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Marriage Story (2019 – EUA) 

O tema da separação, do fim do matrimônio, é um tema caro a Noah Baumbach, e ele está de volta, dessa vez, provavelmente, com mais alcance do que nunca. Scarlett Johanson e Adam Driver formam o casal de atriz e diretor de teatro cujo em processo de separação. Muitos tentam comparar o filme com o clássico Cenas de um Casamento, do Bergman, não façam isso, por favor.

Temos aqui um filme que se equilibra na irregularidade dessa fase de separação. A dor da separação, sentimentos misturados, a imposição de vontades próprias, a descoberta do outro em momentos de fúria, ou de egoísmo. Mas, algumas escolhas do roteiro beiram à vilanização de personagens e situações, ou de criar algumas cenas necessárias para dar palco a interpretações mais explosivas. Há risos e choros, há longas cenas com advogados, e outras com o filho ou com a família que deixa de ser sua. Quando um casal se separa, todos se separam de alguma forma, família, círculo social, e mais adiante, tudo se reestabelece. Mas o filme de Baumbach, talvez seja, condescendente demais com a persona masculina, e o desequilíbrio na balança atrapalha. Ainda assim, é o tipo de filme que não temos visto atualmente, não dessa forma, e com um tipo de situação que segue sendo mais que rotineira. Afinal, esse amor da alma gêmea só se vive mesmo nas músicas pop e nas comédias românticas.

Atlantique / Atlantics (2019 – SEN/FRA)

Ada (Mame Bineta Sane) ama, sofre, se rebela aos costumes, encontra pouco apoio até em suas amigas. Ela é a figura central, aos 17 anos prefere viver pelo que acredita do que a comodidade que a maioria preferiria. Perdidamente apaixonada por Suleiman (Ibrahima Traoré), pedreito de um prédio de luxe em construção, sem receber salários há três meses.

O filme se divide em diversas frentes, uma delas é esse estudo da vida de Ada e das amigas à sua volta. Seu lado guerreira e arredio, antagônico a futilidade de algumas de suas melhores amigas. É desse parte da trama que nasce o aspecto policial, numa investigação confusa, e um policial cuja participação na história parece deslocada, um tipo de mistério que nem carrega tantos questionamentos.

Mati Diop se equilibra entre a poesia do belo mar do Senegal, a generosidade da descoberta do amor entre esses dois jovens e o confronto social entre os empregados sem salário e o patrão e seu casarão. Sua forma não usual de filmar traz beleza mesmo em locais tão pobres como a caçamba de um caminhão ou o jogo de olhares entre os trens. Diop era a atriz do filme 35 Doses de Rum, de Claire Denis, e é fácil notar onde o cinema das duas se encontra, quando o lado fantástico da história ganha espaço.

Atlantique flerta com a poesia, mas é bem direto em seu discurso social e da posição feminina na sociedade. Um acidente trágico, mulheres-zumbis, o olhar enigmático de Ada, há muito para se mergulhar no mar cinematográfico que o filme propõe.

The Irishman (2019 – EUA)

Fico lembrando da imagem de Robert DeNiro, tão grisalho, sentado numa cadeira (ou cadeira de rodas, sei lá), encarnando Frank Sheeran, o irlandês, de onde ele reconta as suas histórias revisitadas em flashbacks. Antes de embarcar no filme fica essa imagem, uma espécie de trilha para relembrar do próprio cinema, de tantos personagens, muitos eles trabalhando com o próprio Martin Scorsese . Ao mesmo tempo, ele me lembra tanto meu avô, aquele mesmo semblante, aquela mesma posição, tanta coisa que passaram. Basedo no livro de não-ficção de Charles Brandt, Scorsese está de volta aos filmes com mafiosos. A primeira sensação é de novo, por quê? Mas os elogios vão se somando e as mais de três horas de duração justificando que não se trata de um novo Bons Companheiros ou O Poderoso Chefão. É um outro estágio dessas histórias, e ninguém como Scorsese, com todo o peso de sua experiência para abordar.

Não é simplesmente a história de um imigrante caminhoneiro que encontrou uma forma de subir na vida, claro que boa parte da trama trata desses detalhes, de crimes, da maneira como foi caindo nas graças de alguns chefões. Nem é um filme denuncia da relação promiscua da máfia com grandes sindicatos americanos, parte importante que o filme também conta. É um filme sobre a vida em sua reta final, um filme sobre olhar para sua longa estrada e enxergar seu legado. Muitos talvez não tenham essa oportunidade de olhar para trás e analisar o que deixaram, outros o podem fazer, e esse é o caso do Frank Sheeran do filme.

E sob essa perspectiva, cada minuto se justifica, cada cena, cada detalhe. As 2:30 horas iniciais parecem preparadas para significar a hora final, essa sim definitiva e cheia de cenas inesquecíveis. A partir da festa de homenagem, quando já conhecemos cada um dos personagens (não só Frank, mas também os personagens de Joe Pesci e Al Pacino) é que as coisas se afunilam e o charme da máfia abre ainda mais espaço para crueldade da sobrevivência. Há dois diálogos, plano e contraplano, nessa festa (DeNiro e Pacino, e DeNiro e Pesci) que o encontro do timing de Scorsese com as interpretações dos três formam um negócio que nem sei descrever. Ganancia, fidelidade, arrogância, ego, respeito, tudo ali orquestrado.

