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Honeyland

Publicado: junho 26, 2020 em Cinema

Medena Zemja / Honeyland (2019 – MAC)

As imagens são tão belas que a atividade do apicultor se torna, realmente, arte sob as lentes dos diretores Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov. Numa região inóspita da Macdônia do Norte, acompanhamos um pouco do equilíbrio entre apicultores e o ecossistema, afinal, parece até agressivo que o humano conduza a produção do mel e retire dali o quanto lhe interessa. Porém, a personagem central, uma mulher tão simplória que cuida também da mãe e do casebre sem luz ou qualquer outro conforto, tem forte esse aprendizado milenar de respeitar e extrair apenas parte do que as abelhas produzem.

Chega na região uma família, cujo patriarca é menos experiente e com a visão mais capitalista e imediata. O documentário se vira ao confronto entre o estilo dos dois apicultores, e os efeitos desses comportamentos díspares. Além da beleza das imagens, o importante do documentário está nessas pequenas coisas, o trato com a mãe, a vida modesta, as crenças e costumes, a esperança que um casamento possa trazer vida melhor…

Sete Anos em Maio

Publicado: junho 19, 2020 em Cinema
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Sete Anos em Maio (2019)

Penumbra e violência. “Vivo, morto, morto, vivo”, não é apenas uma representação teatral proposta na segunda parte do média-metragem dirigido por Affonso Uchôa, mas muito do estado de espírito que desemboca do depoimento de Rafael (que constitui a primeira parte). Ele que trafega pela sociedade, como um zumbi na marginalidade, no vício das drogas, envolto ao mundo do crime, num sistema que parece não leh permitir possibilidade de fugir, mesmo se quisesse. Uma bola de neve que cada vez mais o mergulha na desemperança.

Introduzione all’oscuro

Publicado: maio 29, 2020 em Cinema
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Introduzione all’oscuro (ARG – 2018)

Bonita homenagem do argentino Gastón Solnicki ao falecido diretor do Festival de Viena (Hans Hurch), criaram amizade por conta do festival e o diretor argentio faz uma viagem à Viena para falar do amigo, da cidade, e como um cineasta pode se encaixar e tornar um filme numa declaração de amor de amizade. Em uma das cenas, a câmera focaliza túmulos de artistas famosos no cemitério da cidade, Beethoven, por exemplo, e encerra com Hans, que trabalhou por vinte anos na Vienale e resgatou parte da importância do festival. Cheio de experimentações e contato direto com os mais diversos setores da arte, Solnicki não se furta de criticar a modernidade, como as redes sociais, também faz um cinema que não dialoga com todos os públicos, mas tem ali essa bela homenagem a quem deixou seu legado para o cinema.

Todos Somos Marinheiros

Publicado: maio 22, 2020 em Cinema
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Todos Somos Marineros / We’re All Sailors (2018 – PER)

Um navio pesqueiro russo parado na costa do Peru, a empresa dona da embarcação está quase falida, um embroglio para os três tripulantes que restaram. Elem passam semanas por ali, quase à deriva em terra firme, vendendo equipamentos para sobreviver. Vão se acostumando com o local, criando uma vida provisória, ou quase paralela a deles.

O diretor Miguel Angel Moulet surpreende ao criar essa sensação de personagens completamente perdidos, sem destino na imensidão daquelas paisagens. Muito mais que o fiapo de história, interessante é a maneira como Moulet transforma seu filme num conjunto de planos, muitos deles belíssimos, que captam o sentido de desorientação, sempre sob uma perspectiva de obervação. O carinho dos corpos nus sob a cama, o beijo e o abraço na cozinha do restaurante, a pequena discussão sob o barco num plano aberto que capta mais o espaço e menos o que fazem. Sonhos? Futuro? Ou viver um dia após o outro? E como ficam as pessoas com que eles se relacionam? Um dos mais interessantes filmes de estreia do ano.

