O Irlandês

Publicado: novembro 27, 2019 em Cinema
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The Irishman (2019 – EUA)

Fico lembrando da imagem de Robert DeNiro, tão grisalho, sentado numa cadeira (ou cadeira de rodas, sei lá), encarnando Frank Sheeran, o irlandês, de onde ele reconta as suas histórias revisitadas em flashbacks. Antes de embarcar no filme fica essa imagem, uma espécie de trilha para relembrar do próprio cinema, de tantos personagens, muitos eles trabalhando com o próprio Martin Scorsese . Ao mesmo tempo, ele me lembra tanto meu avô, aquele mesmo semblante, aquela mesma posição, tanta coisa que passaram. Basedo no livro de não-ficção de Charles Brandt, Scorsese está de volta aos filmes com mafiosos. A primeira sensação é de novo, por quê? Mas os elogios vão se somando e as mais de três horas de duração justificando que não se trata de um novo Bons Companheiros ou O Poderoso Chefão. É um outro estágio dessas histórias, e ninguém como Scorsese, com todo o peso de sua experiência para abordar.

Não é simplesmente a história de um imigrante caminhoneiro que encontrou uma forma de subir na vida, claro que boa parte da trama trata desses detalhes, de crimes, da maneira como foi caindo nas graças de alguns chefões. Nem é um filme denuncia da relação promiscua da máfia com grandes sindicatos americanos, parte importante que o filme também conta. É um filme sobre a vida em sua reta final, um filme sobre olhar para sua longa estrada e enxergar seu legado. Muitos talvez não tenham essa oportunidade de olhar para trás e analisar o que deixaram, outros o podem fazer, e esse é o caso do Frank Sheeran do filme.

E sob essa perspectiva, cada minuto se justifica, cada cena, cada detalhe. As 2:30 horas iniciais parecem preparadas para significar a hora final, essa sim definitiva e cheia de cenas inesquecíveis. A partir da festa de homenagem, quando já conhecemos cada um dos personagens (não só Frank, mas também os personagens de Joe Pesci e Al Pacino) é que as coisas se afunilam e o charme da máfia abre ainda mais espaço para crueldade da sobrevivência. Há dois diálogos, plano e contraplano, nessa festa (DeNiro e Pacino, e DeNiro e Pesci) que o encontro do timing de Scorsese com as interpretações dos três formam um negócio que nem sei descrever. Ganancia, fidelidade, arrogância, ego, respeito, tudo ali orquestrado.

É um filme que se coloca como um novo capítulo, marca uma nova abordagem, dentro de um tipo de filme amplamente conhecido e reverenciado. Que por mais que tenha uma personagem feminina crucial, pouco a utiliza, assim como todos os coadjuvantes que ficam a segundo, terceiro plano. Mas, é um grande filme, sobre aquele senhor, sentado naquela cadeira, com seus cabelos grisalhos, carregando o misto de culpa e uma dose de arrependimento, mas um arrependimento de quem faria tudo novamente, sabendo que perderia tudo que perdeu.

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