Arquivo da categoria ‘5 Estrelas’

fogocontrafogoHeat (1995 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tenho essa leitura de que o gênero “filme policial” veio ocupar a lacuna deixada pelo Western. Espécie de atualização do gênero para esse novo ambiente urbano que se formou com o desenvolvimento. Eles continuam durões, empunhando armas, normalmente em caçadas entre vilões e o mocinho. Nesse critério de western atualizado, Fogo Contra Fogo nasceu clássico. Michael demorou anos entre o primeiro roteiro que escreveu, e finalmente filmá-lo a contento. Tentou que outro diretor encabeçasse o projeto (quando seu nome ainda não tinha o peso), tentou tranformá-lo numa série de tv (dessa ideia saiu L.A Takedown), e finalmente voltou ao proeto, com orçamento e dois dos maiores astros: Al Pacino e Rober DeNiro.

A trama foi baseada numa história real, um policial de Chicago, nos anos 60, que viveu uma caçada contra um criminoso meticuloso. Em quase três horas, Michael Mann é meticuloso em construir a relação de rivalidade/admiração entre policial (Pacino) e chefe da quadrilha (DeNiro). Lados opostos, personagens que se assemelham, seja na solidão, seja na adrenalina de perigo que os contamina, ou na integridade de sua integridade.

fogocontrafogo2Como uma panela com água no fogo, a fervura com que o policial aproxima-se na caçada de seu alvo torna o filme um labirinto que encurrala a quadrilha, enquanto isso, suas vidas seguem. Cada um deles tem seus laços afetivos: mulheres, filhos, família. As vidas não param no tempo, seguem simultaneamente, e Mann dá cabo dessa teia de relações complexas e problemática com alguns destes personagens. Dessa forma desenvolve frentes, constrói camadas e mais camadas, são mágoas e frustrações. Casamentos se acabando, outros em crise, amores surgindo. A vida náo para, as inventigações seguem, os planos de um novo assalto também.

A elegância com que filma a cidade: noturna, as luzes. A explosão que o policial carrega em sua vida (a cena em que ele leva a tv embora, por exemplo), são pequenos peticos deixados por Mann, enquanto prepara o público para as grandes cenas, tiroteios e perseguições em que o cineasta destila seu estilo, alucina com essa elegância transformada numa violência romântica. Cenas de tirar o fôlego, e ainda tão plasticamente bem planejadas, O embate num café, o plano e contra-plano, cada um desvendando seu oponente, o assalto ao banco e as perseguição nos minutos finais. O novo western, um clássico desde sua concepção.

madmaxfuriaemtodasMad Max: Fury Road (2015 – AUS/EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tom Hardy não demonstra a mesma figura marcante de Mel Gibson, ao reviver Max, esse sobrevivente-vingador das estradas da saga. Eeis que surge Charlize Theron como a verdadeira personagem forte da trama. Uma presença mais forte de Hardy faz falta: suas poucas falas e muitos resmungos o transformam em um mero distribuidor de chutes e pontapés. Assim, sobre espaço para a heroína Furiosa (Theron) roubar-lhe o carisma, o protagonismo, o filme.

Dito isso, o novo Mad Max é estupendo e insano. Nessa época de enxurrada de franquias retomadas, em que os novos filmes tem perdido, de goleada, aos anteriores, George Miller retoma o mundo pós-apocalíptico de Mad Max com a mesma fúria, e mais recursos tecnológicos capazes de oferecer um dos filmes mais alucinante do cinema. A trama se aproveita da mesma configuração de mundo um desolador. Água e combustível são os verdadeiros ouros da sobrevivência. Plantas e verduras beiram a extinção. Praticamente um reboot do segundo filme, mas com elementos que sugerem uma unificação entre este segundo e o terceiro (a fuga do grupo contando com a ajuda de Max para escapar da gangue, a cidadela sob controle ditatorial).

Depois de uns vinte minutos alucinantes, onde a narração em off evoca o passado de Max e explica a sociedade capitaneada pelo extravagante e regupgnante Immortan Joe (Hugh Keayes-Barney) e seus vivos-mortos, temos um breve fade-out (primeira chance do público respirar) e começa a caçada alucinante pelo caminhão dirigido pela Imperatriz Furiosa.