A Segurança Interna

Publicado: maio 15, 2020 em Cinema
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Die Innere Sicherheit / The State I am In (2000 – ALE)

Um drama político e também um coming-of-age, o primeiro filme da Trilogia dos Fantasmas do cineasta alemão Christian Petzold unifica esses dois subgêneros, tão distantes aparentemente. Um casal de ex-terroristas alemães da década de 70 vive se esconcendo pela Europa, uma vida na clandestinidade com a filah adolescente. Enquanto se desenrola a trama de viver sob identidades falsas, com poucos recursos financeiros e quase como nômades, a filha chega numa fase em que precisa se descobrir, que se apaixona, que deseja, que precisa de amigos. A necessidade x estilo de vida criam um novo conflito familiar, e Petzold transforma os fantasmas do passado em novos obstáculos .

A Criança Zombie

Publicado: maio 9, 2020 em Cinema
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Zombi Child (2019 – FRA)

Novamente Bertrando Bonello navegando por grupos de jovens para tratar de temas que, normalmente, estão alheios a esse universo. Se em Nocturama ele tratava de terrorismo e de uma juventude que por falta de uma rebeldia mais contundente em casa, busca desafogar (seu vazio?) muito além. Aqui a juventude é representada num pequeno grupo de garotas, de um colégio interno de Paris, um pequeno clã que resolve aceitar a mais nova aluna, que se mudou do Haiti após a morte dos seus país no terretomo de 2010.

O filme também se passa em 1962, no  Haiti, o cineasta francês faz uma livre adaptação da história de Clairvius Narcisse, que diz ter voltado à vida como “zombie” para ser escravizado numa plantação de cana. Vale dizer que o cinema transformou a crença zumbi para o que conhecemos hoje, mas por séculos esteve ligada a vudus e um desprendimento da vida como se conhece, vagando quase sem vida, como uma nova entidade.

A unificação dos dois tempos seria o parentesco entre os haitianos. Enquanto Bonello constrói esse Haiti de cólera e identidade cultural, o desenlance amoroso de uma das garotas e o interesse das demais pelas histórias caribenhas completa a conexão entre fantasia e crenças espirituais, num estado parecido com que Nocturama possuía, o de deixar o público flutuando ao léu. Porque era essa minha sensação, meio anestesiado pelo zombi haitiano, e pela ingenuidade definitiva de um amor entre cartas. Reflexões sobre racismo e o colonialismo francês são possíveis, mas há principalmente esse toque de estranhamento de temas que o cineasta nunca permite que você possa tocar, mas estão ali, nessa mescla improvável de subgêneros do cinema que pode soar pedante ou densa.

Lilian

Publicado: maio 8, 2020 em Cinema

Lillian (2019 – AUT)

Você se lembra de Renegados, da diretora Agnès Varda? Seria um versão austríaca da personagem do clássico de Varda, aqui dirigido por Andreas Horvath, contando a real história de uma imigrante russa nos EUA, que não fala inglês, e desempregada e sem visto, não consegue emprego nem na indústria pornografica. Completamente sem chance alguma de sustento, ela tenta voltar a pé ao seu país, saindo de Nova York, com o plano de cruzar pelo Alaska o Estreito de Bering.

Ela anda, anda, anda, e entre tanto silêncio da protagonista, o que vemos é um EUA de beira de estrada. Bares, bêbados, algumas pessoas bem chulas, outros aproveitadores. Em foco um país sem glamour, sem esperança, a individualidade que não dá espaço para abraçar quem necessita de ajuda, até porque a caminhada cria mais desconfiança do que acolhimento com quem encontra pelo caminho. Teria ela conseguido voltar à sua terra natal? Um filme que ora deixa o feio, bem feio, em outras até encontra beleza nessa feiúra toda.

