Comrades: Almost a Love Story

Tian Mi Mi / Comrades: Almost a Love Story (1996 – HK) 

Quase uma fábula romântica contemporânea, o filme de Peter Chan narra o encontro de dois imigrantes da China continental, que chegam a Hong Kong em busca do conforto financeiro. Jun Li (Leon Lai) é o garoto ingênuo que pretende conseguir dinheiro para se casar com a namorada. Qiao Li (Maggie Cheung) é bem mais astuta, prática e interessada em voos maiores.

Há no filme muito do vislumbre de estar em Hong Kong, a China capitalista, onde se pode comer no McDonald’s, ou que o caminho para se dar bem na vida é aprender a falar inglês. Sem perder essa essência de imigrantes em busca de seus sonhos, a narrativa vai naturalmente aproximando esses amigos para uma atração incontestável, quase um amor irrealizável como dos filmes de Kar-Wai. Mas aqui, a mão de Peter Chan leva os personagens para outros caminhos, seja pelo clima adocicado que se coloca entre o brega-romântico e o hipnótico, seja pelos circulas altos e baixos que a dupla enfrenta em sua jornada financeira.

Olhares, silêncios, o não-dito, as canções de Teresa Teng (uma delas faz referência ao título original do filme), além da impressionante capacidade do cineasta em criar pequenas e saborosas (algumas até inesquecíveis) cenas, fazem do filme essa representação de personagens comuns vivendo um romance avassalador, tanto para eles, quanto ao público.

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Possessão

Possession (1981 – POL) 

Perturbadora alegoria de terror psicológico criada por Andrzej Zulawski a cerca da traumatizadora separação de um casal: Isabelle Adjani e Sam Neill. Infidelidade, violência, loucura, depressão, alguns dos elementos que o diretor polonês impõe a seu filme, em cenas que preferem o perturbador ao explicadinho. Há uma linha de história a se seguir, o marido traído, o amante mais velho e o filho pequeno do casal como arma de negociação. Porém, o filme está longe de buscar uma linha de história para contar, ao contrário, ele cria cenas e mais cenas que exploram a loucura dos comportamentos, que levam o público a se sentir à flor da pele com tantas alegorias tensas e enlouquecedoras.

Possessão é um petardo psicológico de personagens levados aos extremos, que ainda encontra em elementos sobrenaturais a completa personificação de metáforas enlouquecedoras. O horror familiar, a sensação do se sentir sufocado, e a fuga sexual como um refúgio transformador. Lembre-se de O Iluminado, mas também de alguns filmes de Polanski como Repulsa ao Sexo, e adicione estudos psicodramáticos e anda assim não será capaz de resumir a histérica alucinação que as imagens do filme de Zulawski evocam.


Festival: Cannes

Mostra: Competição principal

Prêmio: Melhor Atriz

Profissão: Repórter

Professione: Reporter (1975 – ITA/FRA) 

A recém-encerrada Mostra com filmes de Michelangelo Antonioni (exibida nos CCBB’s e Cinesesc) foi uma grande oportunidade de (re) descobrir um dos maiores cineastas italianos. E para não passar em branco pelo blog, escrevo aqui um pouco sobre Profissão: repórter, que quase, foi quase, superou Depois Daquele Beijo (Blow-up) como favorito em sua filmografia.

Em muitos dos seus principais filmes, Michelangelo Antonioni propunha a experiência cinematográfica por completo, através de uma imersão mais profunda do que propriamente no roteiro. Tempos mortos, imagens reflexivas, como se fossem um respiro entre o virar de uma página e outra, numa espécie de literatura cinematográfica. Aqui um jornalista (Jack Nicholson) na África, troca de identidade com a de um outro viajante. Gosta da brincadeira, mergulha totalmente nessa nova identidade.

Não importa o que veio antes na vida do jornalista, e nem mesmo o que virá depois. Somos apenas testemunhas desse caminho que Locke percorre agora, uma espécie de traficante de armas, vagando pelo deserto ou voltando a sua casa na Europa. E, desse caminho, Antonioni esbanja a arte da linguagem do cinema como forma de narrativa entre som e imagem. Planos abertos, cortes, enquadramentos inesperados, som e imagem em tempos diferentes até se fundiram no mesmo momento, e o genial e engenhoso plano-sequencia final, todos elementos que costuram esse fiapo de trama, que alguns podem achar chata, outros contundente, mas que, no fundo, se coloca apenas como artifício para Antonioni modernizar essa entidade que chamamos cinema.

Matou a Familia e Foi ao Cinema

Matou-a-familia-e-foi-ao-cinemaMatou a Familia e Foi ao Cinema (1969) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Júlio Bressane foi um dos precursores do cinema marginal, bem em meio a época da ditadura, por isso que este filme ficou apenas 1 semana em cartaz antes da censura retirá-lo dos cinemas. É resultado de um cinema vigoroso, fervilhante, por meio de algumas histórias trata a violência sob diversas formas. A primeira história tem um louco que mata sua família, com uma navalha, e vai ao cinema. O Filme (Perdidos de Amor) traz a metalinguagem ao roteiro, duas amigas e suas brincadeiras sexuais (nada sociáveis à época).

Há ainda o preso político morto sob tortura, e outras mortes ligadas a classe média baixa. Sempre filmados com urgência delirante, em planos-sequencias celebrais que marcam um cinema de estética marcante e desenvoltura libertária, que o torna um dos grandes filmes do cinema brasileiro.

