Profissão: Repórter

Professione: Reporter (1975 – ITA/FRA) 

A recém-encerrada Mostra com filmes de Michelangelo Antonioni (exibida nos CCBB’s e Cinesesc) foi uma grande oportunidade de (re) descobrir um dos maiores cineastas italianos. E para não passar em branco pelo blog, escrevo aqui um pouco sobre Profissão: repórter, que quase, foi quase, superou Depois Daquele Beijo (Blow-up) como favorito em sua filmografia.

Em muitos dos seus principais filmes, Michelangelo Antonioni propunha a experiência cinematográfica por completo, através de uma imersão mais profunda do que propriamente no roteiro. Tempos mortos, imagens reflexivas, como se fossem um respiro entre o virar de uma página e outra, numa espécie de literatura cinematográfica. Aqui um jornalista (Jack Nicholson) na África, troca de identidade com a de um outro viajante. Gosta da brincadeira, mergulha totalmente nessa nova identidade.

Não importa o que veio antes na vida do jornalista, e nem mesmo o que virá depois. Somos apenas testemunhas desse caminho que Locke percorre agora, uma espécie de traficante de armas, vagando pelo deserto ou voltando a sua casa na Europa. E, desse caminho, Antonioni esbanja a arte da linguagem do cinema como forma de narrativa entre som e imagem. Planos abertos, cortes, enquadramentos inesperados, som e imagem em tempos diferentes até se fundiram no mesmo momento, e o genial e engenhoso plano-sequencia final, todos elementos que costuram esse fiapo de trama, que alguns podem achar chata, outros contundente, mas que, no fundo, se coloca apenas como artifício para Antonioni modernizar essa entidade que chamamos cinema.

Matou a Familia e Foi ao Cinema

Matou-a-familia-e-foi-ao-cinemaMatou a Familia e Foi ao Cinema (1969) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Júlio Bressane foi um dos precursores do cinema marginal, bem em meio a época da ditadura, por isso que este filme ficou apenas 1 semana em cartaz antes da censura retirá-lo dos cinemas. É resultado de um cinema vigoroso, fervilhante, por meio de algumas histórias trata a violência sob diversas formas. A primeira história tem um louco que mata sua família, com uma navalha, e vai ao cinema. O Filme (Perdidos de Amor) traz a metalinguagem ao roteiro, duas amigas e suas brincadeiras sexuais (nada sociáveis à época).

Há ainda o preso político morto sob tortura, e outras mortes ligadas a classe média baixa. Sempre filmados com urgência delirante, em planos-sequencias celebrais que marcam um cinema de estética marcante e desenvoltura libertária, que o torna um dos grandes filmes do cinema brasileiro.

A Assassina

assassina

Nie Yin Niang / The Assassin (2015 – Taiwan) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A introdução, de quase dez minutos, em preto e branco e tela quase quadrada (1.85:1), posiciona, com precisão, o tempo e o timing do novo filme de Hou Hsiao-Hsien. Na primeira cena, uma anciã indica a sua pupila, assassina treinada (Shu Qi), o homem que ela terá que matar. Na cena seguinte, a doce câmera característica de Hsiao-hsien, foca uma criança brincando em família. O travelling acompanha o ambiente, desnuda a locação, até que aparece a assassina, e desiste de sua missão por conta da criança. A introdução termina com as ordens de sua nova missão, matar seu primo. Há muito mais do que o simples parentesco nessa ligação, quando crianças eles haviam sido prometidos em casamento.

Não há mais nada a saber do roteiro, a seguir Hou Hsiao-Hsien constrói um dos espetáculos visuais mais incríveis do cinema. O filme ganha cores, e a cultura cinematográfica do cineasta parece chegar à plenitude. Enquanto trata, delicadamente, dos sentimentos pessoais da assassina, o filme constrói plasticamente um balé de imagens hipnotizantes.