Olhos grudados na tela, a ação só para no pequeno alívio cômico no melhor estilo Victoria’s Secret. Aliás, vale mencionar como o cineasta desenvolve tão bem alguns personagens, mesmo no meio de tanta adrenalina e ritmo acelerado. As parteiras, o passado de Furiosa, Nux (Nicholas Hoult) representando os mortos-vivos, e até mesmo relações românticas que surgem em momentos de tanta intensidade.

George Miller prefere cenas mais realistas. Há menos efeitos especiais e mais dublês. Tudo é estiloso: as roupas de couro e metal, a guitarra que cospe fogo, os homens amarrados em longos cabos (como numa apresentação circense). A caçada entre estradas de terra batida, as caveiras e muito, muito Rock N’Roll. Miller envolve o público nesse universo alucinatório, extrapola todas as possibilidades que a cabine daquele caminhão oferece, destrincha as máquinas enquanto trafegam no máximo de sua velocidade. É pura adrenalina e pulsação, e os enquadramentos endeusam esses “cavalos” de metal que fazem barulho e soltam fumaça.

O veterano diretor reinventa sua própria obra, como se fosse possível voltar no tempo e refazer o passado. O trailer prometia muito, a entrega do filme é ainda melhor, um dos melhores filmes de ação de todos os tempos. O cinema de autor chuta a porta e invade o mainstream.

apaixaodejaoanadarcLa Passion de Jeanne d’Arc (1928 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

É impressionante a força narrativa com que Carl Theodor Dreyer resgata a heroína francesa. O filme é praticamente a reconstituição (baseada nos relatos guardados pela corte francesa) do julgamento de Joana d’Arc (Maria Faconetti). A câmera fixa, plano fechado na atriz, que chora, se desespera, fica desconsolada por não acreditarem em sua versão da história, nos sinais e falas de Deus. No contraplano os que julgam, inquisidores, ofensivos. O silencio do cinema mudo, a força da atuações, exageradas, poderosas.

A atuação de Maria Faconetti foi considerada a melhor de todos os tempos por Pauline Kael, talvez a crítica americana tivesse razão dessa vez. Dreyer, de forma seca, simples e angustiante, oferece a Faconetti as ferramentas para essa atuação desesparada, os olhares perdidos, a proximidade à sentença de morte, o peso da verdade e coação de mentir para se safar. A intensidade com que Dreyer castiga a atriz, praticamente resumindo seu filme ao seu rosto, é o que torna o julgamento cortante de tão penoso.

ofrancoatiradorThe Deer Hunter (1978 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A brutalidade da antológica sequencia de roleta russa, com vietnamitas se divertindo com soldados americanos capturados, é um dos momentos mais aterrorizantes que carrego na memória, desde criança. Inesquecível como Michael Cimino costura toda a cena com Michael (Robert de Niro) e Nick (Christopher Walken) à flor da pele, entre a loucura e a paura de enfrentar a morte, de frente. São momentos atordoantes, enlouquecedores, é a guerra diante de nossos olhos, sem glamour, em sua mais pura violência.

O roteiro da cabo do antes, durante e depois da Guerra do Vietña, praticamente um glossário das mutações causadas nos sobreviventes. Amizade, reconstrução de vida, infidelidade, instinto de sobrevivência, culpa, loucura. Sob a ótica de um grupo de amigos, Cimino constrói a irregularidade desses jovens que se divertem em casamentos e bebedeiras, divertem-se caçando na mata como numa terapia masculina, carregam o nacionalismo reluzente e o orgulho de servir o exército, enquanto deixam namoradas/esposas em casa. São dilemas, dúvidas, Cimino captando todas as inconsistências humanas.