Conto da Primavera

Publicado: maio 3, 2020 em Cinema, Domingo de Clássicos
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Conte de Printemps “A Tale of Springtime”, 1990 – FRA)

Lá se vão 30 anos desde o lançamento desse primeiro capítulo do Conto das Quatro Estações de Rohmer, e curioso como as relações pessoais e dilemas românticos mudaram tantos nos últimos anos. Os mais críticos, a um estereótipo de cinema francês blasé, podem encontrar aqui um prato cheio para suas críticas, afinal os franceses discutem filosofia transcendental, Klant e Platão, ou estão ouvindo Schumann num simples jantar. Mas, o cinema de Rohmer apenas utiliza os aspectos culturais para florear essas relações pessoais tão caras em seus filmes. Boa parte dos seus filmes são simples na forma, almejam a naturalidade, e um prazer especial maior de discutir emoções e sentimentos do que vivenciá-los.

A trama pode parecer fulgaz na maneira como aproxima duas jovens a se tornarem amigas tão rapidamente, o importante são as pequenas descobertas de suas manias e perfis, então referências como a mania de organização de uma delas, que respeita fortemente a organização dos outros, são mais importantes do que quem essas pessoas são. Mas as tramas desses contos são assim rapidamente colocam à mesa esses dilemas de personagens, aqui a moça que se incomoda com a namorada do pai, e queria que a nova amiga assumisse esse lugar.

Invariavelmente os personagens se encontram, conversam, discutem, convivem num jardim em plena primavera. Os diálogos e dramas parecem arquitetados demais, naturalistas de menos, ainda mais envelhecidos pelos dilemas que ficaram três década atrás, aqui, a vida real que Rohmer tanto quer espelhar, parece mais convincente na teoria exatamente porque desejo e paixão não são sensações vivida entre esses personagens.

Satantango

Publicado: maio 1, 2020 em Cinema
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Sátántangó (1994 – HUN)

Pessoas entusiasmadas com o dinheiro que irão receber após o insucesso da fazenda coletiva em que buscavam sua subsistência, até que um homem, tido como morto, reaparece e traz outra perspectiva à comunidade. Estamos nos derradeiros dias do Socialismo na Hungria, em seu Tango de Satã (tradução literal do título). Béla Tarr divide a história em doze capítulos, sempre em seu tom de realismo pessimista e desolação por um grupo de personagens que se mistura com a melancolia, chuva e pobreza que o barro remete. Sempre me encanto com o rigor estético e o tempo de seus planos-sequencias, mas aqui há um filme de dilemas morais mais contundentes, que se intercalam entre sonhos/pesadelos e a herança socialista de ser sempre regidos/traídos por líderes. A infidelidade conjugal, os planos de se aproveitar dos outros (governo, adultos e crianças), a falta de empatia, a solidão, tudo isso camuflado pelos encontros etílicos e musicados no bar, quase um oásis nesse mar barrento da desesperança.

La Trinchera Infinita (2019 – ESP)

Os cineastas Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga desde o início vem se destacando na cena do cinema espanhol atual. Filmes mais recentes como Loreak e Handia, e esse novo ganharam destaque nos Goya, principalmente nos quesitos mais técnicos. São filmes de um cuidado meticuloso com a imagem, e a forma. Aqui, o trio de cineastas volta a uma das maiores feridas de todos os países que sofreram com governos ditatoriais. Na trama um homem foragido, se esconde em sua casa, por mais de trinta anos trancado numa trincheira, para escapar dos capangas de Franco da Guerra Civil Espanhola.

Muitas cenas com pouca luz, num ambiente diminuto, e a visão do mundo através de revistas, rádio ou de frestas que dão para a sala de casa. É um filme sobre um drama pessoal, mas também familiar porque todos precisam viver à mercê do estado de alerta ininterrupto. Para dar ritmo ao filme, os diretores vão além da preocupação com a passagem de tempo e conseguem criar tensão em visitas à casa enquanto todos vivem a expectativa de mudanças políticas na Espanha com uma possível vitória dos Aliados na Guerra, ou da entrada do país na ONU. Viver como um rato por não aceitar o autoritarismo do governo foi o que o destino reservou aos que ficaram conhecidos como “topos”.