O formalismo, a conjunção rica dos diferentes tipos de planos (destaque para as imagens entre véus que causam outro tipo de beleza escandalosa), a riqueza dos sons e das cores, a beleza com que Hsiao-Hsien filma a natureza e os sentimentos conflitantes. Tudo é sereno e escandalosamente contido, principalmente a protagonista. Tão delicadamente orquestrado a culminar na poesia visual, o dentro e o fora do campo, as elipses, o filme do ano.

Garota Negra

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La Noire de… / Black Girl (1966 – SEN/FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A desconstrução da ilusão imigrante num tiro seco, direto e certeiro de Ousmane Sembene. De maneira tão simples, o cineasta senegalês expõe as feridas, a frustração e as consequências brutais do sonho que não se torna realidade. Diouna (Mbissine Thérèse Diop) chega a Paris para ser babá, trabalha na casa com belos vestidos, brincos e colares. Muitas semanas de trabalhando e ainda não conseguiu colocar o pé para fora daquela casa, não conheceu uma quadra sequer da cidade.

O tratamento, dos donos da casa, também não é dos mais polidos, com a recém-chegada. Mas, a decepção frente a expectativa é o que há de mais cruel. Sembene vai fundo, constrói assim um magnífico trabalho, onde prima pela simplicidade, e dessa forma alcança resultados desoladores. As expectativas dos empregadores não chega a ser atendida, mas a diminuição dessa jovem ao status de simples serviçal (quando sua ilusão, de todos que ficaram em sua cidade natal, era da vida confortável instantânea) formam o retrato de um choque brutal.

Fogo Contra Fogo

fogocontrafogoHeat (1995 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tenho essa leitura de que o gênero “filme policial” veio ocupar a lacuna deixada pelo Western. Espécie de atualização do gênero para esse novo ambiente urbano que se formou com o desenvolvimento. Eles continuam durões, empunhando armas, normalmente em caçadas entre vilões e o mocinho. Nesse critério de western atualizado, Fogo Contra Fogo nasceu clássico. Michael demorou anos entre o primeiro roteiro que escreveu, e finalmente filmá-lo a contento. Tentou que outro diretor encabeçasse o projeto (quando seu nome ainda não tinha o peso), tentou tranformá-lo numa série de tv (dessa ideia saiu L.A Takedown), e finalmente voltou ao proeto, com orçamento e dois dos maiores astros: Al Pacino e Rober DeNiro.

A trama foi baseada numa história real, um policial de Chicago, nos anos 60, que viveu uma caçada contra um criminoso meticuloso. Em quase três horas, Michael Mann é meticuloso em construir a relação de rivalidade/admiração entre policial (Pacino) e chefe da quadrilha (DeNiro). Lados opostos, personagens que se assemelham, seja na solidão, seja na adrenalina de perigo que os contamina, ou na integridade de sua integridade.

fogocontrafogo2Como uma panela com água no fogo, a fervura com que o policial aproxima-se na caçada de seu alvo torna o filme um labirinto que encurrala a quadrilha, enquanto isso, suas vidas seguem. Cada um deles tem seus laços afetivos: mulheres, filhos, família. As vidas não param no tempo, seguem simultaneamente, e Mann dá cabo dessa teia de relações complexas e problemática com alguns destes personagens. Dessa forma desenvolve frentes, constrói camadas e mais camadas, são mágoas e frustrações. Casamentos se acabando, outros em crise, amores surgindo. A vida náo para, as inventigações seguem, os planos de um novo assalto também.

A elegância com que filma a cidade: noturna, as luzes. A explosão que o policial carrega em sua vida (a cena em que ele leva a tv embora, por exemplo), são pequenos peticos deixados por Mann, enquanto prepara o público para as grandes cenas, tiroteios e perseguições em que o cineasta destila seu estilo, alucina com essa elegância transformada numa violência romântica. Cenas de tirar o fôlego, e ainda tão plasticamente bem planejadas, O embate num café, o plano e contra-plano, cada um desvendando seu oponente, o assalto ao banco e as perseguição nos minutos finais. O novo western, um clássico desde sua concepção.

