EP 87 – As Escolhas de Sofia

A cineasta Sofia Coppola está nos cinemas com seu novo filme, uma versão para O Estranho que Nós Amamos (12:51). Impossível não compará-lo com o filme de 1971 assinado por Don Siegel, com Clint Eastwood no papel principal, e analisar as escolhas da diretora. Chico Fireman, Cris Lumi, Michel Simões e Tiago Faria aproveitam a discussão sobre o longa que venceu o prêmio de melhor direção em Cannes este ano para escolher os melhores filmes da realizadora.

Também em discussão, o finlandês O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki (55:04), vencedor do prêmio principal da mostra Um Certo Olhar 2016, também em Cannes, sobre um personagem dividido entre o mundo do boxe e o amor. E tem Cantinho do Ouvinte e Recomendações. Bom podcast!

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O Estranho que Nós Amamos

The Beguiled (2017 – EUA) 

Ao descobrir o filme anterior, quase uma alegoria erótica masculina, dirigido por Don Siegel, em 1971, era de se esperar uma versão cujo o lado feminismo criasse outra leitura para a trama. Afinal, a carreira de Sofia Coppola tem essa vitalidade de trazer o ponto de vista feminismo ao cinema, coisa tão rara, infelizmente. A possibilidade dessa oposição é tentadora.

E realmente, Sofia dá seu toque de feminilidade. E o que, muito provavelmente, não é o que se esperava em tempos de “empoderamento”. Suas opções são sutis, porém definitivas. O estranho de seu filme (Colin Farrel) é mais dúbio, enquanto que quase todas as mulheres são colocadas como joguetes atraídas, pouco se conhece individualmente de cada uma delas. O clima de tensão, quase um filme de terror, ainda que exista, é suavizado. É uma visão mais romântica de um intruso que mexe com a libido de todas, e por mais que a versão anterior fosse machista, essa perde a oportunidade de diferenciar suas personagens, as tornando apenas escravas de uma possível escolha.

Talvez, o ideal fosse tentar não comparar os filmes, por mais impossível seja para quem o viu. Ainda assim, olhando para tudo que Sofia construiu até hoje, parece mais um filme preocupado com reconstruir vestidos, adereços e ambientes, do que explorar seus personagens, seja na questão da Guerra Civil que eclode fora daquela casa, seja na tensão sexual competitiva que enlouquece mulheres tão recatadas e imaturas. Quem mais se destaca é Nicole Kidman, que em sua caricatura entre equilíbrio, seu interesse e senso de justiça próprio, conduz o destino de cada um dos personagens, entre delicadeza e algum toque de brutalidade.

Chi-Raq

Chi-Raq (2015 – EUA) 

Em mais um de seus delírios provocativos, Spike Lee volta com outra proposta critica e contundente contra um tema crucial nos EUA: a violência. Passado em Chicago, o título já faz uma provocação comparando a violência dos subúrbios da cidade com o Iraque (em guerra civil). Duas gangues, de cores vibrantes e líderes macho-alfa, encontram na união pela paz, de suas mulheres/namoradas, uma arma perigosa. Longe de pegar em armas, as garotas decidem organizar uma greve de sexo pelo cessar-fogo, capaz de causar o desmoronamento das gangues, levantar a bandeira da justiça e do feminismos. No tom verborrágico e provocativo de Spike Lee, o filme passou batido pelo Brasil, mas merecia atenção por sua poderosa capacidade de tratar de pequenas ações do cotidiano que podem fazer a diferença.

EP 86 – De Volta ao Planeta dos Macacos

Com a estreia de Planeta dos Macacos: A Guerra (9:10), Chico Fireman, Cris Lumi, Michel Simões e Tiago Faria relembram os demais longas da trilogia, resgatam a série e os filmes clássicos. A franquia mudou para melhor?

Dois longas brasileiros também são tema do podcast. O Filme da Minha Vida (39:51), novo trabalho como diretor de Selton Mello, e Rifle (1:06:27), dirigido por Davi Pretto e que participou da edição mais recente de Berlim. E mais: Cantinho do Ouvinte e Recomendações. Bom Podcast!