No foco Nick, Michael, e Steven (John Savage), além de Linda (Meryl Streep), os caminhose seguidos por cada um, no pós guerra, traçam o retrato dos fragmentos dessa geração americana totalmente influenciada pelos horrores vividos. O emblemático reencontro de Michael numa caçada é a tradução precisa da irregularidade que ficará marcada em cada um daqueles meros trabalhadores de indústrias siderúrgicas.

doquevemantesMula sa kung ano ang noon / From What is Before (2014 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tão simples quanto fantástico. Quase no final da maratona, de quase 6 horas, a narração em off determina: “a memória de um cataclisma”. Câmera estática, longos planos fixos e abertos, o preto e branco que quase dá sensação do esverdeado da vegetação. Estamos numa zona rural das Filipinas, início da década de 70. Primeiramente o cineasta Lav Diaz, com sua narrativa hipnótica, insere o público no ritmo do vilarejo.

O sujeito que fabrica vinho artesanal – Tony (Roeder Camanag), o homem que cuida das vacas do fazendeiro – Sito (Perry Dizon), o garoto que deseja reencontrar os pais que desapareceram – Hakob (Reynan Abcede), as duas irmãs, Itang (Hazel Orencio) que abdicou de sua vida para tratar de Joselina (Haniel Karenina), que sofre de problemas mentais e o povo da região acredita que tenham poderes de cura. O padre católico Guido (Joel Saracho), a mascate intrometida Heding (Mailes Kanapi), há outros, o importante é afirmar a precisão com que Diaz desenvolve cada um deles, com a parcimônia que a longe dura lhe permite, mas com a riqueza de detalhes que os constroem como pessoas, não meros personagens.

O ar de “mau maior” cobre cada um dos planos, eles não, mas o público está sempre esperando pelo pior. O filme percorre dois anos, pacientemente entendemos o papel de cada um naquela sociedade, seus problemas, seu ganha-pão. Até que chega a lei marcial, o ditador Ferdinando Marcos impõe o decreto nº 1081, ato “democrático” que coloca os militares nas ruas, a caça aos comunistas. Diaz inicia o processo de desconstrução do vilarejo, a violência onde havia algo acima da paz, o terror. Estranhos fatos ocorrem: vacas morrem, cabanas incendiadas, os moradores começam a partir daquele lugar. O filme é direto, contundente, sem que deixe de ser pacato.

O caos chega de mansinho, os personagens se adaptam, aceitam, ou simplesmente fogem. Seus dramas beiram o limite a ponto das verdades chegarem à tona (Tony, Hakob, Joselina, Heding), os militares ditam regras, o toque de recolher num local inóspito. Lav Diaz capta o horror por lentes pacientes de registrar as transformações causadas no micro, onde as leis nem sequer chegam, onde as grandes decisões dos governos não ajudam em nada, mas quando trata-se dos interesses políticos, estes são lembrados e sacrificados como se tivessem qualquer consideração política.

movampirodessuldorfM (1931 – ALE) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Estupefato com o ritmo empregado por Fritz Lang, nem parece que foi filmado há mais de 80 anos. A trama é enxuta, minúscula, e baseada num caso real ocorrido na Alemanha. Uma série de assassinatos de crianças aterrorizando a cidade. À caça do serial killer capitaneada por comerciantes. Buscam justiça ao apenas proteger seus negócios?

Lang vai nos sufocando com as invetidas policiais e do grupo independente que investiga a identidade do serial killer. O charme do uso das sombras, o assobio característico, são pequenos elementos capazes de causar temor em todo o público. Tudo isso num ritmo narrativo dinâmico, por mais que haja apenas um bando de coadjuvantes invadindo casas e buscando pistas. Finalmente desobre-se o suspeito (Peter Lorre), começa a caçada, o expressionismo alemão ganha vida e causa pavor.