Mad Max: Estrada da Fúria

madmaxfuriaemtodasMad Max: Fury Road (2015 – AUS/EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tom Hardy não demonstra a mesma figura marcante de Mel Gibson, ao reviver Max, esse sobrevivente-vingador das estradas da saga. Eeis que surge Charlize Theron como a verdadeira personagem forte da trama. Uma presença mais forte de Hardy faz falta: suas poucas falas e muitos resmungos o transformam em um mero distribuidor de chutes e pontapés. Assim, sobre espaço para a heroína Furiosa (Theron) roubar-lhe o carisma, o protagonismo, o filme.

Dito isso, o novo Mad Max é estupendo e insano. Nessa época de enxurrada de franquias retomadas, em que os novos filmes tem perdido, de goleada, aos anteriores, George Miller retoma o mundo pós-apocalíptico de Mad Max com a mesma fúria, e mais recursos tecnológicos capazes de oferecer um dos filmes mais alucinante do cinema. A trama se aproveita da mesma configuração de mundo um desolador. Água e combustível são os verdadeiros ouros da sobrevivência. Plantas e verduras beiram a extinção. Praticamente um reboot do segundo filme, mas com elementos que sugerem uma unificação entre este segundo e o terceiro (a fuga do grupo contando com a ajuda de Max para escapar da gangue, a cidadela sob controle ditatorial).

Depois de uns vinte minutos alucinantes, onde a narração em off evoca o passado de Max e explica a sociedade capitaneada pelo extravagante e regupgnante Immortan Joe (Hugh Keayes-Barney) e seus vivos-mortos, temos um breve fade-out (primeira chance do público respirar) e começa a caçada alucinante pelo caminhão dirigido pela Imperatriz Furiosa.

Olhos grudados na tela, a ação só para no pequeno alívio cômico no melhor estilo Victoria’s Secret. Aliás, vale mencionar como o cineasta desenvolve tão bem alguns personagens, mesmo no meio de tanta adrenalina e ritmo acelerado. As parteiras, o passado de Furiosa, Nux (Nicholas Hoult) representando os mortos-vivos, e até mesmo relações românticas que surgem em momentos de tanta intensidade.

George Miller prefere cenas mais realistas. Há menos efeitos especiais e mais dublês. Tudo é estiloso: as roupas de couro e metal, a guitarra que cospe fogo, os homens amarrados em longos cabos (como numa apresentação circense). A caçada entre estradas de terra batida, as caveiras e muito, muito Rock N’Roll. Miller envolve o público nesse universo alucinatório, extrapola todas as possibilidades que a cabine daquele caminhão oferece, destrincha as máquinas enquanto trafegam no máximo de sua velocidade. É pura adrenalina e pulsação, e os enquadramentos endeusam esses “cavalos” de metal que fazem barulho e soltam fumaça.

O veterano diretor reinventa sua própria obra, como se fosse possível voltar no tempo e refazer o passado. O trailer prometia muito, a entrega do filme é ainda melhor, um dos melhores filmes de ação de todos os tempos. O cinema de autor chuta a porta e invade o mainstream.

A Paixão de Joana d’Arc

apaixaodejaoanadarcLa Passion de Jeanne d’Arc (1928 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

É impressionante a força narrativa com que Carl Theodor Dreyer resgata a heroína francesa. O filme é praticamente a reconstituição (baseada nos relatos guardados pela corte francesa) do julgamento de Joana d’Arc (Maria Faconetti). A câmera fixa, plano fechado na atriz, que chora, se desespera, fica desconsolada por não acreditarem em sua versão da história, nos sinais e falas de Deus. No contraplano os que julgam, inquisidores, ofensivos. O silencio do cinema mudo, a força da atuações, exageradas, poderosas.

A atuação de Maria Faconetti foi considerada a melhor de todos os tempos por Pauline Kael, talvez a crítica americana tivesse razão dessa vez. Dreyer, de forma seca, simples e angustiante, oferece a Faconetti as ferramentas para essa atuação desesparada, os olhares perdidos, a proximidade à sentença de morte, o peso da verdade e coação de mentir para se safar. A intensidade com que Dreyer castiga a atriz, praticamente resumindo seu filme ao seu rosto, é o que torna o julgamento cortante de tão penoso.