Arquivo de janeiro 2, 2019

Top 25 – 2018

Publicado: janeiro 2, 2019 em Cinema, Top

Não há muito o que se reclamar de 2018, quando se trata de cinema. Foi mais um ano bem positivo aos cinéfilos, e também um ano de muitas polêmicas que vão além da exibição dos filmes. A discussão que mais imperou foram os streamings, os filmes que não passam pela tela grande, e essa nova maneira de dialogar e distribuir. O ápice foi a confusão entre Festival de Cannes e Netflix, que tirou os filmes da gigante dos streamings do festival, e entre os últimos capítulos a mesma Netflix vem figurando com grande favoritismo ao Oscar (com um filme preto e branco e falado em espanhol). Se fala tanto na Netflix, mas Hulu e Amazon são outros ótimos exemplos de produção de conteúdo, mas que jogam diferente com os grandes exibidores, por isso menos confronto.

É o planeta em processo de reconfiguração, fechando barreiras que estava escancaradas, e o cinema não só é afetado como reflete essas mudanças. Os streamings vieram para ficar, e vão ocupar cada vez mais espaço. Bird Box (recente filme da Netflix) foi visto por uma quantidade avassaladora de pessoas, um alcance que as salas de cinema não teria tão rapidamente.  Num mundo em que a ultra-direita ganha espaços em países importantes e que os nacionalismos estão inflamados, o cinema trata desses e outros temas, enquanto a indústria tenta se reencontrar com o público.

Fora dos filmes, 2018 foi ano que a guerra comercial EUA x China chegou em níveis não imaginados, enquanto a União Européia enfrenta o Brexit e esse passo atrás da integração e globalização. E, obviamente que temas de 2017 se consolidaram ao longo do ano, o espaço de protagonismo das minorias (negros, latinos) na criação e premiação, e a tardia, e necessária, conquista do espaço da mulher.

Nesse ranking pessoal, nova tentativa de refletir o ano cinematográfico a partir dos dez filmes que mais me agradaram, seja na forma como exploram seus temas ou nas novas maneira de utilizar a linguagem cinematográfica, sem perder a conexão com o mundo além do lado artístico. Afinal, arte sempre será uma maneira de refletir o mundo. Vale citar que a lista não é construída com nenhuma preocupação plural (ou de cumprir cotas), isso acontece, ou não, naturalmente. E chama a atenção a divisão geográfica com EUA (2), Europa (5), Ásia (2) e um filme latino, constituindo essa pequena e bela amostragem do que 2018 teve a nos oferecer. A ordem é meramente subjetiva, mais importante é o que vamos carregar com os filmes a partir de agora.

 

Novamente, o cinema não se esquivou das mazelas do mundo. Se 2018 não nos privou de novos capítulos tristes e imagens aterrorizantes de guerra, os filmes nos fizeram refletir ou revivê-las de maneira intensa.  Em Imagem e Palavra Jean-Luc Godard segue inventado, radicalizando, e também criticando, e novamente ele oferece um dos acontecimentos audiovisuais do ano. A guerra está aqui, entre o experimentalismo da desconstrução, pela ousadia de pedir um Remake ao mundo, seu foco também é o mundo árabe, aceitação e não demonização. E por falar de acontecimento audiovisual, o que falar do filme inacabado de Orson Welles? O Outro Lado do Vento, finalmente, foi finalizado, e que filme. Ousado na narrativa, provocativo na forma como enxerga a Hollywood dos anos 70, e criativo por todos os lados. Um encontro de Verdades e Mentiras com o cinema mais autoral de John Cassavetes

Talvez o menos conhecido da lista, Drvo: A Árvore, do português estreante André Gil Mata nos faz lembrar Bela Tarr, ao partir de uma fotografia de uma árvore em Saravejo, e com apenas um velho, um menino, um rio, seis galões vazios e a cidade escura, criar uma das maiores poesias visuais do ano entre os resquícios das guerras nos balcãs. Também há resquícios da guerra no novo melodrama de Christian Petzold. Em Transit, o cineasta alemão sugere uma Europa em que o Nazismo venceu, e os imigrantes são os perseguidos (mas hoje também não são?). Petzold é um daqueles que só temos a lamentar porque seus filmes não chegam aos cinemas brasileiros (creio que só Barbara teve distribuição), sua narrativa é sofisticada, suas histórias e personagens apaixonantes, e aqui ele vai muito além ao tratar de sobrevivência num romance em que o desfecho sempre soa improvável.