É um filme que se coloca como um novo capítulo, marca uma nova abordagem, dentro de um tipo de filme amplamente conhecido e reverenciado. Que por mais que tenha uma personagem feminina crucial, pouco a utiliza, assim como todos os coadjuvantes que ficam a segundo, terceiro plano. Mas, é um grande filme, sobre aquele senhor, sentado naquela cadeira, com seus cabelos grisalhos, carregando o misto de culpa e uma dose de arrependimento, mas um arrependimento de quem faria tudo novamente, sabendo que perderia tudo que perdeu.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2019 – BRA)

Melhor filme na prestigiada mostra Un Certain Regard, em Cannes, um feito e tanto para o cinema brasileiro. Agora chega aos cinemas com a possibilidade real de estar na lista final dos indicados a Filme Estrangeiro. O diretor Karim Aïnouz de volta aos holofotes, em grande estilo. Um melodrama clássico, abraçando o folhetim sem medo de ser feliz e provando que uma narrativa clássica não precisa soar envelhecida.

Da história de uma família, com duas filhas, cuja uma delas se apaixona por um homem, e é rejeitada pelo pai antiquado, nasce a narrativa paralela de duas irmãs, tão próximas e tão distantes. Numa fotografia que é um espetáculo à parte (escura e tão capaz de mostar um outro lado da cidade, distante dessa coisa solar tão presente), Karim flerta, novamente, com a boêmia carioca de Madame Satã, e principalmente com os costumes do início do século, o conservadorismo que afasta pessoas e estragava vidas.

E esses pequenos retratos da classe média brasileira à época enriquem esse amor de irmão. É tão significativa a idealização do sucesso no outro, com o fiapo de informação se cria uma narrativa do que possa ser a vida da irmã, quando a sua é de total decepção. Afinal, também há o aspecto  de ser mulher naquele momento, a sbubmissão, a obrigatoriedade de segir padrões estabelecidos. Não é um filme que encanta com cenas espetaculares, o encantamento vem do conjunto, da possibilidade de passar anos ao lado dessas duas mulheres corajosas, inquietas. Até chegar em cena Fernanda Montenegro, e ai sim arrasar com os mais sentimentais, em duas ou três cenas capazes de tocar profundamente quem se envolveu com as vidas de Eurídice e Guida.

Il Traditore (2019 – ITA)

Curioso que dois cineastas veteranos tenham resgatado o subgênero de filmes de máfia este ano, e ambos adicionando novos elementos à conhecida narrativa. Scorsese trouxe a visão da terceira idade, as aguras de olhar ao passado. Marco Bellocchio conta a história de Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino), o mafioso traidor que fugiu para o Rio de Janeiro, e se tornou um lendário delator da Cosa Nostra.

A primeira vista pode ser visto como um filme protocolar. A questão da família, da religião, os conchavos, e o jeito mafioso de falar se encontra com as festas e a vista da praia carioca (coprodução brasileira com Maria Fernanda Cândido nuam personagem muito importante), todos esses pontos estão ali, enraizados na narrativa clássica de Bellocchio.

Não espere um thriller eletrizante, o cineasta italiano parece estar mais interessado no circo midiático do tribunal, é ali que Buscetta confronta seus parceiros de crime e o filme expõe, um pouco, da genuína alma italiana. Deboche, o jeito falastrão, xingamentos, cada um apresenta como um showman de estilo próprio, um palco onde tentam se defender a qualquer preço, onde falam de crimes hediondos abertamente, com humor à italiana que seria inaceitável em outras plateias. Bellocchio fica preso ao formato da cinebiografia, mas é no meio do circo que seu filme se diferencia.

Patrick (2019 – POR)

“- Do que você tinha mais saudade? Da língua”. Reproduzido um pequeno diálogo, já na reta final do filme, que não dá nenhum spoiler da história, mas me pareceu bem representativo da odisseia do personagem. Reconduzido a Portugal, apos ser raptado, levado à França, e abusado sexualmente, ainda garoto, Patrick só é identificado por molestar uma mulher.

Molestado quando garoto e agora sai de controle em prol de seus ímpetos sexuais. Talvez alimentado pelo meio em que viveu, talvez por ter aprendido na pele que esse comportamento é normal, o fato é que o jovem é reconduzido à casa dos pais e surge a difícil, quiçá impossível, tarefa, de todos os familiares, em readaptar. O estreante Gonçalo Waddington até envereda por algum tipo de respostas no final, mas até lá nos entrega um filme de silêncios, de impulsividade, de amargura, nunca de arrependimentos.

La Llorona (2019 – GUA)

Cada mais condizente incorporar o gênero do horror a temas políticos. Não há terror maior do que os abusos políticos que afetam tanto a população, mas parecem menos graves do que um bandido com uma arma na mão. Recentemente, o cinema tem explorado bem esse inesperado casamento.

O cineasta guatemalteco Jayro Bustamante se aproveita da lenda da Llorona para resgatar os genocídios de militares nos anos 80 em seu país. Milhares de indígenas foram mortos, ditos revoltosos, quando estavam mesmo na região onde se podia explorar petróleo “atrapalhando” o desenvolvimento.

Trinta anos depois, o personagem fictício do general (claramente inspirado no general ditador Efraín Ríos Montt, que governou o país entre 82-82, após um golpe de estado), está sob julgamento desse genocídio e começa a ser assombrado pelo choro de uma mulher. O encontro do realismo fantástico com o homem senil e sob forte pressão psicológica (na porte de sua casa o povo protesta) está no filme, mas as figuras centrais são as mulheres daquela casa: a filha, a mãe, as empregadas, e como elas lidam com a situação, as descobertas e tudo mais. O novo filme de Bustamente não chega a me encantar no todo, mas é de uma força importante, e lidamente filmado em todos os aspectos daquela casa em efervescência particular. A esposa que defende o marido, a filha que questiona, as empregada que abandonam. A linha tênue entre o drama político e o terror paranormal parece ser reescrita aqui.