Arquivo da categoria ‘5 Estrelas’

Parasita

Publicado: outubro 9, 2019 em 5 Estrelas, Cinema
Tags:

Gisaengchung / Parasite (2019 – COR)

Bacurau, Nós, Coringa, e agora Parasita. Alguns dos principais filmes do ano carregam o encontro da violência e luta pela sobrevivência no confronto entre os privilegiados e os não-privilegiados. Seja no nordeste do Brasil, em Gotham City, nos duplos no subsolo e na Coréia do Sul. É o cinema trazendo à tona a completa insatisfação global que chega à flor da pele, e pode explicar porque tantos governos extremistas tem ocupado um espaço que não mais lhes pertencia.

O filme de Bong Joon-ho é excelente em todos os aspectos, do tom crítico aproveitando-se de um humor ligeiro e moderno, das atuações precisas (com personagens que variam de vigaristas a ingênuos-românticos), do domínio completo da arte do cinema entre trilha sonora, timing, movimentos de câmera, é uma aula milimétrica para encaixar o roteiro arquitetado dentro desse estilo tão caro ao cinema sul-coreano de misturar gêneros.

E enquanto você se deleita com essa direção impecável, entre cenas marcantes, as sacadas de crítica social são ainda mais interessantes e intrigantes. Esse confronto entre pobre e rico, entre malandro e ingênuo, a violência gráfica e debochada. Da futilidade à autoproteção sem piedade, está tudo lá exemplificado e criticado, mas quando entra em cena a segregação de classes pelo cheiro, Bong chega num outro patamar, seu filme chega num outro patamar, o preconceito como algo primitivo, natural, não é só a questão de estar sem privilegios e precisar “roubar” wifi de alguém, é mais a questão de ser mesmo.

Dolor y Gloria (2019 – ESP)

O tempo vai passando, as pessoas comentando com você, e mesmo depois de alguns meses, fica essa vontade de revistar, mesmo que não seja revendo, nem que seja recordar. E esse recente trabalho de Pedro Almodóvar é um desses casos. O que fica na memória depois de algum tempo?

O mais forte é essa sensação de proximidade, uma intimidade que o cineasta nos convida a visitar, a sua própria intimidade. Antonio Banderas é seu alter-ego, seu apartamento, seu armário, algumas pequenas cápsulas da própria vida de Almodovar, que ele se aproveita para desenvolver a história de um personagem em angustia, mas também dor (inclusive física), e da força interior de se reconectar com pontos e pessoas da sua vida.

Da solidão ao redescobrimento, o passado e presente ajudam a construir esse alter-ego que, realmente, não é o próprio cineasta, mas está embriagado dele mesmo. Dessa forma, ele volta a nos emocionar, logo ele que já fez isso tantas vezes, e vinha ensaiando a acertar em cheio novamente, aqui conseguiu porque é difícil não se envolver com a cólera, o corpo entorpecido, as memórias que criam novas histórias, e como uma fênix, o renascimento para um novo personagem, uma nova pessoa, que é uma variação amadurecida daquele que conhecemos no início, e mesmo assim não deixa de ser o mesmo, inclusive ele, Almodovar.

Idi i Smotri / Come and See (1985 – BIE) 

Guarda algumas da imagens mais poderosos que o cinema criou para exemplificar os horrores da guerra. Trata-se da invasão Nazista em aldeias da bielorússia, durante a Segunda Guerra Mundial. O amadorismo militar dos moradores locais frente a máquina de guerra alemã, e como fio condutor, um garoto (Aleksey Kravchenko) correndo como barata tonta, por entre as mãos da liderança local ou dos soldados alemães.

O diretor Elem Klimov trafega por entre o brutal e o irracional, principalmente pelas expressões impressionantes do rosto de Kravchenko. É o horror traduzido nas feições e olhares, na luta por sobrevivência. Estamos acostumados a atos de heroísmo no cinema, aqui temos apenas sequencias de horror  e comportamentos nefastos, em que impressiona o poder com que Klimov pode conceber imagens tão potentes ou claustrofóbicas. É o pior da guerra através de seu funcionamento ilógico e devatador. Um dos filmes mais acachapantes que o cinema poderá produzir, e sem dúvida inesquecível e perturbador.

Tian Mi Mi / Comrades: Almost a Love Story (1996 – HK) 

Quase uma fábula romântica contemporânea, o filme de Peter Chan narra o encontro de dois imigrantes da China continental, que chegam a Hong Kong em busca do conforto financeiro. Jun Li (Leon Lai) é o garoto ingênuo que pretende conseguir dinheiro para se casar com a namorada. Qiao Li (Maggie Cheung) é bem mais astuta, prática e interessada em voos maiores.