A Assassina

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Nie Yin Niang / The Assassin (2015 – Taiwan) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A introdução, de quase dez minutos, em preto e branco e tela quase quadrada (1.85:1), posiciona, com precisão, o tempo e o timing do novo filme de Hou Hsiao-Hsien. Na primeira cena, uma anciã indica a sua pupila, assassina treinada (Shu Qi), o homem que ela terá que matar. Na cena seguinte, a doce câmera característica de Hsiao-hsien, foca uma criança brincando em família. O travelling acompanha o ambiente, desnuda a locação, até que aparece a assassina, e desiste de sua missão por conta da criança. A introdução termina com as ordens de sua nova missão, matar seu primo. Há muito mais do que o simples parentesco nessa ligação, quando crianças eles haviam sido prometidos em casamento.

Não há mais nada a saber do roteiro, a seguir Hou Hsiao-Hsien constrói um dos espetáculos visuais mais incríveis do cinema. O filme ganha cores, e a cultura cinematográfica do cineasta parece chegar à plenitude. Enquanto trata, delicadamente, dos sentimentos pessoais da assassina, o filme constrói plasticamente um balé de imagens hipnotizantes.

O formalismo, a conjunção rica dos diferentes tipos de planos (destaque para as imagens entre véus que causam outro tipo de beleza escandalosa), a riqueza dos sons e das cores, a beleza com que Hsiao-Hsien filma a natureza e os sentimentos conflitantes. Tudo é sereno e escandalosamente contido, principalmente a protagonista. Tão delicadamente orquestrado a culminar na poesia visual, o dentro e o fora do campo, as elipses, o filme do ano.

Garota Negra

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La Noire de… / Black Girl (1966 – SEN/FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A desconstrução da ilusão imigrante num tiro seco, direto e certeiro de Ousmane Sembene. De maneira tão simples, o cineasta senegalês expõe as feridas, a frustração e as consequências brutais do sonho que não se torna realidade. Diouna (Mbissine Thérèse Diop) chega a Paris para ser babá, trabalha na casa com belos vestidos, brincos e colares. Muitas semanas de trabalhando e ainda não conseguiu colocar o pé para fora daquela casa, não conheceu uma quadra sequer da cidade.

O tratamento, dos donos da casa, também não é dos mais polidos, com a recém-chegada. Mas, a decepção frente a expectativa é o que há de mais cruel. Sembene vai fundo, constrói assim um magnífico trabalho, onde prima pela simplicidade, e dessa forma alcança resultados desoladores. As expectativas dos empregadores não chega a ser atendida, mas a diminuição dessa jovem ao status de simples serviçal (quando sua ilusão, de todos que ficaram em sua cidade natal, era da vida confortável instantânea) formam o retrato de um choque brutal.

Fogo Contra Fogo

fogocontrafogoHeat (1995 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tenho essa leitura de que o gênero “filme policial” veio ocupar a lacuna deixada pelo Western. Espécie de atualização do gênero para esse novo ambiente urbano que se formou com o desenvolvimento. Eles continuam durões, empunhando armas, normalmente em caçadas entre vilões e o mocinho. Nesse critério de western atualizado, Fogo Contra Fogo nasceu clássico. Michael demorou anos entre o primeiro roteiro que escreveu, e finalmente filmá-lo a contento. Tentou que outro diretor encabeçasse o projeto (quando seu nome ainda não tinha o peso), tentou tranformá-lo numa série de tv (dessa ideia saiu L.A Takedown), e finalmente voltou ao proeto, com orçamento e dois dos maiores astros: Al Pacino e Rober DeNiro.

A trama foi baseada numa história real, um policial de Chicago, nos anos 60, que viveu uma caçada contra um criminoso meticuloso. Em quase três horas, Michael Mann é meticuloso em construir a relação de rivalidade/admiração entre policial (Pacino) e chefe da quadrilha (DeNiro). Lados opostos, personagens que se assemelham, seja na solidão, seja na adrenalina de perigo que os contamina, ou na integridade de sua integridade.

fogocontrafogo2Como uma panela com água no fogo, a fervura com que o policial aproxima-se na caçada de seu alvo torna o filme um labirinto que encurrala a quadrilha, enquanto isso, suas vidas seguem. Cada um deles tem seus laços afetivos: mulheres, filhos, família. As vidas não param no tempo, seguem simultaneamente, e Mann dá cabo dessa teia de relações complexas e problemática com alguns destes personagens. Dessa forma desenvolve frentes, constrói camadas e mais camadas, são mágoas e frustrações. Casamentos se acabando, outros em crise, amores surgindo. A vida náo para, as inventigações seguem, os planos de um novo assalto também.

A elegância com que filma a cidade: noturna, as luzes. A explosão que o policial carrega em sua vida (a cena em que ele leva a tv embora, por exemplo), são pequenos peticos deixados por Mann, enquanto prepara o público para as grandes cenas, tiroteios e perseguições em que o cineasta destila seu estilo, alucina com essa elegância transformada numa violência romântica. Cenas de tirar o fôlego, e ainda tão plasticamente bem planejadas, O embate num café, o plano e contra-plano, cada um desvendando seu oponente, o assalto ao banco e as perseguição nos minutos finais. O novo western, um clássico desde sua concepção.