Seguindo pelo caminho do improvável, uma das grandes sensações de Cannes foi Em Chamas, adaptando Murakami. A dança ao por do sol, o sugerido triângulo amoroso intricado, a atmosfera instigante de mistério. O filme do sul-coreano de Lee Chang-dong pede menos por resposta, e mais por esse mergulho em cada um dos personagens desse tripé. Ainda em Cannes, a cena de punk-rock na Rússia dos anos 80 ofereceu um dos filmes mais saborosos do ano, a cinebiografia do maior ícone da época brinca com a ingenuidade dos rebeldes, assim como a pureza de sentimentos, e o brinde que se torna tudo que se refere a imaginação dos personagens. É um filme menos preocupado com fatos, e bem mais interessado em nos fazer mergulhar na época e sentir a temperatura daquele tempo.

Família, nunca pode faltar. Temos aqui três abordagens bem distintas. Tão pessoal o trabalho de Alfonso Cuarón ao resgatar a história da babá que cuidava dele, e dos irmãos, no México de tantos conflitos nos anos 70. O clima de nostalgia que vem de seu plano visual virtuoso contrasta com a grandiosidade nas pequenas coisas, nos pequenos e grandes dramas de Cleo, dando voz a quem sempre aceitou uma vida de coadjuvante. Já Amanda mistura a dor de uma tragédia e a necessidade de reconstrução entre os cacos, e a intolerância. Um filme tão dolorido, e, ainda assim, tão luminoso de Mikhaël Hers, afinal são duas crianças (uma delas uma criança adulta) que  enfrentam essa melancolia colorida, a fluidez da tristeza. Por fim, o vencedor da Palma de Ouro, esse caso amoroso de Kore-eda com crianças, mas dessa vez o japonês complica a trama com ousadia, sem sair de seu ritmo cinematográfico. A hipocrisia das convenções sociais questionada ao colocar o marginal como melhor refúgio de uma garotinha de classe média. É um choque de afeto e de reflexão sobre o que está velado e como são criados os laços sentimentais.

E o filme do ano foi dele, Paul Thomas Anderson, com o romance doentio de uma estilista e sua musa. Um amor que é quase um fime de terror, entre atração e obsessão. Um conto sobre a mascunilidade e seu poder de liderar e ser liderado. PTA se coloca como um arquiteto do cinema por contruir personagens marcantes e cenas inesquecíveis que representam também a personificação de cada um desses personagens. É uma pequena aula de domínio cinematográfico, e também hipnótico experimento de um tipo de relacionamento opressivo, tóxico e instigante, um vício da qual não se consegue superar.

 

  1. Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson
  2. O Outro Lado do Vento, de Orson Welles
  3. Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard
  4. Amanda, de Mikaël Hers
  5. Um Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
  6. Transit, de Christian Petzold
  7. Verão, de Kirill Serebrennikov
  8. Em Chamas, de Lee Chang-dong
  9. Roma, de Alfonso Cuarón
  10. A Árvore, de André Gil Matta
  11. Nasce uma Estrela, de Bradley Cooper
  12. Umas Perguntas, de Kristina Konrad
  13. Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski
  14. Ex-Libris: New York Public Library, de Frederick Wiseman
  15. Mariphasa, de Sandro Aguilar
  16. L. Cohen, de James Benning
  17. A Dragon Arrives!, de Mani Naghighi
  18. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
  19. A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho
  20. Você Nunca Esteve Realmente Aqui, de Lynne Ramsay
  21. 3 Faces, de Jafar Panahi
  22. Museu, de Alonso Ruizpalacios
  23. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
  24. Asako I e II, de Ryusuke Hamaguchi
  25. A Forma da Água, de Guillermo del Toro

 


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