Há no filme muito do vislumbre de estar em Hong Kong, a China capitalista, onde se pode comer no McDonald’s, ou que o caminho para se dar bem na vida é aprender a falar inglês. Sem perder essa essência de imigrantes em busca de seus sonhos, a narrativa vai naturalmente aproximando esses amigos para uma atração incontestável, quase um amor irrealizável como dos filmes de Kar-Wai. Mas aqui, a mão de Peter Chan leva os personagens para outros caminhos, seja pelo clima adocicado que se coloca entre o brega-romântico e o hipnótico, seja pelos circulas altos e baixos que a dupla enfrenta em sua jornada financeira.

Olhares, silêncios, o não-dito, as canções de Teresa Teng (uma delas faz referência ao título original do filme), além da impressionante capacidade do cineasta em criar pequenas e saborosas (algumas até inesquecíveis) cenas, fazem do filme essa representação de personagens comuns vivendo um romance avassalador, tanto para eles, quanto ao público.

Possession (1981 – POL) 

Perturbadora alegoria de terror psicológico criada por Andrzej Zulawski a cerca da traumatizadora separação de um casal: Isabelle Adjani e Sam Neill. Infidelidade, violência, loucura, depressão, alguns dos elementos que o diretor polonês impõe a seu filme, em cenas que preferem o perturbador ao explicadinho. Há uma linha de história a se seguir, o marido traído, o amante mais velho e o filho pequeno do casal como arma de negociação. Porém, o filme está longe de buscar uma linha de história para contar, ao contrário, ele cria cenas e mais cenas que exploram a loucura dos comportamentos, que levam o público a se sentir à flor da pele com tantas alegorias tensas e enlouquecedoras.

Possessão é um petardo psicológico de personagens levados aos extremos, que ainda encontra em elementos sobrenaturais a completa personificação de metáforas enlouquecedoras. O horror familiar, a sensação do se sentir sufocado, e a fuga sexual como um refúgio transformador. Lembre-se de O Iluminado, mas também de alguns filmes de Polanski como Repulsa ao Sexo, e adicione estudos psicodramáticos e anda assim não será capaz de resumir a histérica alucinação que as imagens do filme de Zulawski evocam.


Festival: Cannes

Mostra: Competição principal

Prêmio: Melhor Atriz

Professione: Reporter (1975 – ITA/FRA) 

A recém-encerrada Mostra com filmes de Michelangelo Antonioni (exibida nos CCBB’s e Cinesesc) foi uma grande oportunidade de (re) descobrir um dos maiores cineastas italianos. E para não passar em branco pelo blog, escrevo aqui um pouco sobre Profissão: repórter, que quase, foi quase, superou Depois Daquele Beijo (Blow-up) como favorito em sua filmografia.

Em muitos dos seus principais filmes, Michelangelo Antonioni propunha a experiência cinematográfica por completo, através de uma imersão mais profunda do que propriamente no roteiro. Tempos mortos, imagens reflexivas, como se fossem um respiro entre o virar de uma página e outra, numa espécie de literatura cinematográfica. Aqui um jornalista (Jack Nicholson) na África, troca de identidade com a de um outro viajante. Gosta da brincadeira, mergulha totalmente nessa nova identidade.

Não importa o que veio antes na vida do jornalista, e nem mesmo o que virá depois. Somos apenas testemunhas desse caminho que Locke percorre agora, uma espécie de traficante de armas, vagando pelo deserto ou voltando a sua casa na Europa. E, desse caminho, Antonioni esbanja a arte da linguagem do cinema como forma de narrativa entre som e imagem. Planos abertos, cortes, enquadramentos inesperados, som e imagem em tempos diferentes até se fundiram no mesmo momento, e o genial e engenhoso plano-sequencia final, todos elementos que costuram esse fiapo de trama, que alguns podem achar chata, outros contundente, mas que, no fundo, se coloca apenas como artifício para Antonioni modernizar essa entidade que chamamos cinema.

Matou-a-familia-e-foi-ao-cinemaMatou a Familia e Foi ao Cinema (1969) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Júlio Bressane foi um dos precursores do cinema marginal, bem em meio a época da ditadura, por isso que este filme ficou apenas 1 semana em cartaz antes da censura retirá-lo dos cinemas. É resultado de um cinema vigoroso, fervilhante, por meio de algumas histórias trata a violência sob diversas formas. A primeira história tem um louco que mata sua família, com uma navalha, e vai ao cinema. O Filme (Perdidos de Amor) traz a metalinguagem ao roteiro, duas amigas e suas brincadeiras sexuais (nada sociáveis à época).

Há ainda o preso político morto sob tortura, e outras mortes ligadas a classe média baixa. Sempre filmados com urgência delirante, em planos-sequencias celebrais que marcam um cinema de estética marcante e desenvoltura libertária, que o torna um dos grandes filmes do cinema brasileiro.