Antes de culminar na cena de um porão de uma fábrica abandonada (onde o horror está no julgamento, no silêncio apavorante, na capacidade humana de julgar impulsivamente), Lang já nos oferecia questões importantes como a destruição de um prédio comercial nas ações independentes, sem policia. Mas, são as poucas cenas daquele porão que catapultam M a um acontecimento histórico. A Alemanha pré Nazismo, o olhar desesperador de Peter Lorre, e as feições de reprovação do povo são lembranças que dificilmente serão apagadas da memória. Lang leva aqui o noir muito além, constrói um manifesto à sociedade alemã, ao poder do povo de criar sua própria justiça.

noiteeneblinaNuit et Brouillard (1955 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Obra-prima absoluta de Alain Resnais, um documentário sobre os campos de concentração Nazistas. São imagens de arquivo (em pb) misturadas com o colorido e florido dos campos abandonados. Com uma narração em off corrosiva, Resnais resgata o extermímio humano de forma mais que devastadora. O clima criado pelo documentário é extenuante, a sufocante sensação de ainda ser possível ouvir os gritos. Noite e Neblina conta sobre a chegada dos judeus, amontoados em vagões, a humilhação da vestimenta (ou da falta dela), as câmeras de gás, os corpos.

Se há um filme para jamais se esquecer de momento tão deplorável da história, esse filme é Noite e Neblina, narrado com uma poesia negra (texto de Jean Cayrol), e uma preocupação em detalhar a rotina dos campos que causa horror a cada frame. Uma memória histórico, um arquivo impecável e uma poesia devastadora capaz de desconsolar  por sua perversidade oriunda das imagens filmados pelos próprios Nazistas (crânios espalhados, o horror personificado).

lajeteeLa Jetée (FRA – 1962) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Por meio de fotografias o diretor Chris Marker cria uma das mais belas histórias de ficção científica do cinema. A Terceira Guerra Mundial, pessoas vivendo debaixo da terra após um ataque nuclear, os perdedores escravizados, num desses experimentos médicos um homem é levado ao passado e futuro, se apaixona por uma mulher dentro de sua mente, e no derradeiro fim ocorre no aeroporto de Orly. O conjunto de fotos em movimento, a mistura de infância e medo, com amor, Marker faz mágica com um ambiente tão claustrofóbico e degradante num pós-guerra apocalíptico.

A Imagem que Falta

Publicado: fevereiro 18, 2014 em 5 Estrelas, Cinema
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aimagemquefaltaL’image Manquante (2013 – CBJ/FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Não haveria título mais apropriado ao filme. Rithy Panh viveu uma daquelas histórias impressionantes, ainda garoto foi levado algo como um campo de concentração no Camboja após a chegada ao poder do grupo conhecido como Khmer Vermelho. Os comunistas governaram de 1975-1979 e foram responsáveis por um genocídio tenebroso contra qualquer um que fosse considerado inimigo.

Panh tem apenas poucas imagens de arquivo de Pol Plot e outros líderes da Kampuchea Democrática, mas a escassez de recursos não foram obstáculo. Seu documentário consiste de um relato autobiográfico, extremamente poético e simples, sem ser piegas, com a reconstituição de sua história, com bonecos de argila. A fome, o desespero, a violência, tudo retratado por esses bonecos tão simples cujas mãos calejadas dão os retoques finais.

aimagemquefalta2A simplicidade do barroco é contraponto ao poder dos relatos, Pahn faz da singeleza um dos mais potentes documentários dos últimos tempos. Ao mesmo tempo doloroso e equilibrado, sufocante e histórico, mais que um filme, uma obra de arte. Falta-lhe as imagens, sobra criatividade e o poder de contar sua história.

Aurora

Publicado: janeiro 5, 2014 em 5 Estrelas, Cinema, Domingo de Clássicos
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auroraSunrise: A Song of Two Humans (1927 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Foi com a obra-prima de F. W. Murnau que comecei meu ano cinéfilo de 2014, e duvido que haverá filme melhor. Porque há uma força intransgredível ali, o poder da natureza versus a própria natureza humana, tão capaz de fraquezas e loucuras, como a cegueira via paixão-faísca.

E esse poder de condensar tais conflitos se faz de maneira apoteótica e sublime na narrativa de Murnau, o fazendeiro se apaixona por uma mulher da cidade. Planeja a morte da esposa. Mas, no momento crucial, no exato instante do ato se arrepende e se reapaixona por ela.

Imperdoável? Talvez, mas esse renascimento é tão belo. Essa linha tênue entre o perdão e a mágoa, entre o acaso e o destino, o redescoberta como se voltasse a enxergar, esse conjunto torna de Aurora essa maravilha da sétima arte.