nicchiarelli conduz a tristeza escondida com lentidão e questionável habilidade em dirigir atores. O filme é a própria sombra de Nico, meio torpe, meio mambebe, e que prefere a melancolia à compreensão de sua personagem.