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Lovesong

Lovesong (2016 – EUA) 

A coreana Kim So-Yong cresceu em Los Angeles, e desde que seu tornou diretora de cinema divide sua carreira filmando entre os dois países. De mais recente trabalho foi exibido em Sundance 2016. Depois do sucesso de seu filme Montanha do Abandono, passou a incluir nomes mais conhecidos nos elencos de seus filmes, como Paul Dano, ou neste caso Jena Malone. Mas, ela manteve sua sensibilidade aflorada, e a presença importante de crianças em seus roteiros.

Aqui a criança é filha de Sarah (Riley Keough), a mulher que se sente solitária pelas longas ausências do marido (coreano). É através da amizade dela com Mindy (Jena Malone) que o filme carrega toda essa sensibilidade destacada de So-Yong. A proximidade, que pode insinuar (ou significar) algo mais, surgem por meio desse cinema indie já meio gasto, de músicas fofas e personagens despedaçados pelo caminho da vida. Não deixa de ser bonito, So-Yong trabalha as emoções de maneira íntima e quase irresistível, ainda que navegue pelos mares da cartilha Sundance de fazer filmes.

Verão Danado

Verão Danado (2017 – POR) 

Está acontecendo a 70ª edição do Festival de Locarno, e em primeira mão assistimos a estreia na direção do português Pedro Cabeleira, um dos destaques da seção Cineasti del Presente. O jovem cineasta realiza um filme todo engajado em suas convicções, mesmo com pouco dinheiro e muita gente que acaba de se formar em cinema, e que sabe falar muito bem com o público da sua idade (na casa dos 20 anos).

Chico (Pedro Marujo) é o mais próximo que temos de um protagonista. Recém formado em Filosofia, se muda para Lisboa. É alguém “se enturmando” enquanto a abstrata câmera de Cabeleira capta as interrelações de forma sensorial. Pequenas reuniões de amigos em casa, ou festas com musica eletrônica, tensões sexuais, álcool e drogas, em meio a conversas, momentos, o tempo que passa. Tudo isso captado por muitos planos sequencias e uma preocupação de testemunhar, de capturar a essência. Nada do que é dito é muito importante, os gestos, os olhares, os momentos é que ditam a verdadeira importância desses encontros, dos interesses, das paixões e desejos.

Não é um filme sobre sexo, como Kids ou Shortbus, ele é apenas figura presente. Cabeleira está realmente traduzindo momentos importantes de uma geração “curtindo a vida”, e nisso ele é preciso e lírico. As motivações sã parecidas, a imaturidade e a descobertas são quase senhores do destino desses personagens tão solares, espontâneos e cheios de vida.

O Filme da Minha Vida

O Filme da Minha Vida (2017) 

Selton Mello está empenhado no lançamento de seu novo filme, talvez mirando a escolha do Brasil para concorrer ao Oscar. Entrevistas, festas e pré-estreias, pelo Brasil, é assim que se lança um filme no exterior. Que se faça assim mais vezes. É uma adaptação do livro Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármeta e resgata bem o que conhecemos do livro mais famoso desse autor: O Carteiro e o Poeta.

Desde que Selton começou a também dirigir, surgiu um contador de histórias, com olhar sentimental e melancólico. Flertando muito com um cinema mais clássico (nesse novo trabalho, talvez, até envelhecido). Selton narra, cheio de lirismo estético e silêncios estudados, a transformação para vida adulta de um garoto, que pouco se encaixa no tipo normal que vive no interior das Serras Gaucha. Professor de francês, sofre com a inexplicada ausência do pai, enquanto descobre o amor, o sexo, e desenvolve sua paixão por cinema.

Não deixa de ser uma homenagem à sétima arte, que deixa mais o gosto de repetição do que já foi visto tantas vezes, do que o sabor de algo novo e inspirador que esse início de carreira de Selton poderia indicar. É um tamanho de filme que falta ao cinema brasileiro, e tomara que ocupe seu espaço, mas, tomara também que possa trazer algo novo, e que Selton continue com seu entusiasmo nesse desafio colossal que é fazer cinema no Brasil.