Longa Jornada Noite Adentro

Long Day’s Journey into Night (2018 – CHI) 

A estreia de Bi Gan, com Kaili Blues, trazia essa sensação de que a narrativa é menos importante que a atmosfera. Naquele filme, um road movie de um médico, indo buscar o sobrinho abandonado, cuja parada num estranho local embaralha o passado e o futuro da percepção do público. O próprio diretor acredita que poderia ter feito melhor, ainda assim despertou atenção nos festivais. Seu novo filme é ainda mais calcado em fluxos de tempo e espaço, e, principalmente na memória e seus fragmentos.

Personagens com nomes de cantores, título em referência a famosas obras literárias, um estilo que relembra muito o de Wong Kar-Wai, o jovem cineasta surge como um novo poeta das imagens, dos filmes em que compreender não é o importante. Basta, ao final da projeção, ter vivido a experiência e dialogado com ela. Aqui, o filme é dividido em duas partes, na primeira em 2D, um homem pretende reencontrar a mulher amada e retorna a Kalili. A segunda é realizada num único plano-sequencia em 3D, e dialoga fortemente com alguns filmes de Kar-Wai e Hou Hsiao-Hsien, seja no rito, ou nessa capacidade de encantar com plasticidade e sentimentos sem que os mesmos precisem ser ditos em diálogos.

Seja numa sala de cinema, ao lado de uma mesa de sinuca, ou caminhando à procura de um bordel, o personagem está à procura de uma mulher, ou mais verdadeiramente das memórias de viver aquele sentimento vivido com ela. Se a busca será em vão, se o sentimento será revivido, basta ver, mas, principalmente, mergulhar na atmosfera criada por Bi Gan, se apegar apenas à narrativa totalmente confusa e complexa, é negar o que o diretor pretende realmente entregar.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Un Certain Regard

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A Quietude

La Quietud (2018 – ARG) 

Em seu novo filme, Pablo Trapero camufla o tema da ditadura militar argentina com uma história familiar da relação conturbada de três mulheres. Primeiramente a cumplicidade entre as irmãs, afastada do dia-a-dia por viverem em outro país, depois a relação de cada uma delas com a mãe, e com seus maridos ou antigos amores. A trama entrega lentamente a verdadeira relação entre cada um deles, além de detalhes do passado e um capítulo de filme de tribunal que oportunamente resgata, fortemente, o tema político.

Cumplicidade x rivalidade, o luto, está tudo misturado. Trapero eleva a temperatura sexual e as crises (algumas histéricas) para intensificar essa disputa familiar, dessa forma exagera onde sutilezas seriam necessárias, além de aproveitar pouco os homens, mero coadjuvantes. É um Trapero querendo ser mais sensível, flertando com a alma feminina, mas com resultados muito aquém.